domingo, 24 de maio de 2026

O experimento, por Dorrit Harazim

O Globo

Atletas se submeteram a um intensivão de treinos e doping individualizados, sob supervisão de um corpo médico

Começa hoje em Las Vegas um experimento humano criado por um punhado de venture capitalists obcecados em retardar a finitude da vida — no caso, a deles em primeiro lugar. Batizado por seus fundadores de Enhanced Games (algo como jogos aprimorados, ou turbinados), o experimento em forma de competição esportiva reúne 50 atletas de alto rendimento que disputarão provas de atletismo, natação e levantamento de peso. Mas apenas as modalidades mais extremas e cintilantes desses esportes: a corrida de 100m rasos, os 50m e 100m nados livre e borboleta e o levantamento de até 510 quilos. Tudo movido a um inédito regime de doping declarado, com premiação milionária aos atletas-cobaias.

Para os financiadores do projeto, trata-se de acelerar a expansão da economia, com suas startups voltadas à extensão da vida, embrulhar o pacote num espetáculo esportivo macho alfa e levar os espectadores a consumir os milagrosos produtos que haverão de ser anunciados.

Ao longo dos últimos três meses, 37 dos 50 atletas admitidos para a competição se submeteram a um intensivão de treinos e doping individualizados, sob supervisão de um corpo médico contratado pela organização. Confinados num resort cinco estrelas em Abu Dhabi, voluntariam seus corpos para o experimento com testosterona, esteroides anabolizantes, drogas de crescimento como HGH e EPO, moduladores metabólicos, hormônios, estimulantes como Adderall — tudo o que é proibidíssimo em olimpíadas, mundiais ou pela sempre fraudada ética da competição limpa.

O que leva um atleta de alto rendimento a participar desse evento quando sabe que estará automaticamente barrado de qualquer olimpíada ou competição esportiva convencional? O dinheiro. Além do dinheiro, a chance de compensar os muitos anos de treino inglório. E a permanente suspeita de doping não detectado, ou detectado tardiamente, em determinadas delegações.

Tome-se o exemplo do nadador greco-búlgaro Kristian Gkolomeev. Em três olimpíadas recentes (Londres, Rio, Japão), ele quase chegou ao pódio nos 50m nado livre. Treinou mais quatro anos para Paris 2024, mas novamente perdeu a medalha de bronze por 0,03 segundo. Estava com 30 anos, um filho pequeno e diante de uma vitória cada vez mais fugidia. Fez as contas e percebeu que, somados seus rendimentos com o esporte ao longo de 14 anos, ganhou menos do que se tivesse trabalhado num McDonald’s.

Pois bem, em fevereiro de 2025, Gkolomeev havia se juntado à turma do Enhanced Games e nadou turbinado por um coquetel medicamentoso, enfiado num maiô inteiro de poliuretano, que reduz o atrito na água e está proibido desde 2010 pela Federação Internacional de Natação (Fina). Longe dos holofotes e da homologação oficial, bateu o recorde mundial que já durava 16 anos por 0,02 segundo. Foi recompensado com um cheque de US$ 1 milhão. De lá para cá, o mesmo recorde foi novamente batido, sem doping, pelo australiano Cameron McEvoy em evento na China não homologado pela Fina. Não recebeu um tostão.

A expectativa maior em Las Vegas estará na prova outrora considerada a mais pura, bela, clara, primal, universalmente compreensível e intuitiva a qualquer bípede: a corrida de 100m rasos. O jamaicano Usain Bolt fez dela uma arte, transformou-a em cultura, imortalizou-a na marca de 9s58, com seu corpo estalando de sadio. Para o australiano Aron D’Souza, um dos fundadores do Enhanced Games, o queixo do mundo haverá de cair quando ficar provado que o Übermensch em produção nos laboratórios das startups é melhor que o ser humano natural.

Quem mais está na origem do experimento? O cavernoso Peter Thiel, é claro, com sua obsessão transumanista que tantas vezes já se revelou anti-humanista. E Donald Trump Jr., sempre à espreita de um novo negócio, além do rei da biotecnologia alemã Christian Angermayer, e do príncipe saudita Khaled bin Alwaleed Al Saud. Cripto brothers também não haverão de faltar, assim como a Big Pharma, de olho em novas fronteiras de pesquisa. Bryan Johnson, outro multimilionário associado aos Enhanced Games, sustenta que, aos 48 anos, consegue manter a mesma idade biológica de seus anos de juventude. Será o comentarista da transmissão, sob medida para vender o sonho da juventude eterna e da virilidade indomável. Só faltou Elon Musk, cujos 14 filhos foram gerados para garantir a reprodução de seus genes. Em suma, o retrato da elite que comanda o mundo de hoje.

O show de encerramento do experimento estará a cargo da banda The Killers. Tudo a ver.

 

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