Inflação da guerra e da comida precisa ser enfrentada
Por Folha de S. Paulo
Altas dos preços de combustíveis e alimentos
geram efeitos sobre custos de outros setores da economia
Margem estreita para redução da Selic cria
panorama inóspito, mas chancelar um patamar inflacionário elevado prejudicaria
os mais pobres
As expectativas para a inflação deste ano sobem há oito semanas, em razão do impacto da guerra no Oriente Médio sobre os preços do petróleo e de seus derivados. De março para cá, segundo pesquisas do Banco Central, a projeção mediana se elevou de 3,91% para 4,89%, já acima do teto oficial —meta de 3% com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual.
As consequências do conflito iniciado no
final de fevereiro se refletiram de imediato no IPCA de março, que superou as
previsões e atingiu 0,88%, ante 0,7% no mês anterior. A alta foi amplamente
determinada por transportes (com variação de 1,64%) e alimentação (1,56%), a
despeito dos subsídios para combustíveis criados às pressas pelo governo Luiz
Inácio Lula da
Silva (PT).
São dois grupos de bens e serviços de grande
peso nos orçamentos domésticos e, portanto, explosivos para a popularidade de
um governante em ano eleitoral. O custo da comida, que já havia retomado
tendência de aumento antes da guerra, agora sofre efeito do encarecimento de
fretes e fertilizantes usados na lavoura.
Combustíveis e alimentos também têm em comum
preços voláteis, sujeitos a choques de oferta fora do controle da política
econômica, decorrentes do clima ou da geopolítica. Por isso, em momentos como o
atual, é recorrente o argumento de que seria inútil elevar os juros do
BC, que só afetam a demanda de consumidores e empresas —como repetiu
o vice-presidente, Geraldo
Alckmin.
A tese tem base na realidade, tanto que
bancos centrais e analistas fazem diferentes cálculos dos chamados núcleos da
inflação, na tentativa de excluir choques temporários. O BC brasileiro, por
exemplo, em diversas ocasiões recentes optou por dar mais tempo para o recuo da
inflação, em vez de tentar cumprir a meta a ferro, fogo e recessão.
Daí não se deve concluir, porém, que a
política de juros pode ficar inerte diante da carestia provocada pela guerra
—que se espalhará por outros setores da economia se não for enfrentada.
É o que o BC chama de "impactos
potenciais de segunda ordem" na ata da reunião do Comitê
de Política Monetária divulgada nesta terça-feira (5). No documento, a
autoridade monetária indica como se estreitou a margem para a queda da
taxa Selic,
ainda que tenha promovido um corte de 14,75% para 14,5% ao ano.
Se, no início do ano, acreditava-se que seria
possível fechar este 2026 com juros de 12%, hoje já se trabalha com 13% ou
acima. Prenuncia-se um panorama mais inóspito para o próximo governo, que
herdará um Orçamento deficitário e uma dívida
pública em escalada contínua e alarmante.
Pior seria, de todo modo, chancelar um
patamar mais alto de inflação, que se perpetuaria por sucessivos repasses de
custos e reduziria o poder de compra da população, sobretudo a mais pobre. O BC
ganhou autonomia formal justamente para não se deixar influenciar por
conveniências eleitorais de ocasião.
Os impactos de longo prazo da violência
doméstica
Por Folha de S. Paulo
Pesquisa internacional mostra que vítimas
tendem a sofrer com problemas de saúde durante anos
Taxa global de mulheres agredidas por
parceiros é de 20,1%, enquanto o Brasil, com 10,4%, tem a 2ª menor cifra da
América Latina
A violência
doméstica contra mulheres não é um problema só de segurança,
mas de saúde pública.
É o que mostra o Global Burden of Disease, estudo internacional coordenado pela
Universidade de Washington que, de 1990 até a versão mais recente de 2025,
quantifica a perda de saúde causada por doenças, lesões e fatores de risco.
Em janeiro deste ano, um relatório do GBD
publicado no periódico de medicina The Lancet revelou dados
específicos sobre a violência contra o sexo feminino.
Em 2023, 608 milhões de mulheres com 15 anos
ou mais já haviam sido agredidas pelo parceiro íntimo, o equivalente a 20,1% do
estrato global. A África subsaariana
tem a taxa mais alta (22,6%).
O bloco que engloba Europa e Ásia central
(12,4%) é o mais bem colocado, seguido por América Latina e Caribe (14,7%). Uma
notícia que traz certo alívio é a taxa do Brasil, de 10,4%, a segunda menor da região —Cuba
tem 6,5%.
