Denúncias da PF contra Castro são consistentes
Por O Globo
Defesa nega irregularidades, mas é essencial
esclarecer até que ponto ele se envolveu com grupo de Magro
São graves as acusações contra o ex-governador fluminense Cláudio Castro trazidas à tona pela Operação Sem Refino, que investiga fraudes no setor de combustíveis. De acordo com a Polícia Federal (PF), Castro atuou de forma decisiva para blindar e favorecer interesses do grupo Refit, do empresário Ricardo Magro. A PF diz ainda que ele promoveu trocas estratégicas no alto escalão, sancionou leis sob medida e incentivou órgãos estaduais a trabalhar em benefício do grupo de Magro, dono da Refinaria de Manguinhos. “O Rio direcionou todos os esforços de sua máquina pública num engajamento multiorgânico em prol do conglomerado de Ricardo Magro”, afirma relatório da PF. A secretaria estadual de Fazenda, prossegue o texto, “virou extensão da estrutura empresarial do grupo Refit”. A operação representa mais um revés para Castro, menos de dois meses depois de ele renunciar ao cargo e ser declarado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral.
Um mandado de prisão preventiva foi expedido
contra Magro, que vive em Miami e entrou como foragido na Difusão Vermelha da
Interpol. Seu conglomerado é acusado de ocultação patrimonial, dissimulação de
bens e evasão de divisas. O Refit, cujas dívidas com estados e União somam R$
26 bilhões, é apontado como um dos maiores sonegadores do país e já esteve
outras vezes na mira das autoridades. Em novembro, foi alvo da Operação Poço de
Lobato, que investigou fraudes de até R$ 350 milhões por mês por meio de uma
rede de distribuidoras, postos, importadoras, fundos de investimento e empresas
de fachada no Brasil e no exterior. Em 2016, Magro chegou a ser preso numa
operação que investigava desvios de R$ 90 milhões em fundos de pensão, mas
acabou absolvido pela Justiça. Desta vez, a Justiça fez bem em determinar o
bloqueio de R$ 52 bilhões em ativos financeiros e a suspensão das atividades
das empresas investigadas.
Um exemplo do alinhamento de Castro com o
grupo investigado, diz a PF, foi a Lei Complementar 225/2025, conhecida na
Assembleia Legislativa como “Lei Ricardo Magro”. Ela criou um programa generoso
de parcelamento de débitos tributários para empresas em recuperação judicial,
permitindo descontos de até 95% em multas e juros. Ainda de acordo com a PF, o
Instituto Estadual do Ambiente renovou licenças do Refit, apesar de pendências
técnicas e ambientais. Castro não fazia questão de esconder sua proximidade do
conglomerado e participou de evento em Nova York patrocinado por um grupo que
devia bilhões ao estado. “Ricardo Magro atua de forma muito parecida com Daniel
Vorcaro”, diz um ex-colaborador de Castro. “Quer ter todo mundo com ele, do
topo à base, no Rio ou em Brasília.”
A defesa de Castro se disse “surpreendida”
pela operação, afirmou que todos os incentivos fiscais em seu governo seguiram
a lei e disse que sua gestão “foi a única a conseguir que a refinaria de
Manguinhos pagasse dívidas com o estado”. Castro deve ter amplo direito a
apresentar sua versão dos fatos. Por ora, contudo, as denúncias da PF se
mostram consistentes. Não se devem poupar esforços para esclarecer até que
ponto ele estava envolvido com o grupo empresarial. O Rio não está nadando em
dinheiro a ponto de poder abrir mão de arrecadação. Ao contrário, sobrevive
graças ao socorro de sucessivos regimes de recuperação fiscal. Qualquer
governador deveria ser o primeiro a se preocupar com isso.
