Correio Braziliense
Flávio não representa o governo. Mas a
afinidade ideológica tornou-se um fator relevante a influenciar decisões na
maior potência militar mundial
Na coluna de ontem, comentei que os encontros do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com a cúpula da Casa Branca colocaram o problema da segurança pública de volta ao centro de debate eleitoral no Brasil. No início da noite de ontem, o governo norte-americano deu uma resposta aos apelos feitos pelo parlamentar brasileiro. Em mensagem postada pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, a administração Trump anunciou que o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) passam a ser denominadas organizações terroristas.
Em uma análise preliminar, chama a atenção o
fato de o governo brasileiro ter sido excluído da decisão anunciada pelos
Estados Unidos. No início do mês, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou
claro que não tratou do assunto no encontro com o chefe da Casa Branca, Donald
Trump, em Washington. A participação de Flávio Bolsonaro nas tratativas com o
governo norte-americano mostrou a existência de um canal paralelo com a
administração Trump. O senador não representa ou pode falar pelo governo
brasileiro no trato com nações estrangeiras. Mas a afinidade ideológica
tornou-se um fator relevante a influenciar decisões na maior potência militar e
econômica mundial.
O segundo ponto relevante é a questão da
soberania. Boa parte das medidas previstas no enfrentamento de organizações
terroristas estão circunscritas ao território norte-americano. Um exemplo é uma
maior vigilância imigratória sobre pessoas suspeitas de colaborar com o PCC ou
o CV. Está previsto, ainda, um maior rigor no controle de movimentação de
recursos no sistema financeiro norte-americano.
O lado mais delicado, porém, é a
possibilidade de os EUA comandarem ações de enfrentamento fora do território
norte-americano. A mudança de status para organizações criminosas estrangeiras
autoriza, em teoria, o trabalho de agências de inteligência como a CIA no
combate ao crime organizado. No âmbito da América Latina, os Estados Unidos
acumulam ofensivas contra o crime organizado no México, na Colômbia e, mais
recentemente, na Venezuela. No caso desse país, o governo Trump fez uso de seu
colossal poderio militar para prender o ditador Nicolás Maduro. E, sem
apresentar detalhes das investigações, bombardeou uma série de embarcações
suspeitas de transportar drogas para os território norte-americano.
Quanto aos possíveis desdobramentos da
decisão do EUA, há uma expectativa sobre o que pode ocorrer no diálogo entre
Brasília e Washington. É provável que o governo Lula recorra novamente à
retórica de defesa soberania, em resposta às medidas drásticas provenientes da
Casa Branca. Essa situação forçosamente cria um embaraço diplomático, pois o
comunicado do Departamento de Estado também trata da soberania. "O governo
Trump continuará usando todas as ferramentas disponíveis para proteger nossos
interesses de segurança nacional e cortar financiamento e recursos de narcoterroristas",
diz o texto assinado por Marco Rubio.
Desafio diplomático para o governo Lula, a
nova postura de Washington terá inevitavelmente impactos relevantes na política
brasileira, particularmente às vésperas de uma eleição. Conhecido pelo discurso
linha-dura contra organizações criminosas, Flávio Bolsonaro encontrou o
pretexto necessário para reforçar as críticas à política de segurança do
governo Lula. Possivelmente, o parlamentar deve fazer uso da ironia para tratar
de um assunto sério. Ontem, o pré-candidato fez um comentário lacônico ao
comunicado do governo dos EUA. "Grande dia!", escreveu o senador,
complementando com um sinal de "joinha".
O servilismo em relação aos Estados Unidos
ficou mais evidente no ano passado, durante as operações dos norte-americanos
no Caribe. Ao comentar um vídeo divulgado pelo secretário de Guerra do governo
Trump, Pete Hegseth, em que uma embarcação é destruída pelas forças militares
dos EUA, o 01 do clã Bolsonaro escreveu: "Que inveja! Ouvi dizer que há
barcos como este aqui no Rio de Janeiro, na Baía de Guanabara, inundando o
Brasil com drogas. Você não gostaria de passar alguns meses aqui nos ajudando a
combater essas organizações terroristas?"
A essa altura dos acontecimentos, perdeu
qualquer sentido a discussão se o PCC ou o CV seriam, de fato, organizações
terroristas. Na teoria, as atividades desses grupos não poderiam ser
classificadas como terroristas, pois não haveria um componente político nesse
conjunto de ações, como a tomada formal do poder. Mas a extensão das atividades
ilícitas comandadas por essas quadrilhas acabou por alimentar o discurso da
direita.
Independentemente das divergências conceituais, o fato é que a segurança pública no Brasil, até ontem um tema inescapável na corrida eleitoral deste ano, escalou para se tornar um problema diplomático. Esse cenário pode mudar o jogo eleitoral, pois cria um imbróglio para Lula e um novo palanque para seu maior adversário na disputa.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.