Além da prevalência da violência, a pesquisa
também estima os impactos de longo prazo das agressões na qualidade de vida.
No mundo, a violência contra mulheres
cometida por parceiros respondeu por 12,8 milhões de anos de vida saudável
perdidos em 1990, ante 18,5 milhões em 2023. Mas, quando se considera o tamanho
da população, a taxa caiu de 686,5 anos por 100 mil mulheres para 624,4 por 100
mil.
Já no Brasil, os indicadores bruto e per
capita subiram, de 297 mil anos perdidos para 513 mil anos, e de 567,3 anos por
100 mil mulheres para 594,1 por 100 mil.
Tais dados refletem o fato de que mulheres
que são ou foram agredidas por parceiros tendem a apresentar problemas de saúde
que podem durar anos, mesmo após a separação, como depressão, ansiedade,
autolesão, uso abusivo de drogas, contaminação por HIV e aborto.
Por ser um crime que ocorre no lar e no qual
o agressor vive com a vítima, a violência doméstica exige ações integradas para
lidar com sua complexidade, que envolvam educação, saúde e Justiça, apoio
psicológico e social e campanhas de conscientização.
Também são necessárias delegacias e varas
especializadas, informatização dos processos, medidas protetivas, casas de
acolhimento às vítimas e monitoramento estatístico contínuo.
A impunidade, que estimula o crime e
fragiliza vítimas, exige maior agilidade. E o Brasil tem muito a melhorar nessa
seara.
De acordo com dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), os casos de violência doméstica demoram em média 429 dias para serem julgados, enquanto a fila de processos chega a 1,3 milhão.
Novo Desenrola é programa eleitoreiro com
efeito nocivo
Por O Globo
Perdão ou alívio recorrentes a dívidas punem
o bom pagador e criam incentivo à irresponsabilidade
Nem passaram três anos do primeiro Desenrola,
e o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva lançou na segunda-feira uma nova edição do programa de renegociação de
dívidas. Não é necessário poder sobrenatural para prever que será um dos temas
usados à exaustão na campanha eleitoral. Do começo ao fim, o Desenrola 2.0 é
uma iniciativa eleitoreira. Foi organizado em quatro frentes para ampliar o
impacto dos votos que pode gerar: famílias, estudantes com débitos no Fies,
agricultores, micro e pequenas empresas. Para os beneficiados, o efeito pode
ser positivo, mas qualquer alívio será temporário, como foi o último Desenrola.
Os problemas estruturais que aumentam o endividamento do brasileiro continuam
intocados — e, desses, nem Lula nem ninguém no governo não quer nem ouvir
falar. Não houve medida alguma para conter o gasto público ou aliviar a pressão
que o desequilíbrio fiscal exerce sobre a taxa de juros, principal causa da
inadimplência e da escalada nas dívidas.
Para um governo ávido pela reeleição, o que
interessa é atingir o maior público possível — a meta declarada é chegar a 100
milhões. Sobre os efeitos negativos, nenhuma palavra. Para famílias e
empreendedores de negócios até médio porte, fica claro que tomar crédito sempre
resultará em perdão de governos em busca de votos. O Desenrola estimula o
endividamento irresponsável e pune quem paga as prestações em dia. Em termos de
educação financeira, é um retrocesso flagrante.
Para seduzir a classe média, o governo
ampliou o público-alvo, para devedores com renda de até cinco salários mínimos
(R$ 8.105), ante dois salários no programa anterior. Dívidas atrasadas entre 90
dias e dois anos poderão ser renegociadas. As modalidades permitidas incluem
crédito pessoal não consignado, cartão de crédito e cheque especial. Os
descontos variam entre 30% e 90%, com até 48 meses de prazo para pagar e
carência de 35 dias. O devedor poderá usar até 20% do saldo do FGTS ou até R$ 1
mil (o que for maior). A lista de bondades inclui ainda juros de no máximo
1,99% ao mês.
Como ocorreu no Desenrola de 2023, quem
estiver com nome sujo por dívida de até R$ 100 será excluído das bases de
devedores. No consignado, haverá redução do limite para crédito e eliminação de
linhas com juros mais altos. O Desenrola Rural oferecerá prazo ampliado para
facilitar a renegociação. Microempresas e empresas de pequeno porte poderão
ampliar limites de financiamentos e obter mais tempo para pagar. No Fies, o
desconto poderá chegar a 99% — praticamente um perdão.
