O Globo
Em uma das semanas mais sombrias do
Legislativo, Congresso impõe agenda de destruição ambiental e institucional
A pesquisa eleitoral chegou na sexta-feira mostrando os efeitos do abalo sísmico que atingiu o candidato da extrema direita e os dias se passaram com notícias sucessivas em torno de Daniel Vorcaro. Neste contexto, o Congresso passou a semana impondo ao país a agenda Bolsonaro no governo Lula. Na área ambiental, a Câmara aprovou medidas que reduzem o tamanho de uma estratégica floresta nacional, transferem para o Ministério da Agricultura atribuições do Ministério do Meio Ambiente, diminuem o alcance da tecnologia como parte da vigilância ambiental e abrem a porta para a destruição de campos naturais em todos os biomas.
O meio ambiente não foi o único alvo da
Câmara. Numa das semanas mais sombrias do Legislativo, os deputados perdoaram
as próprias dívidas eleitorais, renegociaram em 15 anos os débitos por
descumprimento de leis eleitorais a serem pagos e se permitiram o disparo de
mensagens em massa para assediar o eleitor. Derrubaram vetos do presidente Lula
para assim permitir repasses a municípios em ano eleitoral. Autorizaram doações
de bens, valores ou benefícios pela administração pública em época eleitoral.
Ou seja, liberam o uso de recursos dos cofres públicos para a compra de votos.
Nada disso é aceitável e certamente será derrubado no Supremo Tribunal Federal,
mas cabem duas perguntas: será proibido a tempo de evitar os estragos? E, com
que cara de pau o Congresso legisla em causa própria?
Era a denominada “semana do agro” e foi a da
demolição ambiental. Atiraram contra a integridade dos biomas, o poder dos
órgãos reguladores, o uso das ferramentas de tecnologia de defesa da floresta.
O atentado em massa contra o meio ambiente foi feito no pressuposto de que
fosse do interesse do agronegócio. Pode até ser comemorado pelo setor, mas fere
diretamente seus interesses. Primeiro, porque desequilíbrios climáticos atingem
quem depende do clima para produzir. Segundo, porque em qualquer competição por
mercados no mundo atual, o critério de desempate será o respeito ao meio
ambiente. País que rasga leis ambientais enfraquece a competitividade dos
próprios produtores.
Há um mistério no Brasil. O secretário
extraordinário do controle do desmatamento do Ministério do Meio Ambiente,
André Lima, diz que o desmatamento ilegal ocorre em 1% dos imóveis rurais. “Ou
seja, 99% não desmata ilegalmente, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente
e do Serviço Florestal Brasileiro”. Então por que mesmo todo o esforço
legislativo é para favorecer o desmatador e o infrator? É irracional que o
agronegócio mobilize sua bancada no parlamento para defender o criminoso.
O caso da Floresta de Jamanxim é emblemático.
A unidade de conservação foi criada como parte do projeto de pavimentação da
BR-163. Na época, o sonho era ter uma rodovia sustentável, que não fosse
indutora do desmatamento. Foram demarcadas várias unidades de conservação ao
longo da rodovia. Desde o começo, a floresta foi alvo de grilagem, desmatamento
e invasões. Os invasores usavam o argumento de que estavam lá antes da criação
da Floresta Nacional e pediram a redução do tamanho da Unidade de Conservação.
O governo Michel Temer fracassou quando tentou fazer exatamente o que foi
aprovado agora: transformar parte da Floresta Nacional em Área de Proteção
Ambiental (APA).
— Uma Floresta Nacional é terra de domínio
público e é exclusiva para manejo florestal não madeireiro. Não se permite
corte raso, desmatamento. A APA é uma proteção muito frágil, voltada para a
área urbana. Ela convive com exploração econômica e até com cidade, 80% de
Brasília é APA — explicou André Lima.
E o que o Congresso fez agora? A Floresta do
Jamanxim tem uma área de 1,302 milhão de hectares, e pelo projeto fica reduzida
a 814 mil, uma queda de 37%. A APA terá cerca de 486,4 mil hectares. Ou seja,
as fazendas que se instalaram lá poderão continuar criando seus bois em terra
pública. Até o ex-governador do Pará Helder Barbalho, que sediou a COP, estava
em Brasília comemorando como vitória essa derrota para o meio ambiente do
Brasil.
Uma outra medida devastadora é a que permite
a exploração econômica dos campos naturais, que dominam o Pampa e o Pantanal,
mas ocorrem em todos os biomas, inclusive a Amazônia. A proposta se for
aprovada no Senado coloca em risco imediato 48 milhões de hectares de vegetação.
Que insensatez é esta, Brasil?

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.