domingo, 31 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Debate eleitoral deve ir além dos nomes na urna

Por O Globo

É essencial tratar de questões estruturais, como emendas ou representação na Câmara

As eleições de outubro caminham mais uma vez para um quadro marcado pela polarização. A escolha do próximo presidente será novamente ditada pela preferência por este ou aquele nome, no máximo esta ou aquela linha ideológica. Ao mesmo tempo, por mais que lideranças sejam fundamentais, ninguém terá, sozinho, o condão de resolver as mazelas crônicas que afligem o Brasil.

Do caso Collor ao Banco Master, parece não ter fim a sucessão de escândalos políticos. Tal persistência reflete problemas estruturais. São pífios os incentivos para enfrentar questões relevantes como educação, saúde ou segurança. Em vez disso, a classe política parece preocupada exclusivamente em manter o poder e desfrutá-lo em benefício próprio. Nas palavras do colunista do GLOBO e ex-ministro Pedro Parente, o Brasil “tem um sistema doente”.

A questão transcende os nomes na urna eletrônica. “Sistemas doentes não se curam unicamente com a troca de atores; reproduzem-se com novos rostos”, diz Parente. A patologia, segundo ele, é um sistema presidencialista esvaziado pelos partidos fisiológicos: “O resultado é um híbrido perverso. Um parlamentarismo sem responsabilização, em que nem presidente nem Congresso podem ser claramente cobrados. A irresponsabilidade política foi, na prática, institucionalizada”.

Esse mecanismo ganhou força com a explosão das emendas parlamentares na última década, conferindo ao Congresso controle sobre fatias maiores do Orçamento. Em 2015, as emendas somavam R$ 5,7 bilhões em valores atualizados. Na tentativa de se salvar do impeachment, Dilma Rousseff permitiu que chegassem a R$ 18,9 bilhões em 2016. Em 2020, quando eclodiu o escândalo do orçamento secreto, sob Jair Bolsonaro, atingiram R$ 48 bilhões. De lá para cá, se mantêm nesse patamar — somaram R$ 47,1 bilhões no ano passado. Em 2015, as emendas representavam 2,5% da parcela não engessada do Orçamento sob controle do Executivo. Dez anos depois, são 21,9%.

O Parlamento resiste a abrir mão do dinheiro que recebe e, em vez de assumir responsabilidades sobre o gasto como o Executivo, tornou as emendas mais impositivas e menos transparentes. Na melhor hipótese, há desperdício, pois recebem municípios com melhores conexões em Brasília, não os que precisam. Na pior, corrupção.

O descontrole das emendas é amplificado por outro problema estrutural: a representação desproporcional na Câmara. A “taxa de cidadania” é uma em Boa Vista, Macapá ou Rio Branco, mas outra quando o cidadão transfere seu título de eleitor para São Paulo, Rio ou Belo Horizonte. Pela Constituição, os estados devem ter representação proporcional à população, mas nenhum pode ter menos de oito ou mais de 70 deputados. Resultado: nos três mais populosos, cada deputado representa 300 mil eleitores. Nos três menos populosos, pouco mais de 60 mil. Trata-se de outra distorção que passa ao largo das preocupações do Parlamento.

A lista de problemas poderia prosseguir. Reformas políticas para resolvê-los são mencionadas quando as crises se agravam, mas não andam. “As patologias do sistema só começarão a ser curadas quando um presidente tiver a coragem de nomeá-las e a determinação de enfrentá-las”, diz Parente. As eleições de outubro representam uma nova oportunidade de debatê-las, para além do embate fútil propiciado pela polarização em torno de nomes.

Decisão de Gilmar impôs limites razoáveis a escolas cívico-militares

Por O Globo

Rede pública de ensino não deve servir para catequese ou proselitismo de jovens à carreira militar

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou as escolas cívico-militares na rede pública de ensino básico, mas fez bem ao estabelecer regras e limites a sua adoção. Gilmar é relator de Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIs) impetradas por PSOL e PT contra a instalação dessas escolas em São Paulo pelo governo Tarcísio de Freitas. Além dessas, há duas outras ações de mesmo teor, ambas relatadas pelo ministro Dias Toffoli, relacionadas ao Paraná e ao Rio Grande do Sul. O voto de Gilmar é um bom guia para a direção que o STF deve adotar em relação à questão.

