O Globo
Ao pressionar Trump por intervenção contra
facções, contra ministros do STF e contra a regulação das big techs, os
bolsonaristas sustentam que a soberania brasileira precisa ser gestada a partir
de Washington
A visita de Flávio
Bolsonaro à Casa Branca foi interpretada como simples manobra para
desviar a atenção do escândalo de suas relações com Daniel Vorcaro. Embora esse
objetivo deva ser considerado, não se podia desprezar o motivo alegado: o
pedido para que Trump classificasse organizações criminosas brasileiras como
terroristas — como depois o Departamento de Estado anunciou.
Críticos têm apontado — com razão — que a classificação de organizações criminosas brasileiras como terroristas ameaça a soberania brasileira. Com o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho incluídos na lista de organizações terroristas, os Estados Unidos passarão a poder aplicar sanções severas contra o sistema financeiro brasileiro caso instituições nacionais facilitem, ainda que involuntariamente, a circulação de capital ilícito. Os efeitos de uma medida desse tipo podem gerar isolamento econômico e abalo na confiança de investidores internacionais na rede bancária brasileira.
Ainda mais preocupante é o fato de a
designação como organização terrorista pelos americanos poder autorizar, no
limite, uma ação militar. Foi essa designação que, no caso do Cartel de los
Soles, forneceu a base legal para a operação militar que invadiu e bombardeou a
Venezuela, levando à captura de Nicolás Maduro.
Flávio e os bolsonaristas têm sido duramente
criticados por terem insistido numa ação administrativa americana cujos
desdobramentos podem colocar em xeque a soberania brasileira. Para sustentar
sua posição, recorreram a uma manobra retórica.
Para eles, o Estado brasileiro foi capturado
por grupos ideologicamente condescendentes ou incapazes de combater com
eficácia o crime organizado. Em qualquer dos casos, a importação de força
externa não representaria cessão, mas reapropriação da soberania diante de um
Estado brasileiro fraco e ilegítimo. Em entrevista ao Financial Times em março
de 2025, Jair Bolsonaro foi explícito: “Temos um problema de ditadura. O Brasil
não tem como sair dessa situação sozinho. Precisa de apoio internacional”.
Essa é a mesma forma de pensar que levou
Eduardo Bolsonaro aos Estados Unidos com o objetivo de pleitear sanções contra
autoridades brasileiras com base na Lei Magnitsky, na expectativa de
pressioná-las a libertar seu pai e outros presos do 8 de Janeiro.
Esse discurso também tem orientado os
governadores de direita que, em conjunto, formaram um “consórcio da paz” para
cooperação em segurança e passaram a tratar publicamente as organizações
criminosas como “narcoterroristas”.
Reportagem
de Malu Gaspar aqui no GLOBO mostrou que Cláudio Castro enviou
documento à embaixada americana solicitando a classificação do Comando Vermelho
como organização terrorista. No documento, o governo do Rio alega que “a
crescente sofisticação, transnacionalidade e brutalidade do Comando Vermelho
coloca a organização dentro dos critérios estabelecidos pelas autoridades dos
Estados Unidos para sanções econômicas, designações terroristas e bloqueio de
ativos”.
A estratégia, até agora, tem se mostrado
surpreendentemente popular. Pesquisa
da Quaest, divulgada pelo GLOBO, mostra que 72% dos fluminenses apoiam a
classificação de organizações do crime organizado como grupos terroristas.
Apenas 22% se dizem contra.
O argumento bolsonarista tem algo de
oportunista, mas parece revelar uma convicção genuína. Para eles, a soberania
nacional deixou de coincidir com o Estado brasileiro, e sua restauração depende
de uma intervenção estrangeira. A inversão é notável num campo político
historicamente nacionalista e só se torna inteligível quando os inimigos deixam
de ser nações concorrentes e passam a ser internos.
Ao pressionar Trump por intervenção contra
facções, contra ministros do STF e contra a regulação das big techs, os
bolsonaristas sustentam que a soberania brasileira precisa ser gestada a partir
de Washington. É o nacionalismo posto às avessas.
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