Em seu discurso, Lula falou em libertar o
povo das dívidas. “Se isso acontecer, todo mundo vai poder comprar mais, o
comércio vai vender, as empresas vão produzir, o povo vai ficar mais feliz, e
sem nenhuma dívida para pagar”, afirmou. Só no mundo da fantasia o mercado de
crédito deixará de ser distorcido, em prejuízo de todos. A consequência mais
óbvia é o encarecimento do próprio crédito com o incentivo maior à
inadimplência.
O principal motivo para o endividamento do
brasileiro é o desequilíbrio fiscal no Estado. Ao gastar mais do que arrecada,
o governo aumenta a dívida pública, pressiona a inflação e força o Banco
Central a manter os juros nas alturas. É justamente o custo exorbitante do
dinheiro que faz as dívidas crescerem exponencialmente. Sem contas públicas
equilibradas, nenhum Desenrola será capaz de mudar tal realidade.
Omissão crônica em prevenção eleva custo das
tragédias depois de chuvas
Por O Globo
Gasto com reconstrução é o triplo do
investimento para prevenir danos, conclui análise de dados do TCU
O Brasil tem repetido erros ao lidar com
tragédias causadas por desastres naturais, como as chuvas que castigam estados
do Nordeste, onde já provocaram pelo menos oito mortes, deixaram mais de 10 mil
desabrigados ou desalojados e impuseram transtornos à população. Nos últimos 14
anos, o governo federal gastou com reconstrução de áreas atingidas o triplo do
gasto com prevenção, de acordo com levantamento feito pelo GLOBO com base em
dados do Painel de Gestão de Riscos e Desastres do Tribunal de Contas da União
(TCU).
Entre 2012 e 2026, o Estado empenhou R$ 24,4
bilhões em ações de resposta e recuperação a desastres, ante R$ 9,6 bilhões em
prevenção. Desse valor, foram efetivamente pagos R$ 21,6 bilhões e R$ 6,8
bilhões, respectivamente. As respostas incluem medidas emergenciais de
assistência, como distribuição de água, cestas básicas ou material de higiene.
A recuperação envolve reconstrução de estruturas danificadas e pequenas obras
de contenção. As verbas para prevenção dizem respeito a drenagem, contenção de
encostas e intervenções destinadas a evitar, ou ao menos reduzir, efeitos das catástrofes.
Para o TCU, esse padrão configura uma
estratégia “reativa”, considerada ineficaz e mais dispendiosa. Com base em
dados internacionais, a Corte diz que cada US$ 1 investido em prevenção pode
economizar até US$ 15 em reconstrução. O modelo equivocado expõe também a falta
de coordenação entre governo federal, estados e municípios, uma vez que as
ações de prevenção dependem em boa parte de intervenções locais, enquanto a
reconstrução costuma recair sobre a União.
O pouco-caso com a prevenção fica patente
também na falta de empenho para se preparar. Segundo números da Confederação
Nacional de Municípios, 68% das cidades nem têm mapeamento de risco, 57% não
dispõem de sistemas de alerta, 44% não têm setor responsável pelo monitoramento
de eventos e 46% não contam com equipes treinadas — iniciativas básicas que
deveriam ser obrigatórias.
Gestores de todos os níveis de governo
costumam se agarrar aos índices pluviométricos para tentar encobrir as lacunas
na prevenção. Num mundo convulsionado pelas mudanças
climáticas, porém, não há qualquer perspectiva de que os eventos extremos
darão trégua. Ao contrário, tendem a ser mais frequentes e intensos. Ser pego
despreparado só agravará a situação.
Há décadas, o Brasil convive com tragédias provocadas pelas chuvas. Mudam as cidades, as regiões, as datas, mas as situações são praticamente idênticas. Não é admissível assistir sempre às mesmas cenas de famílias soterradas pela lama, moradores implorando socorro no telhado, motoristas arrastados pela correnteza, cidadãos usando porta de geladeira como bote salva-vidas. Não há como evitar chuvas torrenciais, mas é possível reduzir danos, desde que haja investimento em prevenção. Uma das respostas necessárias é retirar famílias das áreas de risco. Mas como fazer isso se muitas cidades não sabem sequer quem são, quantas são e onde estão?
Aspirina eleitoral
Por O Estado de S. Paulo
Governo trata a doença crônica do
endividamento das famílias com pílulas de populismo, sem atacar a essência do
problema: o dinheiro é caro porque a dívida pública é cada vez mais alta
Premido por um desconfortável empate técnico
nas pesquisas eleitorais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou uma
nova edição do Desenrola para socorrer, novamente, os brasileiros encalacrados.
Em 2023, o foco eram famílias, cujos níveis de endividamento atingiam níveis
recordes. Ao todo, 15 milhões de pessoas foram beneficiadas e R$ 53 bilhões em
dívidas foram alvo de renegociação. Os indicadores até melhoraram por um tempo,
mas menos de um ano depois já estavam piores do que antes.