BC dá sinais de ter aprendido lições com o
escândalo do Banco Master
Por O Globo
Plano de Integridade estabelece novas normas
para assegurar controle mais rígido das decisões
O Banco Central (BC)
caminha na direção certa ao estabelecer regras mais rígidas em seus processos
de decisão. O Plano de Integridade 2026-2027, parte do planejamento estratégico
até 2029, embute um novo conjunto de diretrizes, cujo pano de fundo é o caso
Master. Além de ter sido uma das maiores fraudes da História ocorridas no
sistema financeiro, o escândalo envolveu dois dos mais altos funcionários do
BC: Belline Santana, chefe do Departamento de Supervisão, e seu adjunto, Paulo
Sérgio Neves. Ambos foram desligados e estão sob investigação da polícia.
Um dos diagnósticos resultantes da autópsia
das fraudes é que os funcionários da fiscalização do sistema financeiro
dispunham de autonomia demais. No caso de instituições menores, a liberdade era
ainda maior. Foi essa a brecha que Daniel Vorcaro aproveitou para transformar
seu banco numa usina de captação de dinheiro, depois desviado para patrimônio
pessoal e corrupção de políticos e servidores públicos.
Entre as novas regras do Plano de
Integridade, fica instituída a validação de decisões em duas etapas
independentes. A intenção de acabar com decisões individuais tem razão de ser.
Está prevista ainda a criação, em níveis hierárquicos inferiores, de colegiados
similares à direção do BC. É bem possível que, se já houvesse compartilhamento
de decisões tomadas em departamentos abaixo da diretoria, Vorcaro tivesse sido
contido há mais tempo.
Também faz parte das regras a definição de
padrões mínimos de qualidade para as decisões, com exigência de notas técnicas
para sustentá-las e discussão de cenários alternativos. Embora tenha sido a
auditoria interna a responsável por identificar a suspeita de os dois
servidores da área de fiscalização terem recebido vantagens indevidas, ela
recebeu atenção especial para aperfeiçoar suas investigações. Pretende-se
elevar o nível de qualificação dos funcionários e dar-lhes ferramentas melhores
para exercer suas funções.
Nos Estados Unidos, existe uma fragmentação intencional dos organismos de controle, para haver várias camadas de supervisão. No plano federal, o Fed, BC americano, supervisiona apenas holdings financeiras, grandes bancos e instituições regionais que fazem parte do seu sistema. O Escritório de Controle da Moeda, ligado ao Tesouro, supervisiona bancos com permissão federal para atuar em todo o país. E a Federal Deposit Insurance Corporation também atua em bancos fora do campo de ação do Fed. Num mesmo banco regional, pode haver fiscalização federal e estadual. O sistema financeiro americano enfrentou, em 2008, a grave crise das hipotecas que resultou em recessão global. Depois a supervisão ficou ainda mais rígida. O maior centro financeiro do planeta pode inspirar o BC nos ajustes necessários na estrutura e na forma de tomar decisões.
A desenvoltura criminosa dos Vorcaros
Por Folha de S. Paulo
Pai do pivô do escândalo do Banco Master,
preso pela PF, continuou atuando com grupo de jagunços
Sociedade deve ficar atenta para combater
possíveis retrocessos, risco que aumenta com a teia de envolvidos, da esquerda
à direita
A Polícia
Federal prendeu na quinta-feira (14) Henrique Vorcaro, pai
de Daniel
Vorcaro. Ele é apontado como operador financeiro do grupo de
jagunços conhecido como "A Turma", usado pelo dono do Banco Master para
intimidar jornalistas e roubar informações sigilosas.
A ação da PF ocorreu um dia depois de serem
divulgadas as conversas
estarrecedoras entre o senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ) e Daniel Vorcaro,
nas quais o filho do ex-presidente Jair
Bolsonaro (PL) cobra dinheiro e mostra inequívoca intimidade
com o fraudador-mor da República.
O que surpreende na ação da PF são os fatos
que levaram à prisão de Henrique Vorcaro. De acordo com André
Mendonça, ministro do Supremo Tribunal Federal responsável por
assinar o mandado, as solicitações de serviços ilícitos continuaram mesmo após
as primeiras fases da Operação Compliance Zero.
