quarta-feira, 6 de maio de 2026

Mudança na expectativa de poder alerta aliados de Lula, por Fernando Exman

Valor Econômico

Próxima indicação para o STF terá que ser dialogada com o Senado, ainda que a ficha tenha voltado para as mãos de Lula

Um “choque de realidade” com consequências ainda imprevisíveis. Assim é classificado, nos bastidores do governo, o episódio que culminou na rejeição da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal (STF).

As pontes do Palácio do Planalto com o STF e a cúpula do Senado não serão mais as mesmas. As bases dessas relações foram rachadas.

Também ficou a percepção, para interlocutores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que o palanque do petista em Minas Gerais pode estar sendo erguido sobre areia movediça e algo precisa ser feito. O Estado é o segundo maior colégio eleitoral brasileiro, território fundamental para quem quer vencer uma eleição presidencial. Mas, sobretudo, o que mais pesa nas avaliações de alguns interlocutores de Lula é o fato de o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que arrancou nas pesquisas de intenção de voto e transformou-se num incômodo adversário antes do que se esperava, sair com um importante troféu desta etapa preliminar da campanha.

Isto é, em uma campanha que terá o Supremo como tema central, Flávio Bolsonaro conseguiu passar a mensagem de que apenas como pré-candidato já é capaz de também encabeçar um movimento para barrar indicações para o STF. “A mensagem que ele mandou para o eleitor e lideranças partidárias é: imagine como presidente.”

Some-se a isso a inegável força gravitacional gerada pelo senador sobre o Centrão nas sessões da semana passada, acrescenta um auxiliar de Lula. Ficou evidente para quem estava no plenário do Senado na última quarta-feira (29), durante a rejeição do nome de Messias, e no dia seguinte, quando caiu o veto presidencial ao projeto que reduziu as penas dos condenados por golpe de Estado, como parlamentares do Centrão faziam questão de direcionar gestos políticos para o pré-candidato da oposição.

Diante desse cenário, passou-se a fazer um diagnóstico das causas da histórica derrota, para que Lula e seus articuladores políticos pudessem então tatear os possíveis caminhos a seguir.

Além da óbvia grave falha de articulação, a autópsia constatou que insatisfações de aliados com as negociações para a formação de palanques estaduais podem ter incentivado traições. Seria a forma encontrada por aqueles que não conseguem ser ouvidos dizer que o exercício da política segue abaixo das expectativas.

Faltou a presença de aliados na linha de frente da articulação, inclusive no plenário na hora da votação. Em paralelo, a máquina federal não teria rodado adequadamente para impulsionar a candidatura do Planalto.

Além disso, poderia ter ocorrido maior mobilização para adiar a votação, mas a opção geral foi a de mantê-la. Essa também era a disposição no Planalto: embora representasse um vexame histórico, uma eventual derrota ainda daria a chance de Lula fazer nova indicação ao STF até dezembro.

A diferença entre as projeções que circulavam entre os governistas e o resultado estampado no painel do Senado chegou a 20%, ou seja, um abismo entre os 41 votos necessários para a nomeação e os 34 obtidos por Messias. Uma margem surpreendente e ao mesmo tempo inaceitável, na visão de integrantes do governo.

Como resultado, uma ala passou a defender a radicalização contra o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), a começar pela exoneração de seus aliados instalados em cargos federais.

Esse grupo também acredita que Centrão e oposição têm mais a perder com o avanço das investigações do caso Master. Existe a expectativa de que Lula saia ileso dos fatos apresentados por Daniel Vorcaro na delação que está sendo negociada com a Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR). A revitalização da campanha “Congresso inimigo do povo”, com pressão para a instalação de Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) na Câmara e no Senado, é outro resultado prático vindo dessa turma. Assim como tentar implodir o palanque que estava sendo construído pelo presidente em Minas Gerais, diante da avaliação de que o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) também teria sua parcela de responsabilidade pelo destino do advogado-geral da União.

Em contraposição, há quem argumente ao presidente que essa radicalização tornaria a crise ainda mais imprevisível. Para esses aliados, que defendem a manutenção de uma aliança que contemple o centro e temem os efeitos da crise sobre a agenda legislativa de interesse do Planalto, Lula precisa identificar os interlocutores que ainda podem garantir o mínimo diálogo com Alcolumbre. E Pacheco seria um deles.

Movido pela possibilidade de uma indicação ao Supremo depois de outubro, argumentam nesta segunda ala, Pacheco deveria continuar sendo motivado pelo presidente a trabalhar pela vitória de sua chapa em Minas.

Isso porque uma próxima indicação para o STF inevitavelmente terá que ser dialogada com o Senado, ainda que a ficha tenha voltado para as mãos de Lula. O presidente tem um trunfo novamente para negociar, mas o que mudou a dinâmica do jogo neste momento foi a expectativa de poder de Flávio Bolsonaro.

 

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