Folha de S. Paulo
Assistimos ao filme da derrota para a frente
Master, centrão e bolsonarismo? Delação de Vorcaro pode ser 'plot twist'?
Situação de petista se estreita, num processo
que já vinha se desenhando com a colaboração do próprio PT
Os efeitos eleitorais do grande revés
do presidente Lula no Senado, com a recusa do nome de Jorge Messias para
um lugar no Supremo Tribunal Federal, não podem ser subestimados. Não basta
considerar que o eleitorado não se preocupa com indicações ao STF e que o
tema será esquecido.
Como já
se analisou, a derrota, sem precedentes em 130 anos, é um sinal claro de
que a candidatura do petista ingressa numa nova fase do que já se configurava
como um processo de isolamento político e eleitoral.
Lula está sendo empurrado para um confinamento no campo da esquerda, num quadro em que se tornam mais difíceis ainda alianças valiosas do centro à direita.
Essa situação, num contexto de segundo turno
polarizado, retira do candidato aquela pequena, porém decisiva, fatia de
eleitores que decidiriam, na margem, o vitorioso.
O movimento de estreitamento já vinha de
vento em popa, com ajuda do PT, da soberba e das
futricas na cozinha do Palácio. Há um clima de confusão e mal-estar.
Lula já virou pato manco ("lame
duck", como os americanos se referem a um governante já sem capacidade de
governar) ou iniciativas na área de Segurança,
do Desenrola e do fim da jornada 6x1 podem mudar o quadro? Tais
medidas atrairiam votos das ruas ou tudo não passa de ilusão? Depois do abalo
causado pela operação contra Ciro Nogueira, a
delação de Vorcaro poderá ser uma virada no roteiro, um "plot
twist"? Tem potencial para atingir inimigos poderosos do presidente, mas
também amigos.
Por ora vemos crescer a frente que reúne o
partido do Master, centrão e bolsonarismo (com parte do Supremo e tudo), com
vistas a eleger um governo antipetista. Seria a consagração de Flávio
Bolsonaro, o fantoche da extrema direita no Executivo, sob a supervisão
dessa espécie de parlamentarismo delinquencial que se fortaleceu com a resposta
de Davi
Alcolumbre ao presidente. Um arranjo que de quebra oferece aos
mercados a cenoura do "ajuste fiscal" e privatizações, em troca de
uma cumplicidade já em parte consumada.
As conjecturas aqui
levantadas na semana passada acerca das chances, um tanto remotas, de
uma mudança de candidato –Lula abrindo alas para Fernando
Haddad ou Geraldo Alckmin–
se inscrevem nesse universo. São nomes com menor rejeição, que teoricamente
contariam com mais simpatias de setores relevantes da economia e mesmo de certa
classe média. Por outro lado não têm a força e a efetividade política de Lula.
Talvez a dúvida seja mais dramática do que isso: é melhor perder com quem?
Após o trauma do caso Messias, uma colega que
navega pelos mares da política me disse alguma coisa como "estou com a
sensação de que comecei a assistir ao filme da derrota de Lula na
eleição". A grande tragédia dessa premonição melancólica seria, claro, a
consequente vitória de um candidato desqualificado como Flávio Bolsonaro, que
reúne todas as condições de promover uma catástrofe nacional. O que chegou a se
desenhar como um truque de ocasião transformou-se em postulação, até aqui,
competitiva.
Lembremos quando faltavam meses para a eleição
do capitão e isso parecia a muitos olhos –entre os quais os meus– um desatino
inconcebível. Ao mesmo tempo algo dizia que marcharíamos de modo inelutável
para um desastre. Será que minha colega está assistindo ao filme errado?
Veremos.

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