O Globo
O Banco Master está liquidado — e liquidando
a carreira de muita gente —, mas os sócios devem estar bem
Mesmo morando em Minas, onde a energia
elétrica era fornecida pela Cemig, passei a infância ouvindo minha mãe dizer
que não era sócia da Light. Uma
lâmpada esquecida acesa, a porta da geladeira mantida aberta enquanto se
brigava com a alavanca da forminha de gelo, e lá vinha ela:
— Não sou sócia da Light!
O sonho de toda mãe dos anos 1960 devia ser a oportunidade de comprar ações da companhia e, assim, deixar de se preocupar com a televisão ligada sem ninguém assistindo, o chuveiro elétrico em uso por mais de cinco minutos — ou com a erfráier e o ar-condicionado, se esses avanços tecnológicos existissem naquela época.
Pois, nesta semana, a mensalidade do meu
plano de saúde subiu 9%. Em compensação, caiu o número de médicos credenciados,
e é cada vez mais difícil agendar uma consulta. O tempo de espera pelo
atendimento no 0800 é de dar burnaute em Jó, ou eu ligaria e atualizaria o
bordão para “Não sou sócio do Master”.
O Banco Master está
liquidado — e liquidando a carreira de muita gente —, mas os sócios devem estar
bem. Bem melhor que os pensionistas de estados e municípios cujos
administradores, talvez por ser filhos de sócias da Light, não tiveram lições
domésticas sobre gestão e responsabilidade fiscal.
A taxa do meu condomínio é uma pequena
fortuna. Aqui, neste Brasil em miniatura, gasta-se mais do que se arrecada.
Investe-se em perfumaria e obras “emergenciais” — os elevadores e as exigências
do Corpo de Bombeiros que esperem sentados. O fundo de reserva está cada vez
mais longe da reserva e mais perto do fundo. Hora de deixar o recado no livro
de reclamações: “Não sou sócio do Master”.
O novo mantra consegue substituir outro
clássico da infância: “Dinheiro não dá em árvore”. Esse era usado por meu pai e
meus avós, diante da demanda incessante por gibis, autorama, álbum de
figurinhas, spirograph, bola, bicicleta, picolé. Hoje sabemos onde o dinheiro
dá: em fundos de pensão, institutos de Previdência, bancos públicos e, por fim,
no Fundo Garantidor de Créditos. Tudo isso fora do meu, do seu, do nosso
alcance.
“Não sou sócio do Master” vale também como
opção a “louco é quem rasga dinheiro”. Por exemplo, no financiamento da
hagiografia cinematográfica “Dark Horse” — caso único em que o filme original
já é a paródia de si mesmo. Se bem que, nesse caso, o eventual fiasco da obra
destinada aos devotos pode vir a se tornar um megassucesso de bilheteria se o
produto for redirecionado ao público que queira se divertir com uma comédia do
tipo “Corra que a milícia vem aí”. (Se você ainda não leu o roteiro, saiba que
não fica nada a dever a “Fogo no rabo”, da TV Pirata. E custando a bagatela de
R$ 134 milhões — pouca coisa mais que o investido, sem o mesmo potencial de
entretenimento, num escritório de advocacia.)
Em 2018 e 2022, a esta altura do ano, eu
estava em campanha pela terceira via, por uma alternativa a rachadinhas,
maracutaias, negacionismos, mensalões, orçamentos secretos e afins. Em 2026,
com o país tão mal administrado quanto meu condomínio, tão abusivo quanto meu
plano de saúde e tão inapelavelmente entregue aos que se associaram ao Master,
desisti de desperdiçar energia. Afinal, não sou sócio da Light.

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