Escolas cívico-militares não devem ser confundidas com os 15 colégios militares mantidos pelo Exército em todo o país. Estes não têm o caráter de escolas públicas, abertas a toda a população, há regras de acesso especial a filhos de militares e até cobrança de taxas a título de manutenção. As escolas cívico-militares, em contrapartida, são escolas públicas regulares com acesso gratuito, mas gestão compartilhada. Uma equipe pedagógica civil cuida do ensino, e o corpo militar atua na disciplina e na infraestrutura. A rotina inclui regras rígidas de comportamento, uniformes e celebrações cívicas, mas o currículo segue a Base Nacional Curricular Comum do MEC.

Elas foram criadas por decreto do governo Jair Bolsonaro, depois revogado pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva, alegando incoerências e desvio de finalidade na atuação das Forças Armadas. Ainda assim, várias continuam a existir por todo o país, mesmo sem apoio do MEC. Estão presentes em 862 dos 5.570 municípios. Desde sua instituição, em 2019, seu número cresceu quase sete vezes. É indiscutível a demanda por tais escolas, sobretudo de pais atraídos pelo aspecto disciplinar que alegam manter.

Em sua decisão, Gilmar respeitou essa demanda ao autorizá-las. Mas procurou coibir excessos pedagógicos, sem cassar a liberdade de governadores e prefeitos de adotar esse modelo de gestão escolar. Acertadamente, vetou atividades que “exaltem o militarismo, as forças de segurança pública e suas instituições, especialmente por símbolos e hinos típicos das organizações militares, como hinos e símbolos das Forças Armadas, das polícias militares e corpos de bombeiros militares e guardas municipais”. Ele está certo. A rede pública de ensino não deve mesmo servir para catequese ou proselitismo de jovens à carreira militar.

Na mesma linha, Gilmar proibiu a imposição de cortes padronizados de cabelo ou de vetos a qualquer tipo de manifestação cultural e religiosa. Pela decisão, nenhuma aula poderá ser dada por militares, inclusive aquelas sobre formação cívica e republicana. Outro ponto de destaque de seu voto foi reservar a direção pedagógica e administrativa a profissionais civis. O Supremo faria bem em adotar as mesmas diretrizes ao analisar a questão. Quanto ao governo, deveria enquadrar esse modelo de gestão escolar no projeto mais amplo de melhora na qualidade do ensino básico — problema educacional mais relevante do Brasil

O custo de salvar um banco que não deveria existir

Por Folha de S. Paulo

DF fará dívida de R$ 6,5 bi para manter BRB, cobrindo rombo após envolvimento com Master

Opção é menos ruim do que um socorro do contribuinte nacional, mas governança deveria mudar depois do escândalo financeiro

Apenas do ponto de vista da conveniência eleitoral pode fazer sentido o esforço para capitalizar o Banco Regional de Brasília (BRB), após o rombo provocado pela compra de carteiras fraudulentas do Banco Master, e mantê-lo sob o controle do governo do Distrito Federal.

Em vez de aproveitar o aprendizado com o escândalo e romper com o modelo de captura política da instituição estatal, a escolha é novamente recorrer ao dinheiro público —no caso, dos contribuintes brasilienses— sem transformação da governança.

O acordo fechado entre o DF e o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), intermediado pelo ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal, viabiliza um empréstimo de cerca de R$ 6,5 bilhões do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) ao banco regional.

A operação ao menos não envolve transferência de recursos da União nem garantia federal explícita. O empréstimo, ainda em negociação, contaria com fiança de um consórcio de bancos, além de garantias que somam cerca de R$ 2 bilhões anuais.

Como parte do acordo, o governo federal ampliou o limite de crédito do DF, até então sob o teto de cerca de R$ 900 milhões do Programa de Reestruturação e Ajuste Fiscal (PAF), e a nova dívida passa à regra de 16% da receita corrente líquida definida por resolução do Senado.

O BRB aprovou um plano de capitalização de R$ 8,8 bilhões para cobrir o rombo relacionado ao Master —do qual adquiriu R$ 21,9 bilhões em ativos problemáticos, com perdas bilionárias ainda não totalmente auditadas.

O governo do DF, que detém a maioria acionária, não teria caixa para aportar os recursos necessários sem diluir sua participação no controle do banco —daí a dependência do empréstimo via FGC para cobrir parte do aporte, que terá como garantia repasses obrigatórios da União ao ente federativo, além de securitização de dívida ativa e venda de ativos.