Agora, o problema se agravou ainda mais, e o
humor do brasileiro piorou. A Confederação Nacional do Comércio de Bens,
Serviços e Turismo (CNC) aponta que 80,4% das famílias estavam endividadas em
março, o maior nível da série histórica da pesquisa. Em outro recorde, o Banco
Central (BC) apurou que o endividamento das famílias atingiu 49,9% de sua
renda. Não é por acaso. Dívidas com cartão de crédito, cheque especial e
crédito pessoal não consignado são caras e, se não são pagas em dia, aumentam
exponencialmente com o tempo.
Mas em vez de reconhecer os limites do
Desenrola, o governo Lula optou por dobrar a aposta na iniciativa. O ministro
da Fazenda, Dario Durigan, disse que a primeira edição do programa, lançada em
junho de 2023, foi concebida na expectativa de que a taxa básica de juros seria
reduzida ao longo do tempo, algo que acabou por não se concretizar. À época, a
Selic estava em 13,75% ao ano. O Banco Central até chegou a reduzi-la a 10,5%
em meados de 2024, mas voltou a elevá-la em setembro daquele ano, ocasião em
que classificou, em ata, a política fiscal do governo como “expansionista”. Os
juros subiram até atingir o patamar de 15% em junho de 2025, e por lá ficaram
por meses até que começassem a cair em março deste ano.
Não será muito diferente dessa vez. A Selic
está em 14,5% ao ano, e a projeção do mercado, segundo o boletim Focus, é de
que a taxa encerre o ano em 13%. O impacto da guerra no Oriente Médio nos
preços é inegável, a duração do conflito é uma incógnita e a política econômica
de Donald Trump é ciclotímica, mas muitas das razões que explicam a resiliência
de nossa inflação e a piora das expectativas do mercado são internas.
Ora, juros altos, de fato, castigam o
consumidor, mas o BC não é o vilão desse enredo. Simplesmente não há como
manter a taxa básica de juros baixa quando o governo gasta mais do que
arrecada. O arcabouço fiscal tem sido incapaz de conter a trajetória da dívida
pública. As taxas são elevadas porque o governo precisa de dinheiro para
financiar e rolar sua própria dívida.
Juros altos, por sua vez, servem – ou
deveriam servir – justamente como um sinal para conter a demanda e,
consequentemente, a inflação. Mas o governo, em vez de colaborar com a política
monetária, rema na direção oposta. O Executivo dá o exemplo ao não conter seus
gastos e promover a gastança, e o relançamento do Desenrola evidencia o
problema. A esperança – quiçá a certeza – de que o governo, em algum momento,
virá em socorro dos endividados funciona como um estímulo para o consumo e o
calote.
Para as instituições financeiras, será um
negócio excelente, já que dívidas antes irrecuperáveis serão repactuadas e
passarão a contar com a garantia de um fundo público. Desta vez, além das
famílias, foram incluídos universitários com dívidas no Fundo de Financiamento
Estudantil (Fies), micro e pequenos empreendedores e agricultores familiares.
Segundo a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), 27,7 milhões de pessoas
poderão ser alcançadas, e o estoque da dívida renegociada pode atingir R$ 97,3
bilhões.
A fúria eleitoreira está à toda, e, nos
bastidores, há quem diga que o Executivo ainda pretende apresentar, nas
próximas semanas, uma proposta para ampliar o acesso ao crédito de quem pagar
suas dívidas em dia, mas está com o com orçamento no limite, com foco na
população de baixa renda. Ou seja, edições futuras do Desenrola já estão
praticamente contratadas para os próximos anos, e o Banco Central não pode se
dar ao luxo de fechar os olhos para esse cenário se quiser preservar o poder de
compra da moeda, que é sua função primária.
Um governo que gosta das sombras
Por O Estado de S. Paulo
Retenção de pedidos de informação na Câmara e
barreiras à transparência no governo Lula revelam padrão que dificulta acesso a
dados e enfraquece instrumentos de fiscalização
Uma reportagem recente do Estadão que revelou a
retenção de centenas de requerimentos de informação por um deputado do PT,
integrante da Mesa Diretora da Câmara, não é um episódio isolado. Ao contrário,
funciona como ponto de partida para um diagnóstico mais preocupante.
