sexta-feira, 29 de maio de 2026

Trump: boia ou âncora, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao classificar facções criminosas como terroristas, Casa Branca cria riscos para economia e soberania brasileiras; candidato do PL já pediu bombas na Guanabara

Com o barco ameaçando fazer água, Flávio Bolsonaro remou até Washington para pedir socorro a Donald Trump. A direita festejou a foto do senador na Casa Branca. A questão é saber se ela servirá como boia ou como âncora para suas ambições presidenciais.

A viagem rendeu um alívio momentâneo ao Zero Um. A imagem com Trump cumpriu a tarefa de desviar as atenções do escândalo do Master. Pela primeira vez em duas semanas, Flávio apareceu nas manchetes sem a companhia do “irmão” Daniel Vorcaro.

O problema, para o senador, é que a foto no Salão Oval logo deixará de ser novidade. E a associação que ele tanto buscou pode vir a atrapalhá-lo na campanha.

No ano passado, Trump impôs um tarifaço de 60% aos produtos brasileiros. Foi uma chantagem explícita: ao anunciar a punição, ele cobrou o arquivamento dos processos contra Jair Bolsonaro. O resultado não foi bem o esperado. Em vez de encerrar os casos, o Supremo mandou o capitão para a cadeia. Lula engrenou um discurso nacionalista e reconquistou pontos nas pesquisas.

Ontem a Casa Branca anunciou a classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. Reivindicada por Flávio, a medida arrisca causar efeitos mais nocivos que o tarifaço. À economia e à soberania nacional.

O anúncio do Departamento de Estado marca o início da interferência americana no processo eleitoral do Brasil. No limite, pode servir de pretexto para ações militares unilaterais. Sob a alegação de combater o “narcoterrorismo”, o governo Trump tem atacado embarcações estrangeiras no Pacífico e no Caribe. Flávio se diz patriota, mas já disse torcer por um bombardeio americano à Baía de Guanabara.

Ao bajular o presidente americano, o candidato do PL também mostra ignorar sua fama de pé-frio. Desde que voltou ao poder, o republicano acumula derrotas ao tentar eleger aliados em países como Canadá, Austrália, Romênia e Hungria. Em outubro, saberemos se o trumpismo terá mais sorte por aqui.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.