O Estado de S. Paulo
Não podemos controlar conflitos internacionais, mas devemos reduzir seus impactos por meio de políticas de Estado, consistentes e duradouras
De cada dez habitantes da Terra, um consome
alimentos produzidos no Brasil. Poucos, porém, têm consciência do complexo
processo envolvido desde a produção até a comida chegar às suas mesas. Nesse
ciclo, há um fator crítico: o fertilizante, cujo abastecimento global sofre
forte impacto causado pela prolongada crise geopolítica enfrentada pela
humanidade. Para o Brasil, que importa quase todo o adubo que consome, o
cenário é muito desafiador.
Fertilizantes são o alimento da planta e, portanto, um elo essencial da cadeia do agronegócio, que tem sido a âncora do crescimento do nosso país. Lideramos as exportações globais de soja, açúcar, café, suco de laranja, carne bovina e de frango, celulose e fumo. Este ano, também assumimos a liderança no comércio do algodão e mantivemos a segunda posição com o milho e o etanol.
Até os anos de 80, o produtor brasileiro apenas olhava com admiração para as máquinas, tecnologias e métodos empregados na Europa e nos Estados Unidos. Hoje, nosso agro opera com o que há de mais avançado. Adaptamos ciência e inovação às condições tropicais. Em algumas culturas, já colhemos até três safras anuais. A antiga “safrinha” de milho tornou-se uma robusta “safrona”, com tendência de crescimento. Tudo isso com ganhos contínuos de produtividade, produzindo mais sem o proporcional aumento de áreas agricultáveis, preservando matas nativas.
É assim que vamos cumprindo o vaticínio de
que seríamos o celeiro de um mundo que, segundo a Organização das Nações Unidas
(ONU), precisará alimentar 3 bilhões de pessoas a mais nas próximas décadas, na
esteira da expansão demográfica. O Brasil tem imenso potencial para dobrar sua
safra, com a mesma área cultivada, mantendo-se protagonista no atendimento à
demanda global.
Para isso, além de fertilizantes, precisa
solucionar alguns gargalos crônicos: falta de crédito, dificuldades nas
garantias, endividamento crescente do produtor, juros elevados, encarecimento
de insumos, seguro rural insuficiente, logística cara e oscilações cambiais que
corroem as receitas em reais das exportações.
Os fertilizantes são um fator crítico, pois,
segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda), 93% do que
utilizamos em 2025 vieram do exterior. Num mundo de conflitos e restrição do
fornecimento por parte de alguns países, como a China, isso é um fator de
vulnerabilidade. Afinal, oferta restrita e demanda forte resultam em aumento de
preços, como na pandemia ou nos embargos à Belarus e na guerra entre Rússia e
Ucrânia. Agora, há o agravante dos confrontos no Oriente Médio.
Guerras impactam a oferta e desorganizam
cadeias inteiras. Fretes marítimos e seguros encarecem e as rotas ficam mais
longas e inseguras. Cada fechamento do Estreito de Ormuz paralisa centenas de
navios. Para o Brasil, isso tem implicações diretas, pois o pico de consumo de
fertilizantes ocorre nos meses de julho a setembro, com o início do plantio da
próxima safra de 2026-2027.
Em exíguo espaço de tempo, foi realizada uma
operação logística epopeica, num cenário internacional já muito difícil,
agravado por nossos antigos problemas internos, como portos saturados, estradas
precárias e armazenamento insuficiente. Assim, ampliar a produção doméstica de
fertilizantes é urgente. Isso exige acelerar licenças ambientais, menos
impostos, mais segurança jurídica, investir em infraestrutura e criar condições
para atrair capital e tecnologia. Ao mesmo tempo, precisamos facilitar e
garantir processos funcionais nas importações.
No caso dos nitrogenados (N), o desafio é
ainda maior, pois nosso custo do gás natural, essencial para produzilos, é
muito superior ao de outros países. A iniciativa da Petrobras, de investir em
quatro plantas, apenas atenderá até 20% da demanda. Nem mesmo a importação do
combustível argentino de Vaca Muerta será solução estrutural. A redução do
preço é a questão.
Nos fosfatados (P), a demanda por minerais
usados em tecnologias como baterias de carros elétricos tem elevado o preço de
insumos compartilhados com a indústria de fertilizantes. O enxofre é um
exemplo, saltando de US$ 100 por tonelada, em janeiro de 2024, para mais de US$
1 mil nesta semana. Precisa-se de 400 quilos para produzir uma tonelada de
fertilizante fosfatado. No potássio (K), importamos 99% do que consumimos. É
premente ampliar a produção nacional de NPK, mas o Plano Nacional de
Fertilizantes não gera resultados na velocidade devida. Seu êxito depende
decisões políticas e de coordenação institucional.
Até aqui, não faltou adubo para colhermos safras recordes, graças à conhecida resiliência e capacidade brasileira de improvisar e superar crises, mas é temerário ter apenas essas virtudes de nossa gente como bases de uma estratégia decisiva para a inclusão social, balança comercial, geração de empregos, produção de alimentos e commodities. Não podemos controlar conflitos internacionais, mas devemos reduzir seus impactos por meio de políticas de Estado, consistentes e duradouras.

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