O Globo
Medida do governo dos EUA que classifica
facções brasileiras como terroristas tem consequências complexas, mas será
usada como trunfo eleitoral pelo bolsonarismo
A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar as facções criminosas brasileiras Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital como grupos terroristas especialmente designados é um daqueles assuntos complexos e multifacetados, mas que, quando levados para a arena eleitoral, tendem a produzir reações rasas, precipitadas e turvadas pela narrativa ideológica. Como sempre acontece em momentos assim, o risco de prejuízos duradouros, e em várias dimensões, para o país são enormes.
O governo brasileiro vinha tentando evitar
esse desfecho havia mais de um ano. Houve várias visitas de funcionários de
diferentes graduações do governo americano ao Itamaraty e ao Ministério da
Justiça em busca de dados a respeito dessas organizações criminosas. Durante
todo esse período, o governo brasileiro tentou dissuadir a Casa Branca de dar
esse passo, demonstrando disposição de atuar em conjunto no estrangulamento das
facções sem, no entanto, classificá-las oficialmente como organizações
terroristas.
Os argumentos para rechaçar essa decisão vão
além da defesa da soberania nacional e se estendem à economia. A nova abordagem
em relação ao Brasil pode dificultar a concessão de vistos e estabelecer
barreiras para negócios entre empresas brasileiras e as de outros países. Há, também,
o temor de que a nova designação faça com que o governo Donald Trump estenda ao
Brasil ameaças já feitas a outros países da América do Sul de promover
incursões militares em território brasileiro, sob a justificativa de atingir o
PCC ou o CV, ferindo gravemente a soberania nacional.
A decisão, que pegou o governo brasileiro de
surpresa, altera até a dinâmica de cooperação entre instituições dos dois
países, uma vez que terrorismo é atribuição da CIA, e não mais do FBI ou da DEA
(a agência de combate às drogas), com que o Ministério da Justiça e a Polícia
Federal têm atuado historicamente e bem mais abertos à troca de informações.
—Essa decisão é um desastre e prejudicará
imensamente o enfrentamento a essas organizações e a cooperação entre os
países, a que o Brasil nunca se negou — reagiu ontem o ex-secretário nacional
de Justiça Mario Sarrubbo.
Toda essa complexidade, no entanto, tende a
ficar distante do debate eleitoral, desencadeado principalmente devido ao
timing da decisão: dois dias depois do rápido encontro entre Trump e Flávio
Bolsonaro, que concedeu entrevista defendendo justamente a adoção da
classificação das facções brasileiras como terroristas.
Numa leitura apressada de tema tão cabeludo,
o eleitorado que defende o endurecimento do enfrentamento às facções tende a
comemorar a classificação e a atribuir a Flávio papel decisivo no convencimento
de Trump. É um daqueles episódios em que a narrativa tende a prevalecer, até
porque a Casa Branca não forneceu detalhes da pauta entre os dois, nem sequer
se houve espaço para algum tema mais sério.
Para o governo brasileiro, a reação à medida
é um terreno pantanoso. Um recurso contra a decisão ou uma objeção mais cabal
podem ser lidos politicamente como leniência ou mesmo defesa de grupos
criminosos que exercem domínio territorial e tirania sobre cada vez mais
territórios nas cidades brasileiras, e a exploração eleitoral disso pode ser
fatal para Lula.
Mas só aquiescer, na expectativa de que a
classificação não produza muitos efeitos concretos e se restrinja à esfera
simbólica, é algo igualmente arriscado tratando-se de um governo imprevisível e
voluntarioso como o de Trump, que tem empreendido diversas ofensivas
unilaterais em países soberanos.
Se a foto com Trump por si só não tinha, nem
tem, o condão de livrar
Flávio do fantasma do caso Master, a decisão desta quinta-feira introduz um
novo tema na campanha presidencial, com maior potencial de exploração positiva
por parte da direita e mais potencial de desgaste para Lula.

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