sexta-feira, 29 de maio de 2026

Governo Trump põe o terrorismo na eleição brasileira, por Carlos Alexandre de Souza

Correio Braziliense

Flávio não representa o governo. Mas a afinidade ideológica tornou-se um fator relevante a influenciar decisões na maior potência militar mundial

Na coluna de ontem, comentei que os encontros do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com a cúpula da Casa Branca colocaram o problema da segurança pública de volta ao centro de debate eleitoral no Brasil. No início da noite de ontem, o governo norte-americano deu uma resposta aos apelos feitos pelo parlamentar brasileiro. Em mensagem postada pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, a administração Trump anunciou que o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) passam a ser denominadas organizações terroristas.

Em uma análise preliminar, chama a atenção o fato de o governo brasileiro ter sido excluído da decisão anunciada pelos Estados Unidos. No início do mês, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou claro que não tratou do assunto no encontro com o chefe da Casa Branca, Donald Trump, em Washington. A participação de Flávio Bolsonaro nas tratativas com o governo norte-americano mostrou a existência de um canal paralelo com a administração Trump. O senador não representa ou pode falar pelo governo brasileiro no trato com nações estrangeiras. Mas a afinidade ideológica tornou-se um fator relevante a influenciar decisões na maior potência militar e econômica mundial.

O segundo ponto relevante é a questão da soberania. Boa parte das medidas previstas no enfrentamento de organizações terroristas estão circunscritas ao território norte-americano. Um exemplo é uma maior vigilância imigratória sobre pessoas suspeitas de colaborar com o PCC ou o CV. Está previsto, ainda, um maior rigor no controle de movimentação de recursos no sistema financeiro norte-americano.

O lado mais delicado, porém, é a possibilidade de os EUA comandarem ações de enfrentamento fora do território norte-americano. A mudança de status para organizações criminosas estrangeiras autoriza, em teoria, o trabalho de agências de inteligência como a CIA no combate ao crime organizado. No âmbito da América Latina, os Estados Unidos acumulam ofensivas contra o crime organizado no México, na Colômbia e, mais recentemente, na Venezuela. No caso desse país, o governo Trump fez uso de seu colossal poderio militar para prender o ditador Nicolás Maduro. E, sem apresentar detalhes das investigações, bombardeou uma série de embarcações suspeitas de transportar drogas para os território norte-americano.

Quanto aos possíveis desdobramentos da decisão do EUA, há uma expectativa sobre o que pode ocorrer no diálogo entre Brasília e Washington. É provável que o governo Lula recorra novamente à retórica de defesa soberania, em resposta às medidas drásticas provenientes da Casa Branca. Essa situação forçosamente cria um embaraço diplomático, pois o comunicado do Departamento de Estado também trata da soberania. "O governo Trump continuará usando todas as ferramentas disponíveis para proteger nossos interesses de segurança nacional e cortar financiamento e recursos de narcoterroristas", diz o texto assinado por Marco Rubio.

Desafio diplomático para o governo Lula, a nova postura de Washington terá inevitavelmente impactos relevantes na política brasileira, particularmente às vésperas de uma eleição. Conhecido pelo discurso linha-dura contra organizações criminosas, Flávio Bolsonaro encontrou o pretexto necessário para reforçar as críticas à política de segurança do governo Lula. Possivelmente, o parlamentar deve fazer uso da ironia para tratar de um assunto sério. Ontem, o pré-candidato fez um comentário lacônico ao comunicado do governo dos EUA. "Grande dia!", escreveu o senador, complementando com um sinal de "joinha".

O servilismo em relação aos Estados Unidos ficou mais evidente no ano passado, durante as operações dos norte-americanos no Caribe. Ao comentar um vídeo divulgado pelo secretário de Guerra do governo Trump, Pete Hegseth, em que uma embarcação é destruída pelas forças militares dos EUA, o 01 do clã Bolsonaro escreveu: "Que inveja! Ouvi dizer que há barcos como este aqui no Rio de Janeiro, na Baía de Guanabara, inundando o Brasil com drogas. Você não gostaria de passar alguns meses aqui nos ajudando a combater essas organizações terroristas?"

A essa altura dos acontecimentos, perdeu qualquer sentido a discussão se o PCC ou o CV seriam, de fato, organizações terroristas. Na teoria, as atividades desses grupos não poderiam ser classificadas como terroristas, pois não haveria um componente político nesse conjunto de ações, como a tomada formal do poder. Mas a extensão das atividades ilícitas comandadas por essas quadrilhas acabou por alimentar o discurso da direita.

Independentemente das divergências conceituais, o fato é que a segurança pública no Brasil, até ontem um tema inescapável na corrida eleitoral deste ano, escalou para se tornar um problema diplomático. Esse cenário pode mudar o jogo eleitoral, pois cria um imbróglio para Lula e um novo palanque para seu maior adversário na disputa.

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