O Globo
Atletas se submeteram a um intensivão de
treinos e doping individualizados, sob supervisão de um corpo médico
Começa hoje em Las Vegas um experimento humano criado por um punhado de venture capitalists obcecados em retardar a finitude da vida — no caso, a deles em primeiro lugar. Batizado por seus fundadores de Enhanced Games (algo como jogos aprimorados, ou turbinados), o experimento em forma de competição esportiva reúne 50 atletas de alto rendimento que disputarão provas de atletismo, natação e levantamento de peso. Mas apenas as modalidades mais extremas e cintilantes desses esportes: a corrida de 100m rasos, os 50m e 100m nados livre e borboleta e o levantamento de até 510 quilos. Tudo movido a um inédito regime de doping declarado, com premiação milionária aos atletas-cobaias.
Para os financiadores do projeto, trata-se de
acelerar a expansão da economia, com suas startups voltadas à extensão da vida,
embrulhar o pacote num espetáculo esportivo macho alfa e levar os espectadores
a consumir os milagrosos produtos que haverão de ser anunciados.
Ao longo dos últimos três meses, 37 dos 50
atletas admitidos para a competição se submeteram a um intensivão de treinos e
doping individualizados, sob supervisão de um corpo médico contratado pela
organização. Confinados num resort cinco estrelas em Abu Dhabi, voluntariam
seus corpos para o experimento com testosterona, esteroides anabolizantes,
drogas de crescimento como HGH e EPO, moduladores metabólicos, hormônios,
estimulantes como Adderall — tudo o que é proibidíssimo em olimpíadas, mundiais
ou pela sempre fraudada ética da competição limpa.
O que leva um atleta de alto rendimento a
participar desse evento quando sabe que estará automaticamente barrado de
qualquer olimpíada ou competição esportiva convencional? O dinheiro. Além do
dinheiro, a chance de compensar os muitos anos de treino inglório. E a
permanente suspeita de doping não detectado, ou detectado tardiamente, em
determinadas delegações.
Tome-se o exemplo do nadador greco-búlgaro
Kristian Gkolomeev. Em três olimpíadas recentes (Londres, Rio, Japão), ele
quase chegou ao pódio nos 50m nado livre. Treinou mais quatro anos para Paris
2024, mas novamente perdeu a medalha de bronze por 0,03 segundo. Estava com 30
anos, um filho pequeno e diante de uma vitória cada vez mais fugidia. Fez as
contas e percebeu que, somados seus rendimentos com o esporte ao longo de 14
anos, ganhou menos do que se tivesse trabalhado num McDonald’s.
Pois bem, em fevereiro de 2025, Gkolomeev
havia se juntado à turma do Enhanced Games e nadou turbinado por um coquetel
medicamentoso, enfiado num maiô inteiro de poliuretano, que reduz o atrito na
água e está proibido desde 2010 pela Federação Internacional de Natação (Fina).
Longe dos holofotes e da homologação oficial, bateu o recorde mundial que já
durava 16 anos por 0,02 segundo. Foi recompensado com um cheque de US$ 1
milhão. De lá para cá, o mesmo recorde foi novamente batido, sem doping, pelo
australiano Cameron McEvoy em evento na China não homologado pela Fina. Não
recebeu um tostão.
A expectativa maior em Las Vegas estará na
prova outrora considerada a mais pura, bela, clara, primal, universalmente compreensível
e intuitiva a qualquer bípede: a corrida de 100m rasos. O jamaicano Usain Bolt
fez dela uma arte, transformou-a em cultura, imortalizou-a na marca de 9s58,
com seu corpo estalando de sadio. Para o australiano Aron D’Souza, um dos
fundadores do Enhanced Games, o queixo do mundo haverá de cair quando ficar
provado que o Übermensch em
produção nos laboratórios das startups é melhor que o ser humano natural.
Quem mais está na origem do experimento? O
cavernoso Peter Thiel, é claro, com sua obsessão transumanista que tantas vezes
já se revelou anti-humanista. E Donald Trump Jr., sempre à espreita de um novo
negócio, além do rei da biotecnologia alemã Christian Angermayer, e do príncipe
saudita Khaled bin Alwaleed Al Saud. Cripto brothers também não haverão de
faltar, assim como a Big Pharma, de olho em novas fronteiras de pesquisa. Bryan
Johnson, outro multimilionário associado aos Enhanced Games, sustenta que, aos
48 anos, consegue manter a mesma idade biológica de seus anos de juventude.
Será o comentarista da transmissão, sob medida para vender o sonho da juventude
eterna e da virilidade indomável. Só faltou Elon Musk, cujos 14 filhos foram
gerados para garantir a reprodução de seus genes. Em suma, o retrato da elite
que comanda o mundo de hoje.
O show de encerramento do experimento estará
a cargo da banda The Killers. Tudo a ver.

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