Valor Econômico
Próxima indicação para o STF terá que ser
dialogada com o Senado, ainda que a ficha tenha voltado para as mãos de Lula
Um “choque de realidade” com consequências
ainda imprevisíveis. Assim é classificado, nos bastidores do governo, o
episódio que culminou na rejeição da indicação do advogado-geral da União,
Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal (STF).
As pontes do Palácio do Planalto com o STF e
a cúpula do Senado não serão mais as mesmas. As bases dessas relações foram
rachadas.
Também ficou a percepção, para interlocutores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que o palanque do petista em Minas Gerais pode estar sendo erguido sobre areia movediça e algo precisa ser feito. O Estado é o segundo maior colégio eleitoral brasileiro, território fundamental para quem quer vencer uma eleição presidencial. Mas, sobretudo, o que mais pesa nas avaliações de alguns interlocutores de Lula é o fato de o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que arrancou nas pesquisas de intenção de voto e transformou-se num incômodo adversário antes do que se esperava, sair com um importante troféu desta etapa preliminar da campanha.
Isto é, em uma campanha que terá o Supremo
como tema central, Flávio Bolsonaro conseguiu passar a mensagem de que apenas
como pré-candidato já é capaz de também encabeçar um movimento para barrar
indicações para o STF. “A mensagem que ele mandou para o eleitor e lideranças
partidárias é: imagine como presidente.”
Some-se a isso a inegável força gravitacional
gerada pelo senador sobre o Centrão nas sessões da semana passada, acrescenta
um auxiliar de Lula. Ficou evidente para quem estava no plenário do Senado na
última quarta-feira (29), durante a rejeição do nome de Messias, e no dia
seguinte, quando caiu o veto presidencial ao projeto que reduziu as penas dos
condenados por golpe de Estado, como parlamentares do Centrão faziam questão de
direcionar gestos políticos para o pré-candidato da oposição.
Diante desse cenário, passou-se a fazer um
diagnóstico das causas da histórica derrota, para que Lula e seus articuladores
políticos pudessem então tatear os possíveis caminhos a seguir.
Além da óbvia grave falha de articulação, a
autópsia constatou que insatisfações de aliados com as negociações para a
formação de palanques estaduais podem ter incentivado traições. Seria a forma
encontrada por aqueles que não conseguem ser ouvidos dizer que o exercício da
política segue abaixo das expectativas.
Faltou a presença de aliados na linha de
frente da articulação, inclusive no plenário na hora da votação. Em paralelo, a
máquina federal não teria rodado adequadamente para impulsionar a candidatura
do Planalto.
Além disso, poderia ter ocorrido maior
mobilização para adiar a votação, mas a opção geral foi a de mantê-la. Essa
também era a disposição no Planalto: embora representasse um vexame histórico,
uma eventual derrota ainda daria a chance de Lula fazer nova indicação ao STF
até dezembro.
A diferença entre as projeções que circulavam
entre os governistas e o resultado estampado no painel do Senado chegou a 20%,
ou seja, um abismo entre os 41 votos necessários para a nomeação e os 34
obtidos por Messias. Uma margem surpreendente e ao mesmo tempo inaceitável, na
visão de integrantes do governo.
Como resultado, uma ala passou a defender a
radicalização contra o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), a
começar pela exoneração de seus aliados instalados em cargos federais.
Esse grupo também acredita que Centrão e
oposição têm mais a perder com o avanço das investigações do caso Master.
Existe a expectativa de que Lula saia ileso dos fatos apresentados por Daniel
Vorcaro na delação que está sendo negociada com a Polícia Federal (PF) e a
Procuradoria-Geral da República (PGR). A revitalização da campanha “Congresso
inimigo do povo”, com pressão para a instalação de Comissões Parlamentares de
Inquérito (CPIs) na Câmara e no Senado, é outro resultado prático vindo dessa
turma. Assim como tentar implodir o palanque que estava sendo construído pelo
presidente em Minas Gerais, diante da avaliação de que o senador Rodrigo
Pacheco (PSB-MG) também teria sua parcela de responsabilidade pelo destino do
advogado-geral da União.
Em contraposição, há quem argumente ao
presidente que essa radicalização tornaria a crise ainda mais imprevisível.
Para esses aliados, que defendem a manutenção de uma aliança que contemple o
centro e temem os efeitos da crise sobre a agenda legislativa de interesse do
Planalto, Lula precisa identificar os interlocutores que ainda podem garantir o
mínimo diálogo com Alcolumbre. E Pacheco seria um deles.
Movido pela possibilidade de uma indicação ao
Supremo depois de outubro, argumentam nesta segunda ala, Pacheco deveria continuar
sendo motivado pelo presidente a trabalhar pela vitória de sua chapa em Minas.
Isso porque uma próxima indicação para o STF
inevitavelmente terá que ser dialogada com o Senado, ainda que a ficha tenha
voltado para as mãos de Lula. O presidente tem um trunfo novamente para
negociar, mas o que mudou a dinâmica do jogo neste momento foi a expectativa de
poder de Flávio Bolsonaro.

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