Em outras palavras, segundo as
investigações, a atuação
criminosa do pai prosseguiu com naturalidade mesmo depois que o
filho foi parar atrás das grades, onde se encontra ainda hoje. Daí o espanto: é
como se o cerco policial não pudesse lhe botar medo.
Não custa lembrar que à tal "A
Turma" cabia espionar rivais do ex-banqueiro e perpetrar ameaças contra
quem quer que fosse. Mensagens apreendidas pela polícia revelaram, por exemplo,
que o grupo discutiu, literalmente, "quebrar todos os dentes" do
jornalista Lauro Jardim, de O Globo.
Tamanha desenvoltura nessa prática mafiosa
talvez se explique pela certeza da impunidade. Ao que tudo indica, dinheiro do
Banco Master —oriundo de fraude que veio a onerar a sociedade— serviu para
comprar influência política e judicial, seja para expansão dos negócios, seja
para fins de proteção em caso de investigações policiais.
Já se sabia dos contratos escandalosos de
Vorcaro com familiares dos ministros Alexandre de
Moraes e Dias Toffoli,
do STF.
Agora, a operação mais recente iluminou outros tentáculos da organização, que
alcançaram pelo menos uma delegada da PF, um agente da instituição e dois
policiais federais aposentados.
A prisão de Henrique Vorcaro, quando
analisada por esse prisma, representa uma boa notícia. Ela constitui sinal de
que os braços investigativos do Estado estão dispostos a avançar mesmo sobre
quem se julgava intocável.
Outro indício nessa direção é a postura do
ministro André Mendonça, do Supremo, diante da esperada delação premiada de
Daniel Vorcaro. O magistrado, segundo se noticia, parece disposto a rejeitar a
colaboração enquanto nela houver omissões destinadas a proteger aliados.
São avanços, sem dúvida, e a sociedade deve
ficar atenta para combater possíveis retrocessos —um risco que aumenta com a teia de
envolvidos, da esquerda à direita, no Executivo, no Legislativo e no
Judiciário, nos três níveis de governo. O Brasil precisa mostrar para essa
corja que o crime não compensa.
Trump e Xi ensaiam diálogo, mas esquivam-se
de acordos
Por Folha de S. Paulo
'Estabilidade estratégica' entre os rivais
requer cautela até novas decisões geopolíticas de lado a lado
No encontro em Pequim, não houve entendimento
sobre o fim das restrições chinesas às exportações de terras raras às
indústrias dos EUA
Após dois
dias de conversas com Xi Jinping em
Pequim, Donald Trump despediu-se
do líder chinês, nesta sexta (15), demonstrando aparente adesão à proposta de
"estabilidade estratégica construtiva e duradoura" nas relações entre
as potências antagônicas.
O alinhamento de ambos às premissas de
cooperação, competição moderada e gestão de diferenças, porém, requer cautela.
O traço evidente do encontro foi a ausência
de acordos comerciais e de discussões sobre as futuras tarifas de importação
americanas. Denota-se que a rivalidade não será aliviada apenas com concessões
econômicas e tecnológicas, mas principalmente com decisões geopolíticas.
Xi salientou que a paz no estreito de Taiwan é
hoje o "maior denominador comum entre os EUA e a China",
direcionando ao americano a tarefa de desfazer um acordo de venda de armas a
Taipei, de US$ 14 bilhões, que já recebera seu aval.
De tal movimento provavelmente dependerá a
anuência de Pequim a acordos comerciais ambicionados por Washington.
Embora Trump tenha vocalizado a venda de 200
aeronaves da Boeing à China, o silêncio do suposto comprador prevaleceu. E
permanece incerta a liberação pela Casa Branca da venda do H200, chip de inteligência
artificial da Nvidia, a empresas chinesas.
Também não houve entendimento sobre o fim das
restrições chinesas a suas exportações de terras raras às indústrias de alta tecnologia e
defesa dos EUA, nem sobre o esperado aumento dos volumes de petróleo,
carne bovina e soja americanos embarcados ao gigante asiático.
