Correio Braziliense
A realidade costuma prevalecer sobre as
fantasias dogmáticas, sejam de caráter político, ideológico ou simples modismos
de última hora
Sou remanescente dos melhores momentos do jornalismo no Brasil, época em que os repórteres dos jornais diários não eram obrigados a competir com as notícias 24 horas da tevê a cabo. Os jornalistas tinham a possibilidade de viajar para qualquer lugar em que houvesse chance de uma boa reportagem. No meu tempo de Veja, por exemplo, anos setenta, fui de avião pequeno, teco-teco alugado, ao encontro dos indígenas gigantes nas margens do Rio Peixoto de Azevedo, na divisa dos estados do Amazonas e Mato Grosso.
Hoje no local existe uma cidade. Na época,
era selva amazônica. Dormi no mato, com os indígenas. Tive a rara oportunidade
de presenciar o primeiro contato de selvagens com os brancos, representados por
Cláudio Villas Boas, personagem de outro planeta, filósofo, tranquilo e
profundo conhecedor do Brasil. A reportagem virou matéria de capa da Veja e
ocupou mais de seis páginas da revista.
O jornalismo atual foi invadido pelas mesas
redondas de especialistas e jornalistas que começam a responder a qualquer
pergunta com as palavras mais mortais no mundo da imprensa: "eu
acho". O país está saturado por notícias falsas, informações exageradas,
incompletas, afirmações sem fundamento que aparecem nos noticiários de
televisão e são corrigidos nas edições seguintes. Não é um fenômeno brasileiro,
é universal. Estamos todos submetidos à pressa, ao trabalho de apuração
malfeito, à preguiça que invadiu as redações, além de definições das ideologias
e dos modismos em vigor. No caso de Brasília, as entrevistas pessoais foram
substituídas pela conversa ao telefone celular. Tudo é improviso, submetido aos
rigores do espaço disponível e dos humores do jornalismo ao vivo.
A eleição presidencial brasileira é notável
nesse sentido. Só há candidatos de direita, contra um senhor de mais de 80 anos
que, teoricamente, representa a esquerda. A campanha se sustenta, pela falta de
ideias, no desfilar de escândalos. O banqueiro que corrompeu boa parte dos
poderosos brasileiros infiltrou-se em todos os lugares. Tem até uma parte da
sociedade que comanda um clube de futebol em Minas Gerais. Daqui a pouco, vão
descobrir esse pedaço de escândalo.
De escândalo em escândalo, o debate eleitoral
não chega a lugar nenhum. Aliás, nenhum dos candidatos apresentou alguma
proposta parecida com programa de governo. Ninguém projeta o futuro. A única
preocupação é garantir vantagens pessoais para seu grupo. Nem o atual
presidente conseguiu apresentar seu projeto de país para os próximos quatro
anos.
O extremista procura se colocar sob a asa de
Donald Trump, o que é lamentável porque a eleição vai ocorrer no Brasil, não
nos Estados Unidos. O governo norte-americano agora administra o futuro da
Venezuela. Deve servir de horizonte para o filho de Jair, se for eleito. Mas
ninguém se lembrou de fazer as perguntas certas ao candidato. Mesmo porque é de
conhecimento público que ele não tem as respostas.
É lamentável chegar a esse nível de
descompromisso com a notícia. Tempos atrás, anos sessenta, neste mesmo Correio
Braziliense, era um foca iniciante que fazia o turno da noite. Chegava no
jornal às 18 horas e saia depois da meia noite, quando a primeira página era
concluída. Meu chefe era o Alfredo Obliziner, editor de saudosa memória, ótimo
jornalista e grande companheiro. Quando irritado, ficava vermelho de raiva.
Parecia que ia explodir.
Minha função era auxiliar no fechamento da
primeira página. Fazia títulos, reescrevia matérias e produzia legendas. Numa
determinada noite, encontrei Alfredo a ponto de estourar. Havia um militar na
redação. Não me lembro da patente. Estava uniformizado. Entregava o material ao
Alfredo, e ele passava ao militar. Depois o texto voltava para minha apreciação
todo rabiscado. Censura.
O militar dizia o que podia e que não podia
ser publicado. Censura de corpo presente. O devaneio da ditadura. Ninguém
consegue impedir a narrativa da história, nem o correr dos fatos. Mas os
censores tinham a pretensão de reescrever a realidade. O espaço é pequeno para
assunto tão controverso. A atividade dos censores resultou em muita confusão.
Uma edição inteira do Correio chegou a ser empastelada. O pessoal ficou preso
na redação toda a noite.
Mas, um dia o vento muda. E mudou. Os
militares voltaram para os quartéis, e o Brasil se reencontrou com a
democracia. A realidade costuma prevalecer sobre as fantasias dogmáticas, sejam
de caráter político, ideológico ou simples modismos de última hora. As
narrativas perdem a validade diante das verdades universais. Não há alternativa
para a realidade. Estive em 1980 na União Soviética. Na época, era o seu esplendor.
Fui de Moscou a Tashkent, na Ásia. Comunismo por todos os lados. Relatei minha
experiência numa série de oito reportagens que foi publicada neste Correio. Um
dia o vento virou e aquilo tudo foi demolido pela força dos fatos. A verdade
pode demorar a chegar, mas prevalece.

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