Levantamento deste jornal mostra que, até poucos dias atrás, cerca de 600 dos
pouco mais de mil requerimentos apresentados por deputados neste ano ainda aguardavam
envio ao Executivo pelo primeiro-secretário da Câmara, deputado Carlos Veras
(PT-PE). Entre eles, claro, havia pedidos sobre o escândalo do Banco Master. As
explicações foram as de praxe: a Câmara afirmou que todos seguem tramitação
regular e destacou o aumento do volume de solicitações, e o deputado petista
sustenta que os pedidos obedecem ao fluxo institucional e atribui a demora à
complexidade do processamento. Mas o fato incontestável é que os dados
disponíveis indicam um represamento relevante.
O ponto central não é apenas o número de
requerimentos parados, mas o que isso representa. O requerimento de informação
é um dos instrumentos mais básicos de fiscalização parlamentar. É por meio dele
que o Legislativo exige dados, confronta versões e obriga o Executivo a prestar
contas. Quando esse mecanismo perde ritmo, perde-se também a capacidade de
controle.
E isso não é uma abstração. Requerimentos de
informação já foram decisivos para revelar inconsistências relevantes na
administração pública. Durante a pandemia, por exemplo, foi por meio desse
instrumento que o Ministério da Saúde admitiu ter inflado o número de vacinas
anunciadas, reconhecendo que havia contratado cerca de metade das doses
divulgadas oficialmente. O episódio ilustra a função prática desses pedidos:
não apenas produzir informação, mas corrigir versões oficiais.
Esse movimento no Legislativo dialoga com a
atitude do próprio Executivo. Reportagens recentes mostram que, embora o
governo Lula tenha sido eleito com o discurso de reconstrução institucional e
ampliação da transparência, o acesso a informações públicas frequentemente
depende de contestação ou pressão externa. Não se trata de fluxo aberto, mas de
um processo condicionado.
Os exemplos são numerosos. Houve tentativa de
restringir o acesso a milhões de documentos de convênios no sistema
TransfereGov. A divulgação de agendas da primeira-dama, Rosângela Lula da
Silva, enfrentou resistência inicial. Informações sobre gastos públicos, como
uso de aeronaves oficiais e despesas em residências oficiais, foram negadas ou
limitadas. Dados sobre potenciais conflitos de interesses também sofreram
restrições, revertidas apenas após questionamento.
Há ainda um elemento estrutural no uso da Lei
de Acesso à Informação. A invocação recorrente da proteção de dados pessoais,
com interpretações amplas, tem aumentado na prática o alcance do sigilo. Um
instrumento criado para garantir transparência passa, em parte, a ser utilizado
para restringi-la.
Quando esse cenário do Executivo se combina
com o bloqueio de requerimentos no Legislativo, o problema se aprofunda.
Forma-se um duplo obstáculo. De um lado, o governo dificulta o acesso. De
outro, o Parlamento reduz a cobrança. A consequência é direta: menos informação
disponível e menor capacidade de fiscalização.
Não se trata de ruptura explícita nem de um
ato isolado. O que se observa é um acúmulo de práticas que, somadas, produzem
efeito semelhante. A transparência não é formalmente negada, mas vai sendo
limitada por entraves administrativos, interpretações restritivas e inércia
institucional.
Esse padrão contraria o compromisso assumido
pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva de ampliar a transparência após
retrocessos recentes. Transparência não se afirma no discurso. Depende de
acesso efetivo, resposta tempestiva e funcionamento pleno dos instrumentos de
controle.
Sem informação, não há fiscalização. E, sem
fiscalização, enfraquece-se um dos pilares do regime democrático. O
represamento de requerimentos e as restrições no Executivo não são detalhes
administrativos. São sinais de um problema institucional que precisa ser
enfrentado.
As agruras de Milei
Por O Estado de S. Paulo
Não dá para se dizer ‘antissistema’ e ao
mesmo tempo compactuar com corrupção
A popularidade do presidente da Argentina,
Javier Milei, não vai bem. Diferentes institutos de pesquisa apontam que mais
de 60% da população tem visão negativa do governo. Já no Índice de Confiança no
Governo, da Universidade Torcuato Di Tella, Milei tem o segundo pior desempenho
de seu mandato, atrás apenas do registrado em setembro do ano passado, quando
estourou o escândalo de propinas envolvendo sua irmã, Karina Milei, que também
é figura central do governo no cargo de secretária-geral da presidência.
A percepção de que pessoas muito próximas do
presidente estão envolvidas em corrupção agora atingem com mais força o chefe
de gabinete do presidente, Manuel Adorni, contra quem pesam suspeitas de
enriquecimento ilícito. Em março, a mulher de Manuel Adorni, Bettina Angeletti,
que não tem cargo no governo, embarcou ao lado do marido e do próprio Milei no
avião presidencial que transportou o mandatário para uma visita oficial a Nova
York. Parece evidente a confusão entre público e privado.