Xi e Trump podem ter concordado com a urgência da
reabertura do estreito de Hormuz, mas não terá passado incólume por
Washington a reprovação
chinesa à guerra iniciada por EUA e Israel contra o Irã, emitida
enquanto os líderes conversavam.
Assim como ocorreu na visita de Luiz Inácio
Lula da Silva (PT) à Casa Branca neste mês, causa espécie a escassez de versões
de Trump sobre o conteúdo de suas conversas com Xi. A advertência de Pequim
para que os EUA não interfiram em seu plano de desenvolvimento de alta
tecnologia e poderio geopolítico, entre outras, não terá sido bem recebida pelo
americano.
O aviso talvez seja observado em curto prazo, enquanto o republicano tenta extrair dividendos da visita à China e até uma possível agenda de segundo encontro nos EUA. Mas não será realista imaginar Trump e Xi em uma convivência diplomática marcada por diálogo franco e fluido.
A direita diante de seu veneno
Por O Estado de S. Paulo
Escândalo de Flávio Bolsonaro mostra como é
alto o custo de se manter atado a um clã que intoxica o campo conservador com
escândalos, degradação moral e desprezo pela democracia
A ruidosa revelação do pedido de dinheiro
feito pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao banqueiro Daniel Vorcaro presta
dois serviços essenciais ao País: primeiro, como já afirmamos neste espaço,
expõe a baixa estatura moral e política do primogênito de Jair Bolsonaro para
ser o principal candidato da direita à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula
da Silva; segundo, serve de advertência definitiva para o campo conservador e
insta-o a se afastar da usina de escândalos que é, essencialmente, o
bolsonarismo. Já passou da hora de romper a subordinação aos métodos do clã
Bolsonaro.
Há anos, parte da direita trata o
bolsonarismo como atalho eleitoral inevitável. Alega-se que Bolsonaro conserva
votos, mobiliza militância e encarna a rejeição ao lulopetismo. Isso pode
explicar a conveniência de curto prazo de políticos que orbitam o
ex-presidente, mas não justifica a abdicação moral, programática e
institucional de um campo político inteiro.
Quem se prende a Jair Bolsonaro e seus filhos
não recebe apenas votos. Recebe também vícios, métodos e passivos. Recebe
também a confusão entre público e privado, o culto familiar, a hostilidade às
instituições, o desprezo pela liturgia democrática e a incapacidade de
distinguir causa pública de negócio particular. O bolsonarismo é tóxico por
natureza. Sua toxicidade é o seu próprio modo de existir.
A direita democrática tem diante de si uma
oportunidade preciosa, que é permitir ao Brasil se libertar de Lula e suas
ideias envelhecidas sem se submeter a Bolsonaro. O governo lulopetista oferece
razões de sobra para ser derrotado. É anacrônico, estatizante, aparelhado e
incapaz de apresentar uma agenda moderna de crescimento econômico, responsabilidade
fiscal e eficiência administrativa. Mas a malaise lulopetista não absolve a direita de seus
pecados nem autoriza a entrega do campo conservador a uma família incapaz de
atravessar uma semana sem produzir um novo escândalo.
Convém à direita decidir se pretende ser
força política adulta ou torcida organizada do ressentimento. Se deseja
governar o País, terá de oferecer mais do que antipetismo: compromisso com a
Constituição, respeito às instituições, responsabilidade fiscal, defesa da
economia de mercado e padrões mínimos de decência. Nada disso floresce à sombra
de Jair Bolsonaro e de seu sucessor imediato, Flávio Bolsonaro.
O bolsonarismo tenta vender a fantasia de que
qualquer crítica ao clã favorece Lula. É chantagem. O que favorece Lula é a
incapacidade da direita de se desintoxicar do bolsonarismo. Enquanto o campo
conservador permanecer preso a personagens marcados por golpismo, escândalos e
negócios mal explicados, o petismo explorará o medo de alternativa ainda pior.
Bolsonaro é, nesse sentido, um seguro de vida para Lula.