Ademais, o DF se comprometerá com corte de 10% nas despesas até o fim de 2026, equivalentes a pelo menos R$ 4 bilhões, além de restrições como a proibição de concursos, criação de cargos, reajustes salariais, auxílios e incentivos que elevem gastos.

A estrutura financeira pode até ser engenhosa, mas o cerne do problema permanece: a permanência do controle estatal do banco. A justificativa oficial —preservar o BRB como instrumento de política pública— está longe de ser convincente. Bancos privados ou consórcios poderiam assumir essas operações por licitação, com maior eficiência.

Por fim, promessas de reestruturação e mesmo de ajuste fiscal por parte de governos estaduais tendem a ser repetidamente descumpridas, não raro com guarida do STF. O risco é a perpetuação de más práticas.

Certamente haveria caminhos melhores para evitar um rombo estimado em R$ 17 bilhões no FGC —cifra citada pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan— no caso de uma liquidação do BRB.

Violência segue em pauta na eleição colombiana

Por Folha de S. Paulo

Candidato de esquerda, que lidera as pesquisas, mantém plano malsucedido de 'paz total' de Petro

Adversários do governista advogam política linha-dura no combate às guerrilhas; pleito ocorrerá sob trégua de grupo dissidente das Farc

O fracasso de Gustavo Petro na segurança pública e na negociação com as guerrilhas não resultou em aversão clara do eleitorado, que participa do pleito presidencial neste domingo (31), à continuidade da esquerda no governo da Colômbia.

No país assolado há mais de 60 anos por brutais conflitos armados, mesmo depois do acordo de paz de 2016 com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), o tema segue no centro do debate. A violência permanece no topo das preocupações dos colombianos, em meio a uma acirrada disputa territorial entre guerrilhas e grupos paramilitares convertidos ao narcotráfico.

Segundo a mais recente pesquisa Invamer, o senador Iván Cepeda —candidato do Pacto Histórico e pupilo de Petro— tem 44,6% das intenções de voto, seguido pelo advogado criminalista Abelardo de la Espriella, de ultradireita, com 31,6%. Em terceiro, com 14%, está a senadora Paloma Valencia, apoiada pelo ex-presidente de centro-direita Álvaro Uribe.

As eleições legislativas, em março, já haviam indicado o vigor da esquerda ao consolidar o Pacto Histórico como a maior força política no Senado.

A taxa oficial de pobreza da Colômbia é de 31,6%, e, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), o PIB do país deve crescer 2,3% neste ano. No âmbito da economia, os candidatos manifestam as diferenças históricas entre os dois espectros ideológicos.

Se Espriella e Valencia acenam com a redução de impostos sobre as empresas, por exemplo, Cepeda propõe a extinção de parte dos benefícios fiscais ao setor e a tributação de grandes fortunas.

Na segurança pública, as diferenças entre as agendas podem ser decisivas. Na mesma linha de Petro, Cepeda rejeita a militarização como meio de combate à violência, por seu elevado risco de exposição da população civil, e insiste nas negociações de acordos de paz com as guerrilhas, que foram um fiasco na gestão atual.

Já seus adversários defendem o recrudescimento da ação militar —em sintonia com a doutrina de Donald Trump. Tais propostas, porém, trazem à memória o fracasso das políticas anteriores, que resultaram em estatísticas de morte e de refúgio de civis equivalentes às de países em guerra.

A eleição ocorrerá sob trégua declarada pelo Estado-Maior Central, dissidência das Farc que entrou em conflito com a facção Isaías Carvajal, na última semana, na região amazônica do país. Um ambiente de paz na votação é o mínimo que deve ser assegurado. Há, porém, pouca esperança de pacificação da Colômbia, seja qual for o presidente escolhido.

Salvamento do BRB ofende o País

Por O Estado de S. Paulo

Sob as bênçãos do STF, União e Distrito Federal fecham acordo para ajudar a instituição mais enredada no escândalo do Banco Master com empréstimo de até R$ 6,5 bilhões

São inacreditáveis os termos do acordo fechado entre a União e o governo do Distrito Federal (GDF) para socorrer o Banco de Brasília (BRB). Sob as bênçãos do Supremo Tribunal Federal (STF), a instituição mais enredada no escândalo do Master contará com um empréstimo de até R$ 6,5 bilhões do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para cobrir um rombo que, tudo indica, não foi fruto de negligência ou má administração, mas de corrupção e gestão fraudulenta.

