sexta-feira, 8 de maio de 2026

Juros pelo núcleo de inflação? Por Celso Ming

O Estado de S. Paulo

Para o vice-presidente da República Geraldo Alckmin, o estrago produzido pelos juros altos ficará substancialmente reduzido se for feita uma pequena mexida na meta de inflação.

Se para definir os juros, em vez de medir a inflação pelo IPCA cheio (custo de vida), como é agora, for adotado o critério de núcleo de inflação, os juros podem despencar.

Núcleo de inflação, assim entendido, é o mesmo IPCA, só que expurgado das variações de preços dos alimentos e dos combustíveis, dois itens voláteis, sujeitos a frequentes choques de oferta. Chuva demais ou chuva de menos ataca os preços do chuchu; um espirro da Opep mexe com os preços do petróleo e do gás...

Alckmin observa que o Fed (banco central dos Estados Unidos) não fixa os juros básicos com base na inflação cheia, mas com base na variação do núcleo da inflação assim expurgada. É o que deveria ser adotado aqui, propõe ele.

Essa ideia poderia fazer sentido no Brasil se não houvesse uma quase impossibilidade. É que por aqui vigora a indexação (correção monetária), que são os reajustes de preços e valores pela inflação passada. Preços administrados (fixados pelo governo), o salário mínimo, aposentadorias, remuneração dos funcionários públicos, dívidas, impostos, aluguel, despesas de condomínio e tanta coisa mais sofrem reajustes pela inflação passada. Essa indexação é transferida para os demais preços e, assim, propaga a inflação.

Se é para trabalhar com o núcleo de inflação para definição dos juros, é preciso, também, ou acabar com a indexação, ou indexar também pelo núcleo os valores acima apontados. Na condução de sua política monetária, o Fed não enfrenta a contaminação dos preços pela indexação. Pode usar o núcleo sem maiores contra indicações. É grande equívoco defender a vigência em bruto também, por aqui, do sistema em uso nos Estados Unidos.

Quase sempre, quem quer reformar o sistema de metas de inflação se limita a atacar os sintomas e não as causas, que não se limitam à indexação.

O PT, em suas Diretrizes para o futuro, defende não apenas o fim da autonomia do Banco Central (e da política de juros). Quer, também, rever a meta de inflação. Entende que a meta, de 3% em doze meses, hoje em vigor, é baixa demais e, assim, exige juros altos para ser cumprida. A proposta é de aumentar essa meta para que a Selic possa ser mais baixa.

Também o PT não quer agir sobre as causas da inflação, que são as excessivas despesas do governo, que despeja dinheiro demais na economia. Não quer atacar a febre; quer mudar a escala do termômetro. •

 

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