O Povo (CE)
É provável que Flávio Bolsonaro não suba no
palanque cearense ao lado de Ciro. Também se evitará a qualquer custo a imagem
ou o nome do presidenciável no material de campanha. Em um estado simpático a
Lula, não convém mostrar muita amizade ou aliança com um aliado muito enrolado,
hoje incômodo a seus aliados
Ciro Gomes foi apresentado como pré-candidato ao governo do estado nas eleições deste ano, pondo fim a qualquer especulação sobre eventual candidatura ã presidência. O timing do anúncio não poderia ser mais infeliz, ocorrendo a dias da divulgação dos áudios em que Flávio Bolsonaro pede dinheiro ao banqueiro preso Daniel Vorcaro. A toxidade da aliança é notória: como candidato do PL no estado, é hoje impossível para Ciro se dissociar do bolsonarismo e do filho do ex-presidente.
Seu grupo anunciou que adotará uma estratégia
de isolamento. É provável que Flávio Bolsonaro não suba no palanque
cearense ao lado de Ciro. Também se evitará a qualquer custo a imagem ou o nome
do presidenciável no material de campanha. Em um estado simpático a Lula, não
convém mostrar muita amizade ou aliança com um Flávio Bolsonaro muito enrolado,
hoje incômodo a seus aliados em todos os partidos de sua base. Sua equipe de
comunicação sabe bem disso.
Não consigo imaginar em desafio maior à
estratégia de marketing, que a de isolar o dna bolsonarista de nomes como
Capitão Wagner, Carmelo Neto, André e Alcides Fernandes. É ao lado dessas
lideranças locais que Ciro Gomes tem aparecido, esbravejando sua disposição de
combater o crime organizado, afirmando ao povo "que fica" e que está
pronto a falar o que deve ser dito, doa a quem doer?
O abraço bolsonarista não é a única
dificuldade. Seu comportamento em relação às mulheres deve ser explorado.
Durante a semana, Ciro Gomes foi condenado pela justiça eleitoral por
violência política de gênero. Em diversas aparições públicas, Gomes atacou a
senadora suplente Janaína Freitas, afirmando que ela seria "assessora dos
assuntos de cama", "cortesã", "assessora de alcova", e
alguém que organizaria festas para o ministro Camilo Santana. Pelo conjunto
dessas afirmações caluniosas e difamatórias, ele foi condenado, tendo a
sentença sido proferida na última terça-feira, dia 19.
Não foi o único caso de misoginia. Em 2002,
Ciro Gomes afirmou, sobre sua esposa na época: "o papel mais importante
dela é dormir comigo". Em 2017, ao questionar a viabilidade de Marina
Silva como candidata, afirmou que "o momento é muito de
testosterona", descredibilizando a política por ser mulher.
Não deixa de ser irônico saber que, hoje,
a principal opositora de Ciro Gomes seja Michelle Bolsonaro. Ela
repudia a aliança e declara desconfiança. Um problema, considerando que,
eleitoralmente, ela é o nome mais importante do bolsonarismo hoje, ainda mais
depois das implicações de Flávio. Uma espécie de carma, vivido por um político
com dificuldade de se renovar rumo a uma prática política menos agressiva e
mais adequada a um país em que a maioria do eleitorado é feminino.
*Professora de Direito da UFCE

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