Até hoje o BRB não divulgou o balanço de 2025, de forma que não se tem certeza do tamanho do buraco em suas contas. O pouco que se sabe é que o banco precisava de um aporte de R$ 8,8 bilhões para cobrir o rombo causado pela malfadada tentativa de compra do Master. Qualquer instituição financeira em situação semelhante já teria sido liquidada ou vendida, mas tudo muda quando se trata de um banco estatal e de um ano eleitoral.

Há pouco mais de um mês, o ministro de Relações Institucionais, José Guimarães, dizia ser radicalmente contra um socorro ao BRB; o ministro da Fazenda, Dario Durigan, descartava um socorro do Tesouro e uma federalização por bancos públicos; e o secretário-executivo da pasta, Rogério Ceron, afirmava que a orientação dada por Luiz Inácio Lula da Silva era de que o BRB era um problema do GDF. Como se vê, tudo rapidamente mudou.

Recém-empossada governadora, após Ibaneis Rocha deixar o cargo para disputar o Senado, Celina Leão ficou com uma bomba na mão e tinha pouco tempo para desarmá-la – ela também concorrerá à eleição em outubro. Fez, então, o que todo governador com as contas no vermelho faz: recorreu ao STF para obrigar a União a ajudá-la.

No STF, a relatoria do pedido ficou com o ministro Luiz Fux – o mesmo que já concedeu várias liminares favoráveis ao Rio de Janeiro que permitiram ao Estado não apenas dar calote nas dívidas que tem com a União, mas também continuar a receber os repasses de recursos federais. Por que faria diferente com o Distrito Federal?

O epílogo era previsível, mas o roteiro dessa encenação já teve mais qualidade. Consta que Fux estaria preocupado com a possibilidade de perda de autoridade do Judiciário em caso de quebra do BRB. O motivo? Quatro Estados do Nordeste, além do DF, inexplicavelmente mantêm R$ 30 bilhões em depósitos judiciais não no Banco do Brasil, mas no BRB.

O governo federal, então, recalculou a rota. Manteve o discurso de que o empréstimo não tem aval nem socorro da União, mas aceitou ampliar o limite de crédito do Distrito Federal, de quem é garantidor em última instância, a despeito de seu preocupante quadro fiscal. Na prática, é a mesma coisa.

Segundo Durigan, os bancos, por meio do FGC, teriam de arcar com um prejuízo de R$ 17 bilhões caso o BRB fosse liquidado. Toparam, então, emprestar singelos R$ 6,5 bilhões num prazo de 15 anos, com dois anos de carência e juros ainda a definir, tendo como contragarantia recursos futuros que o GDF receberá por meio de repasses que recebe da União via fundos constitucionais de Estados e municípios, uma fração do que ganha com o Fundo Constitucional do Distrito Federal (FCDF), que permanece intocado. O ministro sustentou, ainda, que a União não teve nada a ver com a entrada do Banco do Brasil e da Caixa no pool de instituições financeiras que farão o empréstimo. Acredita quem quer.

O GDF, por sua vez, deverá se comprometer em não conceder reajustes salariais, realizar concursos públicos, aumentar despesas obrigatórias ou oferecer incentivos fiscais. Talvez incautos acreditem que contrapartidas como essas serão integralmente cumpridas até que o empréstimo seja pago, quando o próprio governo Lula já se opôs a elas no programa de renegociação de dívidas dos Estados.

Em tese, parte da dívida poderá ser paga com o ressarcimento dos prejuízos do BRB por parte de quem desviou o dinheiro. Novamente, há que ter certa ingenuidade para crer nessa possibilidade, uma vez que o socorro saiu sem que o banco tivesse de divulgar o balanço e sem que ninguém tenha sido punido. E, quando todos saem satisfeitos com uma solução dessa natureza, é indício fortíssimo de que tudo acabará numa grande pizza, paga por todos os contribuintes.

