Correio Braziliense
Com suas trapalhadas e suas amizades
escandalosas, Flávio Bolsonaro sugere que o Brasil se transforme no grande Rio
de Janeiro, onde o poder público foi envolvido pela corrupção
Chico Buarque disse, com sua boa música e melhor poesia, que o Brasil poderia se transformar em imenso Portugal. A brincadeira poético-musical era elogiosa, porque a pátria mãe, que durante muitos anos foi vista como um país no norte da África, foi aceita pela União Europeia e se transformou. Passou a contar com bons hotéis, melhores restaurantes e grandes centros de compras. O país deixou de ser o local apenas para comer bacalhau e passou a oferecer múltiplas oportunidades. Os brasileiros fazem a festa por lá.
Essa imagem me veio à cabeça porque o
candidato Flávio Bolsonaro, com suas trapalhadas e suas amizades escandalosas,
sugere que o Brasil se transforme no grande Rio de Janeiro. Machuca muito
escrever isso. Nasci perto do Rio de Janeiro e cresci na cidade. Desfrutei das
praias, do bom futebol e dos restaurantes. Temporada feliz. Mas aquele Rio de
Janeiro não existe mais. Depois do surgimento veloz e feroz da chamada Zona
Oeste, a criminalidade tomou conta de boa parte da cidade. O tráfico de drogas
assumiu grandes áreas, as grandes favelas se transformaram em territórios
autônomos para proteger quadrilhas de assaltantes de vários tipos e categorias.
Meu filho, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foi obrigado a se
proteger, algumas vezes, dentro da sala de aula, do tiroteio que corria solto
lá fora. Foi assaltado, confrontado com arma na mão, dentro do campus.
Histórias de policiais envolvidos com a
criminalidade são muitas. Às vezes são até folclóricas, como a do sujeito que
teve a sua moto roubada e procurou a polícia. Na delegacia, recebeu o endereço
dos três maiores ladrões de motos do Rio. Com a sugestão de que ele procurasse
o ladrão e pagasse pela liberação da própria motocicleta. O delegado
naturalmente receberia algum pela corretagem. Os apontadores do jogo do bicho
fazem parte da paisagem carioca. Eles mandam nas ruas da cidade. Ninguém pode
estacionar em local em que estão trabalhando. Eles chamam a polícia. É isso
mesmo. Os bicheiros mandam os reboques do Detran, que levam seu carro. Depois,
o proprietário deve pagar uma série de benefícios para liberar o veículo.
O poder público foi envolvido pela corrupção.
E a cidade dominada pelas milícias, pelos comandos criminosos que se
estruturaram nas favelas e passaram a lidar com quantias financeiras
consideráveis. Começaram a importar armas pesadas capazes de fazer
enfrentamentos, de igual para igual, com Polícia e Exército. Nada disso
aconteceu por acaso. Os últimos cinco governadores do estado do Rio de Janeiro
foram presos por corrupção e leniência com o crime organizado.
O último ainda não foi preso, apenas cassado,
pretendia ser candidato a senador, mas a Justiça interrompeu sua carreira. A
Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro é um antro dominado pela
criminalidade. Flávio Bolsonaro reinou ali, onde implantou o sistema da
rachadinha. Vários deputados foram presos. Alguns, cassados. Por causa de
sucessivos impedimentos, o atual governador do Rio de Janeiro é o desembargador
Ricardo Couto. Ele, que não é ligado a nenhum grupo criminoso, promove uma
limpa no governo do estado, o que ocorre pela primeira vez nas últimas décadas.
Esse é o mundo Bolsonaro. O universo de
atuação da família, cuja residência em condomínio horizontal na Barra da Tijuca
irradiou sua influência pela região. Por via da política, tentou controlar todo
o país. Militares desinformados chegaram a apoiar a loucura do golpe de Estado
no país, para evitar novas eleições. E entronizar as milícias no poder no
Brasil. Jair, ex-presidente, já demonstrara seu profundo desprezo pelas massas
quando abandonou o povo no momento da pandemia. Ele não se dignou a visitar um
hospital, nem lamentou as 700 mil mortes. Exerceu o poder para colocar a mão no
dinheiro. A avidez com que Flávio, o candidato, se lançou sobre as posses,
furtadas, de Daniel Vorcaro é autoexplicativa. Eles gostam muito de dinheiro em
qualquer circunstância.
O perfil de Flávio Bolsonaro é nítido. Ele é produto da família que se comporta como uma famiglia mafiosa italiana de filme norte-americano. O pai manda, os filhos obedecem e se espalham pelo país, para tentar eleições em diversos estados. Eles fazem o discurso contra as elites para destruir as elites. O Brasil já viu candidatos como esses, destinados a limpar, passar a vassoura e construir nova sociedade. Todos, desde Jânio Quadros, terminam demonstrando sua tendência autoritária. Flávio Bolsonaro é apenas um arrivista, rápido na ação de amealhar dinheiro com a mão grande, que pretende se passar por reformista, coisa que ele nem sabe o significado. É o desastre anunciado na tentativa de criar o grande Rio de Janeiro.

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