sexta-feira, 29 de maio de 2026

O poder não dança, e quer ganhar no Xenhenhem, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Conhecido pela desenvoltura nas redes, onde já apareceu jogando bola, e até sambando, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), escondeu o gingado na festa junina da senadora Daniella Ribeiro (PP-PB), ao recusar o convite da anfitriã para dançarem forró na ampla pista de dança armada em uma casa no Lago Sul, onde ela promoveu um animado “esquenta” do São João de Campina Grande.

Uma das mais tradicionais festas do Nordeste, o evento em Campina Grande (PB), reduto político da família da senadora, é anunciado como o “O Maior São João do Mundo”, tem 33 dias de duração, e, na edição deste ano, terá João Gomes, Roberto Carlos e Marisa Monte.

Mas a prévia da celebração promovida pela senadora, na noite de terça-feira (26), já foi uma superprodução, com palco profissional e shows de estrelas da música nordestina, como a multi-instrumentista paraibana Lucy Alves. A sanfoneira-sensação lotou a pista, vazia na maior parte do tempo, obrigando paletós, gravatas e saltos finos a se mexerem, ao som de “Vou fazer tudo pra ganhar no Xenhenhem”.

O arraial atraiu a elite do poder. Passaram por lá, além de Alcolumbre e do irmão da anfitriã, deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB) - conterrâneo e aliado dos Ribeiro -, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, políticos do PL ao PT, e advogados, como Marco Aurélio de Carvalho e Pierpaolo Bottini, do grupo Prerrogativas. Filho da senadora, o governador da Paraíba, Lucas Ribeiro (PP), que buscará a reeleição, com o PT em sua coligação, discursou.

Daniella subiu ao palco para anunciar a chegada de Alcolumbre: “Davi que derrotou Golias, Davizinho, o melhor presidente que o Senado já teve”, exaltou. Pelas mãos do senador do Amapá, ela se tornou a primeira mulher titular de uma vaga na Mesa Diretora. Ela pediu aos músicos que tocassem a música favorita do presidente do Senado, e o tirou para dançar. Mas, nem com os acordes de um dos hinos de Alceu Valença, ele se soltou. Encabulado, cantou baixinho os primeiros versos de “Anunciação”, acompanhou com palmas o refrão - “Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais” -, abraçou a anfitriã e escapou do palco.

Sempre desconfiado, Alcolumbre se refugiou em uma mesa no canto do jardim e tentou saborear um espetinho e uma taça de vinho tinto. Conversou a sós por longos minutos com Aguinaldo, até não driblar mais o assédio dos jornalistas. Quando a coluna lhe perguntou se iria mesmo se encontrar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para encerrarem a querela, ele franziu o cenho, e respondeu, secamente: “Não sei”.

Depois, quando uma colega questionou qual era sua posição sobre o fim da escala 6 x 1, ele até se descontraiu. Indagou que horas eram. “Dez horas [da noite]”, responderam os jornalistas. Ele fingiu contrariedade, fez um gesto de “lamento”, argumentou que havia encerrado o expediente, e portanto, não falaria de trabalho.

Ele só baixou a guarda para falar da relação de confiança com Daniella. Alcolumbre disse gostar de pessoas para quem não precisa pedir para não soltarem a sua mão. “Porque já sei que essa pessoa não vai soltar a minha mão”, justificou.

Se havia nessa fala um recado velado ao Palácio do Planalto, a verdade é que as queixas partem de ambos os lados. Um soltou a mão do outro, e deu as costas, argumentam. Lula e seus aliados estão convictos de que Alcolumbre liderou a articulação para derrotar no plenário a indicação do ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, ao Supremo Tribunal Federal (STF). Por sua vez, o presidente do Senado alega que sempre alertou que Messias seria rejeitado, e que o governo errou ao enviar, a fórceps, sem combinação prévia, a mensagem com a indicação dele ao STF.

Nos últimos dias, entretanto, o entorno de Lula se dividiu sobre a conveniência de uma conciliação com Alcolumbre. Uma ala mais radical sustenta que o vento agora sopra a favor do líder petista, depois que o escândalo Master atingiu no peito o pré-candidato do PL à Presidência, senador Flávio Bolsonaro (RJ). Ele perdeu pontos nas pesquisas, enquanto Lula obteve melhora da aprovação do governo.

Nessa nova conjuntura, o chefe do Executivo, com fôlego renovado, seria capaz de liderar uma articulação junto aos senadores para, em nova votação, garantir a aprovação de Messias. O problema nesse cálculo é que, sem um entendimento com Alcolumbre, a matéria não volta à pauta.

Mas outra ala do entorno lulista ainda defende a reconciliação de ambos. Uma leitura é de que o presidente do Senado tenta se blindar, mas teria saído fragilizado da derrota imposta a Messias. Por esse resultado, ele teria se alinhado à oposição, sem garantia, contudo, de apoio à sua recondução ao comando do Senado em 2027.

Isso porque, na eventual vitória de Flávio Bolsonaro na sucessão presidencial, o candidato dele à presidência do Senado é Rogério Marinho (PL-RN). Além disso, seja Flávio ou Lula vencedor nas urnas em outubro, uma candidatura ganha força dia após dia, impulsionada pelo centro, e provável adesão da esquerda, a da senadora Tereza Cristina (PP-MS). Para governistas, o senador do Amapá caiu numa encruzilhada. Agora, como no forró, só se ele fizer tudo para “ganhar no Xenhenhem”.

 

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