Como se sabe, funcionários públicos exibindo
sinais de riqueza incompatíveis com seus contracheques, bem como o uso de
aviões governamentais por quem não tem motivo algum para fazê-lo, são práticas
corriqueiras na América Latina. Quando se candidatou à presidência, Milei não
apenas prometeu que levaria a cabo um duro ajuste econômico, como também
pregava energicamente contra a corrupção tão arraigada nos governos que o
antecederam.
Traumatizados por anos de incúria peronista,
os argentinos deram a Milei e seu discurso antissistema um voto de confiança,
tornando-o presidente. Uma vez no poder, Milei passou a adotar as ações amargas
que prometeu, reduzindo a máquina pública e cortando subsídios, medidas
impopulares que os argentinos abraçaram porque não aguentavam mais a inflação
astronômica e a falta de perspectivas em um país que já foi uma das economias
mais prósperas do mundo. A inflação recuou fortemente e o país voltou a ter
superávits primários consecutivos (2024/2025), algo inédito desde 2008.
Em reconhecimento, os argentinos deram a
vitória ao partido de Milei, o A Liberdade Avança, nas eleições legislativas do
fim do ano passado, em um sinal de disposição de seguir adiante com as reformas
estruturais do libertário.
As sucessivas denúncias de corrupção contra
figuras-chave do governo, porém, podem comprometer a capacidade do governo de
seguir adiante com medidas necessárias – e impopulares. Embora acusações contra
Adorni não parem de surgir, Milei tem defendido seu chefe de governo e
utilizado o caso para atacar a oposição, cuja popularidade é ainda menor que a
do governo.
Não parece ser a melhor estratégia, porém,
especialmente em momento em que a questão do custo de vida tanto aflige a
população.
Os argentinos elegeram Milei para cortar na carne, mesmo que lhes doesse, e para ser implacável contra a corrupção. Medidas austeras não terão apoio se a população entender que Milei, apesar do discurso feroz contra as “castas”, abre exceções para seus próprios intocáveis.
Redistribuição de royalties desrespeita a
Constituição
Por Valor Econômico
A lei em questão reduz a parcela da União e a
dos Estados e municípios produtores de petróleo e gás natural nos royalties e
aumenta um fundo especial, destinado à divisão entre não produtores
O Supremo Tribunal Federal julga hoje uma
liminar dada há 15 anos pela ministra Cármen Lúcia suspendendo a lei 12.734, de
2012, que determinava nova repartição dos recursos de royalties e participações
especiais entre Estados e municípios produtores de petróleo e gás natural,
entes federados não produtores e a União. Em disputa está a divisão de R$ 81
bilhões (2025). A presidente Dilma Rousseff vetou a nova partilha em 2012 e o
Congresso derrubou os vetos. Coube então ao procurador estadual do Rio de
Janeiro, Luís Roberto Barroso, depois ministro do Supremo e hoje aposentado, o
recurso ao STF alegando a inconstitucionalidade da lei.
A lei em questão reduz a parcela da União nos
royalties de 30% para 20%, a dos Estados e municípios produtores, de 61% para
26%, e aumenta um fundo especial, destinado à divisão entre não produtores, de
8,75% para 54%. Na participação especial, a fatia dos entes federados
produtores cairia a menos da metade (de 50% a 24%), e a dos não produtores iria
de zero a 30%. Em ambos os casos, a distribuição daria maior fatia a quem não
produz petróleo ou gás.
Uma reviravolta desse porte afetará três
Estados que concentram hoje o recebimento dos recursos: Espírito Santo, São
Paulo e Rio de Janeiro. O Rio de Janeiro, cuja participação nos royalties no
ano passado foi de 85,5% do total, e de 88,35% na participação especial,
sofreria uma drenagem de recursos irrecuperável, com o agravante de
encontrar-se em péssima situação financeira desde pelo menos a recessão de
2015, ano em que ficou sem verbas até para pagar os servidores públicos.
Os Estados produtores defendem o que
estabelece o parágrafo primeiro do artigo 20 da Constituição, que lhes assegura
“compensação financeira” pela exploração de petróleo ou gás natural em seu
território, plataforma continental ou mar territorial. A compensação valeria
também para exploração de recursos hídricos para produção de energia elétrica e
outros recursos minerais. Como acontece em petróleo e gás, não há distribuição
de royalties nesses dois outros casos a outros Estados.