A ruína política de Bolsonaro poderia ter
sido o ponto de partida para a reconstrução da direita, abrindo espaço para
lideranças comprometidas com reformas e moderação. Em vez disso, muitos
preferiram ajoelhar-se diante do espólio bolsonarista, como se o patrimônio
eleitoral do ex-presidente fosse transmissível por sangue. O resultado é Flávio
Bolsonaro – que não tem estatura nem para ser poste do pai golpista, que dirá
presidente da República.
Não há futuro respeitável enquanto a direita
tratar a família Bolsonaro como destino. O conservadorismo democrático não
precisa de herdeiros ungidos por sobrenome. Precisa de partidos sérios,
lideranças preparadas, programa consistente e coragem para romper com aquilo
que o degrada. A ruptura não será indolor, mas pior é seguir arrastando o peso
morto de um movimento que sequestrou a direita e a associou ao que há de mais
rebaixado na vida pública. Deve-se perguntar quantos escândalos mais serão
necessários para reconhecer essa verdade.
Eis a chance definitiva da direita: assumir
seu lugar numa democracia madura, como força reformista, responsável e
comprometida com a ordem constitucional, ou continuar servindo de biombo para
uma família que transformou o antipetismo em negócio político. Se quiser voltar
a merecer a confiança dos brasileiros, precisa romper com o bolsonarismo. Fora
disso é tornar-se cúmplice de um desastre.
A tênue estabilidade entre EUA e China
Por O Estado de S. Paulo
A cúpula entre Trump e Xi trouxe trégua e
linguagem cordial, mas deixou intacto o núcleo duro da rivalidade: Taiwan,
tecnologia e os limites da uma interdependência hostil
Depois de anos de tarifas, sanções, chips
bloqueados, balões espiões e ameaças mútuas, o fato de Donald Trump e Xi
Jinping passarem dois dias falando em “estabilidade estratégica construtiva” já
pareceu um avanço. Pequim ofereceu a encenação adequada: salvas de canhão,
tapetes vermelhos, CEOs perfilados no Grande Salão do Povo e um presidente
americano disposto a enfatizar cordialidade, negócios e pragmatismo.
Havia razões para ambos reduzirem a
temperatura. Trump enfrenta uma guerra no Oriente Médio que inquieta mercados e
consome capital político. Xi administra desaceleração econômica e uma
dependência externa alta para um país que ambiciona autonomia estratégica.
Ninguém quer ruptura abrupta. Ainda assim, a palavra “estabilidade” esconde
projetos distintos.
A comparação com a guerra fria é tentadora,
mas imperfeita. Washington e Moscou ergueram sistemas econômicos estanques. EUA
e China disputam semicondutores, inteligência artificial, minerais críticos,
rotas marítimas e influência militar enquanto continuam entrelaçados por
comércio, finanças, cadeias produtivas e conglomerados privados. A
interdependência que, nos anos 1990, prometia convergência liberal
transformou-se em fonte de vulnerabilidade recíproca.
Pequim usa terras raras e capacidade
industrial como instrumentos de pressão. Washington responde com sanções
financeiras e restrições tecnológicas. Nenhum lado consegue romper totalmente
com o outro nem confia realmente no outro. A expressão “interdependência
hostil” descreve melhor o cenário do que qualquer reminiscência da Cortina de
Ferro.
Na cúpula, Trump buscava ganhos visíveis:
encomendas para a Boeing, alívio comercial, cooperação sobre o Estreito de
Ormuz e imagens de estadista capaz de estabilizar a relação mais importante do
mundo. Xi trabalha numa escala mais longa, menos ligada a anúncios imediatos e
mais à tentativa de moldar os termos da convivência futura. Para Pequim, a
fórmula “estabilidade estratégica construtiva” significa previsibilidade
suficiente para seguir fortalecendo sua indústria, reduzir vulnerabilidades
tecnológicas, consolidar influência regional e administrar a rivalidade sem
provocar uma coalizão ocidental mais coesa – envolvendo Washington numa areia
movediça diplomática que, aos poucos, estreita sua margem de ação.