O paulistano só quer segurança

Por O Estado de S. Paulo

Célere em retirar uma faixa que alertava para o risco de assalto em Pinheiros, o poder público tem sido lento para aplacar a aflição dos moradores que têm medo da violência

A fotografia estampada na primeira página do Estadão de quinta-feira passada deveria constranger profundamente o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Em Pinheiros, um dos bairros mais movimentados da capital paulista, moradores e comerciantes estenderam uma faixa para alertar pedestres e motoristas sobre o risco de roubo no local. “Cuidado! Trecho com alto índice de assalto por motoqueiros. Fiquem atentos!”, lê-se na faixa – rapidamente recolhida pela Prefeitura por, ora vejam, infringir a lei.

Célere em retirar a tal faixa, o poder público tem sido lento para aplacar a aflição dos moradores, que se mobilizam por conta própria para tentar escapar da violência urbana, por meio de alertas aos desavisados. Quando confrontada com essa realidade, a Secretaria da Segurança Pública se refugia nas estatísticas, divulgando reduções pontuais de determinados indicadores criminais, que, malgrado sejam verificáveis, de nada servem para aplacar a apreensão que marca a vida nesta cidade. Ao contrário, servem para irritar ainda mais os paulistanos, que, com toda razão, sentem-se desrespeitados por uma reação burocrática e insensível a um problema que experimentam na pele todo santo dia.

Para quem está acuado num semáforo ou com medo de passear com seu cachorro na rua, pouco importa se houve oscilação de 2% para cima ou para baixo nos registros de roubos e latrocínios num determinado bairro. Não há estatística capaz de neutralizar a experiência cotidiana de uma cidade que se vira como pode para conviver com quadrilhas especializadas em roubo de celulares, alianças, relógios e bolsas.

Mas, para ficarmos no campo das estatísticas, o caso de Pinheiros, por si só, desmonta o discurso tecnocrático do Palácio dos Bandeirantes. O distrito policial da região, que também abrange a Vila Madalena, liderou os registros de crimes patrimoniais em São Paulo no primeiro trimestre deste ano: foram 2.589 ocorrências entre janeiro e março. A sensação de insegurança, portanto, não é uma percepção exagerada.

A ação de criminosos nas ruas ficou tão banal que um aplicativo de geolocalização passou a emitir alertas aos motoristas sobre vias com alto risco de assaltos em São Paulo. Eis um retrato humilhante para a maior cidade do País, uma metrópole em que a criminalidade se organiza de maneira tão escancarada que o Estadão, por meio de sua ferramenta Radar da Criminalidade, e uma plataforma como o Waze conseguem mapear os pontos conhecidos pela presença da “gangue dos motoqueiros”, da “gangue dos quebra-vidros” e da “gangue das bicicletas”.

Nada disso surge por geração espontânea, muito menos numa cidade do porte de São Paulo. É decorrência direta da ausência do Estado nas ruas. Devemos lembrar que “polícia ostensiva” não tem esse nome por acaso: deve ser uma força visível, capaz de gerar uma sensação de proteção permanente. E isso faz falta na capital paulista. Afinal, onde estão os policiais militares que deveriam ser vistos por todos, a qualquer hora, nas ruas e avenidas da cidade? Talvez estejam carregando pastas para coronéis da PM ou dirigindo suas viaturas.

Outra medida que precisa ser priorizada pelo Palácio dos Bandeirantes é a destruição da cadeia de receptação. O roubo de celulares se tornou um dos crimes mais praticados em São Paulo porque é altamente lucrativo e, do ponto de vista dos bandidos, pouco arriscado. Parte dos aparelhos abastece o mercado clandestino. Outra parte alimenta esquemas sofisticados de fraudes financeiras operados por organizações criminosas como o PCC. Sem acabar com essa engrenagem econômica, vale dizer, com a atratividade dessa modalidade criminosa, os paulistanos seguirão contando com a própria sorte.

É evidente que segurança pública numa cidade como São Paulo envolve desafios monumentais. Mas é exatamente por isso que este jornal espera do governador Tarcísio mais senso de urgência. O paulistano amedrontado, que precisa bolar táticas de guerra quando vai para a rua, não quer saber de estatísticas. Quer presença policial, quer ordem, quer paz para tocar sua vida.

Mulheres nos quartéis

Por O Estado de S. Paulo

Forças Armadas reconhecem que competência e capacidade operacional não dependem de gênero

Reportagem publicada pelo Estadão na semana passada mostrou um movimento que, embora tardio, ajuda a simbolizar mudanças importantes dentro de uma das instituições mais tradicionais e resistentes do Estado brasileiro. Pela primeira vez, mulheres participam de um exercício operacional do Corpo de Fuzileiros Navais voltado à revalidação do mais alto nível de prontidão da ONU para tropas de paz internacionais. A inspeção, realizada no Rio de Janeiro, avalia a capacidade da chamada Força de Reação Rápida – uma unidade de elite preparada para atuar em cenários de conflito, instabilidade e crises humanitárias ao redor do mundo.

