Folha de S. Paulo
Lula dança na corda bamba, mas ainda tem
tempo para despertar da ilusão de que seja o fortão de outrora
O problema do presidente talvez não seja
perder a eleição, mas ganhar sem força para governar mais quatro anos
A derrubada de uma indicação do presidente da
República ao Supremo Tribunal Federal é ato que reforça e anima a
oposição. Mas daí a dizer que isso sela destino de infortúnio para Luiz Inácio
da Silva (PT)
na eleição, há uma distância de efeitos a serem medidos pelas circunstâncias.
A batida metáfora das nuvens na política poucas vezes foi tão verdadeira como na quadra atual. Lula tem histórico de subidas e descidas, numa oscilação da qual tem mostrado capacidade de se safar com êxito.
Conviria à oposição considerar que ainda há
léguas a percorrer antes de se acomodar junto aos louros da vitória presumida.
O presidente desce mais alguns degraus no controle do Congresso, mas o governo não acabou pelo simples fato de que
está aí, na posse de poderosos instrumentos.
A questão é se saberá ou se poderá usá-los
sem ultrapassar limites legais que o levem a se complicar mais. Lula tem tempo
e espaço para despertar da ilusão de que seja o fortão do bairro Peixoto de
outrora, mas talvez ainda possa contar com a condição de sortudo que o fez
escapar de escaramuças como o mensalão e a condenação na Lava Jato.
Assim como o Nestor de "Antonico",
o presidente se encontra em grandes dificuldades; está mesmo "dançando na
corda bamba", como na composição de Ismael Silva. Mas não está com o jogo
perdido devido às recentes derrotas no Congresso.
Uma vaga no segundo turno está garantida para candidato governista,
seja Lula ou eventual substituto, como se especula, sem levar em conta que ele
não é homem de desistir; até agora sempre preferiu a dinâmica da fuga para a
frente.
Desta vez, ao insistir em enfrentar Davi Alcolumbre (União-AP) e companhia no Senado e
no Supremo, errou no cálculo. O campo do equívoco, contudo, não é de uso
exclusivo do presidente. Seus adversários também transitam por esse terreno,
conforme demonstrado pelos desacertos da campanha de Flávio
Bolsonaro (PL).
Problema real de Lula nem é perder; é ganhar
sem força para governar por mais quatro anos.

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