Nesse sentido, o teste da cúpula não está nos
comunicados oficiais ou fotografias sorridentes, mas nas decisões posteriores
sobre Taiwan. É enorme a diferença estratégica entre Washington declarar que
“não apoia” a independência taiwanesa e passar a opor-se a ela. Por isso, o
debate sobre o pacote americano de armas será mais relevante do que os anúncios
comerciais. O risco não é de reviravolta, mas de atrasos sucessivos, hesitação
política e erosão gradual da dissuasão.
Em busca desse efeito, Xi advertiu para a
“armadilha de Tucídides” como metáfora para o choque entre uma potência
ascendente – China-Atenas – e uma hegemonia em declínio – EUA-Esparta. Mas a
analogia admite inversões. A China lembra Esparta em vários aspectos:
disciplina rígida, centralização extrema e desconfiança do pluralismo. Os EUA
continuam preservando os traços vibrantes – e caóticos – da sociedade
ateniense: improvisação, conflito interno, imprensa livre, alternância
política.
Autocracias parecem mais eficientes na
administração de rivalidades prolongadas. Projetam continuidade, controlam
discurso público e executam planos estratégicos com menos ruído. Democracias
expõem divisões, hesitam, mudam de direção com frequência desconcertante. Ainda
assim, a rigidez autocrática cobra seu preço. Sistemas fechados tendem a
produzir conformismo e cegueira para os próprios erros. Já o tumulto
democrático incentiva inovação e capacidade de adaptação.
A cúpula consolidou uma convivência
competitiva marcada por cautela, dependência mútua e ambivalências perigosas.
Washington busca estabilidade para evitar colisão. Pequim vê a estabilidade
como um ambiente mais restritivo para a ação americana no Indo-Pacífico. A
diferença pode soar abstrata. Taiwan mostrará se as superpotências estão se
desvencilhando de uma armadilha ou se fechando nela.
Tanque cheio
Por O Estado de S. Paulo
Com pressa e a máquina na mão, Lula anuncia
subvenção bilionária para conter o preço da gasolina
Não surpreendeu ninguém o fato de o governo
ter anunciado um subsídio bilionário para a gasolina. O diesel já tinha sido
alvo de medidas para mitigar a alta nos preços do petróleo em março e, em
abril, foi a vez do gás de cozinha e do querosene de aviação. Faltava a
gasolina para completar a tabela de intervenção que marca os anos eleitorais e
que já se tornou mais uma tradição ruim na política brasileira.
Quando patinava nas pesquisas de intenção de
voto, há quatro anos, o ex-presidente Jair Bolsonaro fez algo parecido. A
exemplo de Lula, também usou um conflito internacional para justificar as
medidas anunciadas e isentou os tributos federais sobre combustíveis, mas
aproveitou para tungar os Estados ao forçar o Congresso a aprovar uma proposta
que reduziu o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre
combustíveis.
Talvez a maior diferença entre os dois seja o
método, marcadamente a forma com que agem em relação à Petrobras. Entre abril e
junho de 2022, a Petrobras teve três presidentes, dois deles demitidos por
Bolsonaro por se recusarem a segurar os preços dos combustíveis. Lula, por sua
vez, prefere combinar estratégias com a atual presidente da companhia, Magda
Chambriard. Basta lembrar que o governo anunciou o primeiro subsídio ao diesel
em 12 de março e a empresa confirmou um reajuste de preços no dia seguinte.
Imaginava-se que o governo aguardaria o
Congresso aprovar um projeto de lei complementar que altera a Lei de
Responsabilidade Fiscal (LRF), para permitir que a perda gerada pela redução
dos tributos sobre combustíveis seja compensada pela arrecadação extraordinária
proporcionada pelo choque de preços do petróleo. Mas Lula tem pressa – e a
máquina na mão. Decidiu, assim, editar uma medida provisória para permitir uma
subvenção de até R$ 0,89 por litro de gasolina e de até R$ 0,35 para o diesel,
valores equivalentes aos tributos federais que incidem sobre os combustíveis,
tudo para não ter de depender da boa vontade dos parlamentares.
