quinta-feira, 14 de maio de 2026

O que as pesquisas não dizem, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Existe um ‘humor sombrio’ no eleitorado do País que afeta também a oposição

Profissionais frios e calculistas que lidam com pesquisas de intenção de voto dizem que as eleições trarão um resultado de 52 a 48 “para alguém”. Quem? Ainda não sabem. O que eles aprenderam de recentes episódios da História é que eleições não têm automaticamente o dom de alterar “grandes correntes” que formam comportamentos. O exemplo em questão foi a vitória de Dilma em 2014 – que pouco freou o fenômeno de indignação social logo depois simbolizada pela Lava Jato (sem a qual é difícil explicar o impeachment dela).

Assumem que a “grande corrente” atual não é de bom augúrio para qualquer candidato. Uma grande quantidade de pessoas enxerga a combinação de impostos, burocracia e a insegurança (jurídica e pública) como situação que “ninguém muda” – ou seja, também a oposição como parte do “sistema”. Os problemas de Flávio Bolsonaro antigos e o mais novo, relacionado a Vorcaro, se encaixam aí.

Ao longo da linha do tempo verifica-se o aumento do descrédito em relação a instituições, especialmente as que fazem parte direta do sistema político. A novidade nesse fenômeno generalizado é o grau desse descrédito em relação ao Judiciário, e o óbvio perigo que isso representa. Num processo que se intensifica, segundo as pesquisas, suas decisões são vistas como simples parte do jogo político, sem legitimidade.

A baixa “popularidade” do STF registrada nos levantamentos indica um cenário preocupante que as eleições parecem que vão agravar. É a perspectiva de que a já irreparável distorção na relação entre os Poderes leve a “afrontas” que serão respondidas com “afrontas”. A possibilidade de algum tipo de “desobediência civil” já está no radar de quem eventualmente teria de garantir lei e ordem.

Um ponto que intriga os pesquisadores é a frequência com que a palavra “moral” surge nos tais levantamentos qualitativos. “Moral”, nesse contexto, entendida como falta de. Briga-se, xinga-se, persegue-se e ganham tração comportamentos na selvageria de redes sociais sem qualquer limite – situação que muito se lamenta, mas à qual acostuma-se. Como se o País tivesse perdido qualquer norte.

Esse “humor sombrio” é função do momento, do cotidiano, ou tem aí algo mais profundo? É o ponto que as pesquisas não conseguem responder. Como entender isso num país com tantas potencialidades (e agraciado com oportunidades até mesmo na bagunça geopolítica)?

Talvez seja a percepção de estagnação relativa. Isto não está no “pensar”, mas provavelmente no “sentir” que crescemos muito aquém do necessário, que não conseguimos ser o que poderíamos. E o medo de que eleições trazem trocas, mas não mudanças.

 

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