sábado, 30 de maio de 2026

Não sou sócio do Master, por Eduardo Affonso

O Globo

O Banco Master está liquidado — e liquidando a carreira de muita gente —, mas os sócios devem estar bem

Mesmo morando em Minas, onde a energia elétrica era fornecida pela Cemig, passei a infância ouvindo minha mãe dizer que não era sócia da Light. Uma lâmpada esquecida acesa, a porta da geladeira mantida aberta enquanto se brigava com a alavanca da forminha de gelo, e lá vinha ela:

— Não sou sócia da Light!

O sonho de toda mãe dos anos 1960 devia ser a oportunidade de comprar ações da companhia e, assim, deixar de se preocupar com a televisão ligada sem ninguém assistindo, o chuveiro elétrico em uso por mais de cinco minutos — ou com a erfráier e o ar-condicionado, se esses avanços tecnológicos existissem naquela época.

Pois, nesta semana, a mensalidade do meu plano de saúde subiu 9%. Em compensação, caiu o número de médicos credenciados, e é cada vez mais difícil agendar uma consulta. O tempo de espera pelo atendimento no 0800 é de dar burnaute em Jó, ou eu ligaria e atualizaria o bordão para “Não sou sócio do Master”.

Banco Master está liquidado — e liquidando a carreira de muita gente —, mas os sócios devem estar bem. Bem melhor que os pensionistas de estados e municípios cujos administradores, talvez por ser filhos de sócias da Light, não tiveram lições domésticas sobre gestão e responsabilidade fiscal.

A taxa do meu condomínio é uma pequena fortuna. Aqui, neste Brasil em miniatura, gasta-se mais do que se arrecada. Investe-se em perfumaria e obras “emergenciais” — os elevadores e as exigências do Corpo de Bombeiros que esperem sentados. O fundo de reserva está cada vez mais longe da reserva e mais perto do fundo. Hora de deixar o recado no livro de reclamações: “Não sou sócio do Master”.

O novo mantra consegue substituir outro clássico da infância: “Dinheiro não dá em árvore”. Esse era usado por meu pai e meus avós, diante da demanda incessante por gibis, autorama, álbum de figurinhas, spirograph, bola, bicicleta, picolé. Hoje sabemos onde o dinheiro dá: em fundos de pensão, institutos de Previdência, bancos públicos e, por fim, no Fundo Garantidor de Créditos. Tudo isso fora do meu, do seu, do nosso alcance.

“Não sou sócio do Master” vale também como opção a “louco é quem rasga dinheiro”. Por exemplo, no financiamento da hagiografia cinematográfica “Dark Horse” — caso único em que o filme original já é a paródia de si mesmo. Se bem que, nesse caso, o eventual fiasco da obra destinada aos devotos pode vir a se tornar um megassucesso de bilheteria se o produto for redirecionado ao público que queira se divertir com uma comédia do tipo “Corra que a milícia vem aí”. (Se você ainda não leu o roteiro, saiba que não fica nada a dever a “Fogo no rabo”, da TV Pirata. E custando a bagatela de R$ 134 milhões — pouca coisa mais que o investido, sem o mesmo potencial de entretenimento, num escritório de advocacia.)

Em 2018 e 2022, a esta altura do ano, eu estava em campanha pela terceira via, por uma alternativa a rachadinhas, maracutaias, negacionismos, mensalões, orçamentos secretos e afins. Em 2026, com o país tão mal administrado quanto meu condomínio, tão abusivo quanto meu plano de saúde e tão inapelavelmente entregue aos que se associaram ao Master, desisti de desperdiçar energia. Afinal, não sou sócio da Light.

 

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