O dinheiro será repassado diretamente a
produtores e importadores que aderirem ao programa por meio da Agência Nacional
do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP), mas é improvável que o desconto
chegue integralmente às bombas. Na terça-feira, durante a apresentação dos
resultados financeiros do primeiro trimestre, a presidente da Petrobras
confirmou que um reajuste da gasolina deve ser anunciado em breve, o que
certamente comprometerá parte dos repasses ao consumidor.
A renúncia fiscal foi estimada entre R$ 1 bilhão e R$ 1,2 bilhão mensais, buraco que, em tese, será coberto pela receita obtida pela União com dividendos, royalties e impostos sobre o petróleo. Segundo a equipe econômica, as medidas serão temporárias, não haverá desrespeito a regras fiscais e, “se for o caso”, haverá contingenciamento de despesas. Parece mágica, e só Deus sabe como e se essa conta vai fechar. O certo é que ninguém sabe quanto tempo ainda deve durar a guerra no Oriente Médio e que Lula não hesitará em adotar medidas como essa para conquistar votos até as eleições.
Obesidade exige um olhar mais apurado
Por Correio Braziliense
Em vez de ser entendido como uma epidemia
global, a obesidade deve ter sua faceta socioeconômica priorizada pelos
gestores públicos, alerta rede internacional de cientistas
Há indicadores consolidados para determinar a
obesidade — o IMC, a circunferência abdominal e balanças que aferem o
percentual de gordura corporal estão entre os mais comuns —, mas um dos maiores
estudos já realizados sobre a doença no mundo lança luz sobre a necessidade de
começar a olhar para as suas particularidades. Segundo a pesquisa divulgada
nesta quinta-feira na renomada revista Nature, o excesso de peso entrou em uma
fase que exige nova perspectiva de enfrentamento. Em vez de ser entendido como
uma epidemia global, deve ter sua faceta socioeconômica priorizada pelos
gestores públicos.
Os ponteiros sobem em boa parte do planeta, é
verdade, mas o fenômeno é bem mais expressivo em regiões marcadas por falhas na
urbanização, dificuldades no acesso a alimentos saudáveis, alto índice de
sedentarismo, acentuada desigualdade social, entre outras mazelas. O peso da
balança, portanto, é social. "Chamar esse fenômeno globalmente de
'epidemia' acaba mascarando essas diferenças importantes e simplificando
excessivamente um processo complexo e dinâmico", enfatizou, em nota,
Alicia Matijasevich. Professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São
Paulo (USP), Matijasevich é uma das autoras do artigo publicado na Nature.
A rede internacional de cientistas
analisou a dinâmica da obesidade em 197 países, englobando 4.050 estudos de
base populacional — com dados de áreas urbanas e rurais —, nos últimos 40 anos.
Entre as constatações, está a de que, enquanto os países de alta renda
conseguiram estabilizar a obesidade — na França, por exemplo, ela se manteve
entre as crianças durante o período analisado —, o Sul Global segue na
contramão: o avanço foi maior em 2024 do que em qualquer outro ano desde
1980.
O Brasil aparece no relatório como
exemplo de país que, mesmo tendo atingido um pico elevado da doença, não dá
sinais de estabilização. A obesidade acelerou em ambos os sexos e faixas
etárias, e os autores chamam a atenção para o crescimento contínuo sobretudo
entre homens adultos, evidenciando mais investigações sobre a influência da
questão de gênero.
Outro alerta para os países em
desenvolvimento é de que os esforços no combate à desnutrição não foram
acompanhados por respostas regulatórias ao aumento do consumo de ultraprocessados
e outros produtos pouco saudáveis. O que se vê é a saída civilizatória do mapa
da fome para um mergulho preocupante na obesidade, com impactos sistêmicos
volumosos. Ela está vinculada, por exemplo, a intercorrências que demandam
suportes de saúde de alta complexidade, como infarto e cânceres.
