Resenhar o livro mais recente do Prêmio Nobel em Ciências Econômicas de 2001 dispensa apresentações, dada a sua ampla reputação no mundo. Na hipótese de alguém ainda não ter tido a oportunidade de conhecê-lo, Joseph E. Stiglitz é professor da Universidade Columbia e economista-chefe do Instituto Roosevelt. Foi presidente do Conselho de Assessores Econômicos do Presidente Clinton e economista-chefe do Banco Mundial. Ao longo de sua extensa carreira, Stiglitz desenvolveu uma perspectiva crítica sobre as abordagens correntes na economia e sobre os resultados (ineficientes e injustos) da economia de livre mercado (ou como ele sabiamente chama de “economia de mercado descontrolada”, sem regulação, regulamentação e/ou mecanismos de controle). Ele elaborou essa perspectiva crítica da economia em seus livros como A Globalização e seus Malefícios (2002), O mundo em queda livre (2010), O Preço da Desigualdade (2013), O grande abismo: sociedades desiguais e o que podemos fazer sobre isso (2016) e Povo, poder e lucro: Capitalismo progressista para uma era de descontentamento (2020), entre muitos outros.
Para começar, vamos ler um trecho da seção
intitulada O caminho para o populismo, do
capítulo 14, intitulado Democracia,
liberdade, justiça social e a boa sociedade: “Empunhando a própria bandeira da
liberdade, os neoliberais, e, ainda mais, a extrema Direita tem defendido
políticas que restringem as oportunidades e liberdades (tanto políticas quanto
econômicas) da maioria em favor de uns poucos. Todos esses fracassos econômicos
e políticos associados ao neoliberalismo prejudicaram grandes parcelas da
cidadania, muitas das quais responderam com uma guinada para o populismo,
atraídas por figuras autoritárias como Trump, Bolsonaro, Putin e Modi. Esses
homens procuram bodes expiatórios para explicar o que deu errado e oferecerem
respostas simplistas para questões complexas.” (Joseph E.
Stiglitz. O caminho para a liberdade:
Transformar a Economia e a Sociedade, criando um futuro livre para todos.
São Paulo, Benvirá: 2025. p. 283).
Essa passagem revela o tom da argumentação do
livro, que coloca de pé a perspectiva econômica e sua conexão incontornável com
a política, e isso torna necessária uma revisão do trabalho teórico à luz da
questão da economia política, mais intimamente ligada à filosofia política e ao
direito e não só.
O Caminho para a Liberdade revisita conceitos importantes como: ideologia, as questões ambientais e sociais (estas muito importante e pouco estudadas), assimetria de informação (que lhe valeu o Prêmio Nobel), o papel do Estado e a economia do setor público.
Para Stiglitz, a economia não pode ser vista
isoladamente e precisa ser entendida na sua relação com a política e outras
dimensões. Nesse sentido, Stiglitz trará à baila aspectos da economia
comportamental e da economia institucional, para examinar o papel do Estado e
suas limitações. do mercado no mundo globalizado.
Neste contexto, o livro levanta uma questão
fundamental para as conjunturas: como podemos pensar em liberdade em tempos nos
quais forças políticas dos extremos (como a extrema-direita) deseja se
apropriar desse ideal e o utiliza mais uma vez para servir a seus interesses à
revelia aos alheios? Embora isso não seja novidade, nem pode ser entendido
apenas como mais uma perspectiva do espantalho do neoliberalismo, mas o tema se
aprofunda num momento em que o mundo enfrenta três problemas sem precedentes:
desigualdade econômica, mudanças climáticas e polarização política.
A leitura apresentada no livro ocorre no
contexto de Trump 2, que aprofunda os debates sobre liberdade e democracia,
onde o papel dos grandes empresários, que impactam e influenciam a tomada de
decisões políticas a partir da gestão de mídias e redes sociais que orientam
não apenas as decisões de consumo, mas o senso comum dominante com discursos
abertamente xenófobos, racistas, classistas e patriarcais.
Parece, então, que o ideal de liberdade
trazida no Iluminismo, que será tratada por Isaiah Berlin (1909-1997) e John
Rawls (1921-2002), à qual Stiglitz se refere frequentemente, é diluída
gelatinosamente para trazer uma leitura finíssima do Gramsci (1891-1937) no
livro, e com ela a democracia liberal, o Estado de bem-estar social e tudo o
mais, como o quadro de direitos humanos, incluindo, é claro, os direitos à
saúde, habitação, educação, entre outros, que estão ameaçadas pelos cortes orçamentários.
Nesse contexto, a obra de Stiglitz faz parte das vozes contra as camisas de força ideológicas do pensamento hegemônico, como nos diz André Lara Resende, e é importante ampliá-lo para contemplar o mundo global. E ainda mais importante, porque nesta era em que a economia é pensada apenas sob a perspectiva dogmática, é necessário voltarmos nossos olhos para a economia política e repensarmos nossas abordagens. Princípios de ciências que caminham verdadeiramente rumo à liberdade com justiça social.
*Ricardo Marinho é Presidente do Conselho Deliberativo da CEDAE Saúde e professor da Faculdade Unyleya, da UniverCEDAE e da Teia de Saberes.

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