A compensação financeira serve para ressarcir
os custos de degradação do ambiente por acidentes na extração e transporte da
produção, custear infraestrutura que é pressionada pela migração de pessoas em
busca de trabalho, atraídas pela riqueza trazida pelo petróleo, e o consequente
aumento dos gastos com saúde, habitação, educação e assistência social. A cidade
fluminense de Macaé, por exemplo, viu quase dobrar sua população, para 246,4
mil habitantes, entre 2000 e 2022.
Representantes políticos e empresariais do
Rio argumentam que os Estados não produtores se beneficiam dos recursos da
produção de petróleo do Estado por meio do ICMS, que, nesse caso, é cobrado no
destino e não na origem. Segundo Luiz Caetano, presidente da Federação das
Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), os Estados não produtores receberam R$
64 bilhões por meio desse imposto no ano passado. A nova repartição prevista
pela lei, se for considerada constitucional, será um tiro certeiro na
arrecadação do Estado — 25% da receita corrente líquida advém da exploração de
petróleo e gás. O baque seria de 9% dessa receita, com redução de cerca de R$ 8
bilhões para o Estado e R$ 13 bilhões para os municípios.
A situação financeira do Estado do Rio é
ruim, e não é este o ponto que deve ser levado em conta na votação, e sim o
desrespeito à Constituição. Mas é agravante o fato de que o Rio terá que arcar
com um baque indevido enquanto está no Regime de Recuperação Fiscal e deve R$
225 bilhões, sendo R$ 193 bilhões diretamente à União. A gestão das finanças
públicas fluminenses nos últimos governos foi péssima, sem que conseguissem
obter superávits primários mínimos para amortizar os débitos. Cinco dos
governadores dos últimos 30 anos foram presos. Wilson Witzel sofreu impeachment
e seu vice, Claudio Castro, assumiu e renunciou antes do fim do mandato. O
déficit primário projetado para este ano é de R$ 19 bilhões, e o de 2027 é só
um pouco menor, estimado em R$ 13 bilhões. As contas, que já estão no vermelho
com a abundante receita de royalties e participações especiais do petróleo,
ficarão ainda piores, colocando o Estado diante da insolvência.
A abundância de recursos advindos do petróleo e gás também tornou os municípios deles dependentes, sem que com isso os indicadores sociais e desenvolvimento da maioria apresentassem melhoria significativa. Mas essa é uma outra discussão, que não invalida ter de haver o respeito constitucional na distribuição dos recursos. O súbito desaparecimento dos recursos dos royalties e participações causará uma crise social na maioria dos municípios produtores. Em um Estado às voltas com uma avançada infiltração do crime organizado nas instituições do Estado, a nova repartição em julgamento no STF é a pior coisa que pode acontecer ao Rio. O Supremo deveria rejeitá-la.
Cooperação sim, mas com ressalvas
Por Correio Braziliense
A pressa em chancelar facções sob a métrica
do terrorismo exige cautela diplomática, frieza institucional e muito
pragmatismo por parte do Palácio do Planalto
O encontro marcado para esta quinta-feira
entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump deve colocar na
mesa, entre outros temas, uma demanda sensível e de alto impacto: a proposta de
classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como
organizações terroristas. A disposição de Washington em colaborar com o combate
ao crime organizado no Brasil ataca uma urgência nacional inquestionável. Mas a
pressa em chancelar essas facções sob a métrica do terrorismo exige cautela
diplomática, frieza institucional e muito pragmatismo por parte do Palácio do
Planalto. Aceitar a ajuda é imperativo. Aceitar o enquadramento, não.
O PCC e o CV operam hoje como holdings
transnacionais do narcotráfico: ditam o ritmo da violência urbana, asfixiam o
comércio local, contaminam a política em nível municipal e transformam portos e
aeroportos em escalas do tráfico para a Europa. Diante desse cenário de
falência tática, a recusa por auxílio externo seria mera teimosia ideológica. A
ajuda tecnológica, financeira e de inteligência norte-americana é bem-vinda e
necessária. A história do continente o comprova: na Colômbia, a parceria com
Washington forneceu a musculatura financeira e militar determinante para
desmantelar os megacartéis, como os de Medellín e Cali, que pareciam
invencíveis. O Brasil não pode fingir que está em situação diferente.
Contudo, a parceria bélica e investigativa
não exige submissão cega. No xadrez jurídico internacional,
"terrorismo" não é um simples adjetivo para atestar a crueldade de um
grupo. Sob a legislação norte-americana, essa chancela autoriza o acionamento
de sanções extraterritoriais, o congelamento sumário de ativos e, em casos
extremos, manobras de intervenção que podem atropelar instâncias locais.