Levantamento recente do Instituto Desiderata
mostra que só a obesidade infanto-juvenil poderá gerar custos diretos da ordem
de R$ 3,8 bilhões ao Sistema Único de Saúde até 2060, sendo que 95% das
despesas estarão ligadas a internações hospitalares. O contraponto é que a
implantação agora de políticas públicas eficazes reduziria ao menos em 10% a
obesidade infantil, resultando em uma economia de mais de R$ 1 bilhão ao
SUS, mais de 70,8 mil vidas salvas, entre outros benefícios.
Ao ser questionado pelo Correio sobre quais medidas estruturais precisam ser adotadas para frear o problema no país, o médico Carlos Schiavon, cofundador da ONG Obesidade Brasil, elencou a medida de ouro, voltada justamente para os mais jovens: "Investir fortemente na alimentação infantil saudável nas escolas em tempo integral". Apenas uma em cada quatro crianças tem acesso hoje à jornada educacional estendida no país, e não é exagero afirmar que falta equilíbrio a todos esses cardápios. Sinais evidentes de que a receita dos especialistas em saúde precisa chegar aos gabinetes do poder.
Turismo, religião e economia: o Cariri mais
forte
Por O Povo (CE)
Quatro municípios cearenses - Juazeiro do
Norte, Crato, Barbalha e Santana do Cariri - devem fazer parte da Rota
Turística Religiosa do Cariri. O projeto foi aprovado pela Câmara dos Deputados
nesta semana e, a partir de agora, segue para análise do Senado Federal.
A ideia, de acordo com o projeto, é promover
o turismo religioso na região a fim de valorizar o patrimônio cultural e histórico
e o desenvolvimento econômico. Conforme a proposta, os principais pontos
turísticos da rota serão as estátuas de Padre Cícero (em Juazeiro do Norte),
Nossa Senhora de Fátima (no Crato), Santo Antônio (em Barbalha) e Menina
Benigna (em Santana do Cariri). Todas as imagens são consideradas fortes focos
da devoção popular local além de serem reconhecidas como símbolos de identidade
cultural da região.
Pelo Projeto de Lei 5878/25, de autoria do
deputado Yury do Paredão (MDB-CE), a ideia permite a criação de um comitê de
acompanhamento da rota com representantes dos executivos federal, estadual e
municipais, representantes da sociedade civil, membros do setor turístico e de
comunidades religiosas locais. Um dos objetivos é fazer com que a rota passe a
integrar o Plano Nacional de Turismo e outras iniciativas federais de
desenvolvimento com a finalidade de desenvolver o turismo cultural e religioso.
Além disso, o texto aprovado pela Câmara
prevê que o Governo Federal possa apoiar ações de infraestrutura turística,
sinalização, acessibilidade, qualificação profissional e atendimento aos
visitantes em parceria com o Governo do Ceará e os municípios envolvidos.
O turismo como relevante vetor de
desenvolvimento econômico e social sustentável se faz necessário em qualquer
parte do mundo. No Cariri, em que o componente religioso é intenso, conciliar o
turismo religioso com a geração de renda, com a criação de mais empregos e com
as demais oportunidades que surjam, é primordial.
A região, de incomparável riqueza cultural e
simbólica, é caracterizada pela valorosa diversidade. A importância da Região,
porém, é também econômica, política, religiosa, paleontológica e social. Padre
Cícero, em Juazeiro do Norte, e Menina Benigna, em Santana no Cariri, catalisam
o turismo religioso, levando centenas de milhares de peregrinos ao local. Numa
demonstração de fé e esperança, o romeiro faz as suas preces e agradece a
intercessão ao tempo em que movimenta a economia e contribui para aquecer o
comércio.
Essa economia dos 29 municípios da Região é
robusta. No ano de 2024, o PIB da região totalizou R$ 14,67 bilhões, o
equivalente a 7,53% do PIB do Ceará. Também é inegável atestar o polo
educacional que se formou no local. Na saúde, a presença de hospitais de alta
complexidade e o fortalecimento do ensino superior na saúde impõem o Cariri
como um polo também nesse quesito.
Desse modo, apoiar a Rota Turística Religiosa do Cariri é um dever de quem respeita e valoriza a região.

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