sábado, 2 de maio de 2026

Jesus é de esquerda? Por Eduardo Affonso

O Globo

Entre os 12 apóstolos, nenhuma mulher, trans ou afrodescendente, logo ele não era assim tão inclusivo

Uma polêmica recente mostrou que há dois tipos de homem: os tóxicos (violentos, abusadores, misóginos) e os mais tóxicos ainda (que se reúnem para discutir masculinidade, paternidade, família, virtudes cristãs). Um dos argumentos contra esse segundo tipo é que ele não pode usar o cristianismo em sua cruzada conservadora, já que Jesus era de esquerda.

Muito adiante do seu tempo, o filho de Deus não teria mesmo dificuldade para se encaixar em conceitos ideológicos nascidos quase 1.800 anos depois de sua morte. Mas há controvérsias. Jesus multiplicou pães e peixes, transformou água em vinho — logo, era um empreendedor. Entre os 12 apóstolos, nenhuma mulher, trans ou afrodescendente — logo, não era assim tão inclusivo. Curou leprosos, cegos e paralíticos, sem perceber que o correto seria chamá-los de portadores de hanseníase, de deficiência visual ou locomotora — afinal, palavras matam. Jesus pode até ter feito o L na Santa Ceia e estar à esquerda do Pai — mas Deus é, com certeza, de direita.

Ele criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo, inventando a famigerada escala 6x1. Começou num domingo, com “Haja luz” — e houve luz, sem licitação, sem ouvir a sociedade civil, sem levar em conta se alguma minoria preferia continuar no escuro.

No segundo dia, separou as águas e criou o firmamento — dispensando projeto legal e Anotação de Responsabilidade Técnica (ou Registro de Responsabilidade Técnica, já que era o Supremo Arquiteto do Universo, não engenheiro). Tudo num sistema de total desregulamentação. Em seguida, criou as plantas. Era a gênese do agronegócio, que sabemos muito bem a quem interessa e aonde vai dar.

Então foi a vez de conceber o Sol (grande, luminoso, masculino), a Lua (miúda, sem luz própria, feminina) e as estrelas (que só aparecem quando o Sol deixa e cuja única função é tumultuar o mapa astral). Direita patriarcal, sem dúvida.

No quinto dia, vieram os animais do mar e do ar, que deviam se multiplicar — sem planejamento familiar nem acesso a métodos contraceptivos. Interrupção da gravidez, sem chance. Direita conservadora, na veia.

A sexta-feira foi ainda mais complicada: Deus afirmou ter criado os animais selvagens e os domésticos no mesmo dia. Darwin explicaria, alguns milhões de anos mais tarde, como a coisa realmente aconteceu. É negacionismo científico que chama?

E o pior estava por vir: gerou o homem e decidiu que ele dominaria todos os seres, numa estrutura vertical e especista. Só depois é que foi projetada a mulher (olha o patriarcado aí). Não satisfeito, proibiu o acesso à árvore do conhecimento. Tudo bem que hoje é a esquerda que prega a regulação dos meios de comunicação, mas a censura está historicamente associada à direita — como mostra qualquer filme brasileiro cuja trama se passe entre 1964 e 1985.

Então a serpente (venenosa, esquerdista, propagadora de fake news) induziu Adão e Eva ao erro. Como castigo, Deus exigiu que eles cobrissem suas vergonhas (ah, esse puritanismo reacionário) e os deportou do Paraíso (Trump feelings?).

Capitalista, condenou a espécie humana a ganhar o pão com o suor do rosto, sem sequer instituir imposto sindical ou Justiça do Trabalho. E, reiterando seu caráter misógino, determinou que as mulheres deveriam parir em dor (doulas e parto humanizado, nem pensar).

Tudo bem que, depois do Dilúvio, Deus desenhou no céu um arco-íris. Mas esse papo de o cristianismo ser de esquerda não me parece lá muito católico.

 

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