Significa dizer que qualquer cidadão, empresa ou banco brasileiro com relações,
ainda que periféricas e involuntárias, com indivíduos ligados a essas
organizações ficaria sujeito a punições definidas em Washington. Aceitar esse
enquadramento é expor a guarda da soberania nacional e abrir um precedente pelo
qual a política de segurança pública do Brasil passaria a ser pautada, e
eventualmente julgada, por tribunais estrangeiros.
Há, ainda, o risco doméstico frequentemente
subestimado: a legislação antiterrorismo é uma faca de dois gumes. No Brasil,
onde a tipificação do terrorismo já foi usada como ameaça contra movimentos
sociais, conferir esse status formal ao PCC e ao CV sem balizas legislativas
claras pode criar um arsenal jurídico suscetível a abusos futuros.
A diplomacia brasileira deve apresentar-se na
quinta-feira munida de um realismo árido e de uma contraproposta concreta. O
caminho é o sim à cooperação de inteligência para rastrear a logística
financeira das facções, inclusive no monitoramento de criptoativos. O sim à
integração de dados de fronteira e ao uso de satélites norte-americanos de
vigilância, e ao compartilhamento de informações sobre rotas do narcotráfico
que alimentam os grupos no continente. O que Brasília precisa recusar, com
firmeza e com argumentos técnicos, é a etiqueta jurídica que transforma essa
cooperação em tutela.
Evitar a chancela de terrorismo está bem longe de uma condescendência com criminosos. É uma exigência elementar de proteção do Estado. Aceitar a ajuda operacional para vencer uma guerra interna é um imperativo de sobrevivência institucional. Entregar as chaves da jurisdição nacional sob o pretexto de um alívio rápido seria assinar um atestado de subordinação difícil de se livrar.
A maioria dos jovens não conclui a graduação
Por O Povo (CE)
É preciso avançar em políticas que garantam
aos estudantes do ensino superior condições de concluirem seus estudos
A percepção de que se vive em um país com
graves problemas sociais advém quando se observa que a resolução ou a mitigação
de um problema carrega consequências que continuam dificultando a sua
superação. As cotas raciais e sociais e outros programas de incentivo
permitiram que milhares de jovens tivessem acesso às universidades,
oportunidade que seria muito mais difícil sem as políticas afirmativas.
A introdução vem a propósito do estudo divulgado, na edição de segunda-feira, mostrando que
mais da metade dos estudantes que ingressaram no ensino superior nos últimos
dez anos não concluiu a graduação. É um número expressivo considerando-se que a
conclusão de uma faculdade representa uma vitória para o jovem e para a sua
família. Estudo do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais
Anísio Teixeira (Inep) mostra que, dos estudantes que iniciaram o ensino
superior a partir de 2015 até 2024, 57% deles abandonaram o curso, enquanto 39%
concluíram os estudos.
Para o professor da Universidade Federal do
Ceará (UFC) Wagner Bandeira Andriola, com pós-doutorado em Psicologia
Social e Antropologia da Educação, o abandono da graduação é uma combinação de
fatores contextuais e individuais.
No entanto, destaca ele, um dos aspectos mais
críticos é a insuficiência de assistência estudantil. Segundo a análise do
professor, metade dos alunos de instituições públicas de nível superior
ingressou por meio de cotas, egressos de escolas públicas, jovens que demandam
"cuidados específicos", principalmente quanto à assistência
estudantil, como apoio financeiro e de suporte pedagógico. Sem esse
auxílio, diz o professor, "os alunos acabam se evadindo".
Andriola ainda apresenta vários outros
fatores que interferem na permanência dos estudantes, como cor da pele, gênero
(mulheres têm maior taxa de evasão), como obstáculos para a continuidade dos
estudos.
Mas a necessidade de trabalhar é apontada por
ele como uma das variáveis mais determinantes, independentemente de gênero,
pois a conciliação entre estudo e trabalho tende a comprometer o desempenho
acadêmico, já que reduz o tempo para atividades complementares.
Como se pode observar, as políticas
afirmativas têm um papel importante ao facilitar o acesso de estudantes
oriundos de segmentos sociais vulneráveis pudessem cursar uma universidade,
como muitos fizeram. No entanto, é preciso avançar ainda mais, de modo que
aqueles que cheguem às universidades tenham condições de concluir os seus
estudos.
Mas ainda é preciso lembrar que, apesar de
todas as dificuldades, estudos comprovam que estudantes que acessam o
ensino superior por meio de cotas têm desempenho equivalente a de seus
colegas que entram pelo sistema de ampla concorrência.

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