O exercício não tem caráter meramente protocolar. Para manter o chamado nível 3 no Sistema de Prontidão de Capacidades de Manutenção da Paz da ONU, o Brasil precisa demonstrar que suas tropas cumprem exigentes padrões internacionais de doutrina, treinamento, logística e equipamento. Os militares apresentam sistemas de desativação de explosivos integrados a caminhões especializados, drones de reconhecimento, robôs para manipulação de artefatos suspeitos e cães farejadores treinados para operações urbanas. Trata-se de uma estrutura sofisticada, de alta exigência técnica e operacional, voltada a missões internacionais complexas.

E talvez seja exatamente aí que a presença feminina ganhe dimensão mais relevante. As mulheres não aparecem ali para cumprir protocolo. Segundo a própria Marinha, a inclusão de mulheres amplia a capacidade operacional das tropas em missões de paz, sobretudo na interação com populações vulneráveis, além de atender às diretrizes internacionais estabelecidas pela ONU. Em outras palavras, as Forças Armadas brasileiras começam finalmente a reconhecer algo bastante simples: competência, liderança e capacidade operacional não dependem de gênero.

A mudança ocorre lentamente, mas já aparece em outros espaços. No ano passado, a Força Aérea Brasileira abriu pela primeira vez vagas para mulheres na Infantaria da Aeronáutica. As primeiras cadetes aviadoras ingressaram na Academia da Força Aérea em 2003. No mês passado, a médica Claudia Gusmão tornou-se a primeira mulher a alcançar o posto de general no Exército brasileiro. Em entrevista ao jornal O Globo, ela afirmou considerar “natural” que mulheres venham futuramente a integrar também o Alto Comando da Força Terrestre.

O Brasil demorou demais para avançar nesse terreno. O voto feminino só foi reconhecido em 1932. Durante décadas, mulheres foram empurradas para posições secundárias na vida pública por restrições legais, culturais e institucionais frequentemente tratadas como naturais. Mesmo hoje, o País segue muito atrás de outras democracias em presença feminina nos espaços de poder. Dados da ONU colocam o Brasil na 133.ª posição mundial em representação parlamentar de mulheres.

Talvez justamente por isso imagens como as registradas no exercício dos fuzileiros navais tenham relevância que vai além da questão militar. Elas ajudam a mostrar que algumas das estruturas mais tradicionais do País começam a abandonar preconceitos históricos que limitavam oportunidades e desperdiçavam talentos.

O Brasil tem jeito

Por O Estado de S. Paulo

Debate inaugural do projeto ‘Brasil Adiante’ mostra que o primeiro passo é forjar um projeto de país

O Brasil não está condenado à mediocridade. Não faltam ao País recursos, mercados, capacidade produtiva, capital humano e relevância internacional. Tampouco faltam diagnósticos sobre suas mazelas. Os principais entraves ao desenvolvimento nacional são sobejamente conhecidos há anos. Ainda assim, governo após governo, legislatura após legislatura, o Brasil permanece preso à armadilha da renda média, incapaz de transformar seu enorme potencial em garantia de vida minimamente digna para todos os cidadãos.

Mas o atraso, ao que parece, deixou de provocar indignação. O debate público, cada vez mais dominado pela lógica facciosa que orienta o lulismo e o bolsonarismo, não privilegia a reflexão racional sobre um futuro coletivo mais auspicioso. Discutem-se eleição, escândalos e conveniências partidárias de ocasião, mas raramente os reais interesses da Nação. Aqui, a bússola da política perdeu o norte.

Foi justamente para ajudar o País a recobrar o prumo que o Estadão lançou o projeto Brasil Adiante, reunindo economistas, juristas, cientistas políticos, empresários e representantes da sociedade civil para propor soluções concretas para os problemas nacionais e, mais importante, saídas para os entraves que impedem sua implementação. É seguro afirmar que o Brasil sofre menos por desconhecer suas vicissitudes do que por sua incapacidade de construir consensos mínimos para enfrentá-las.

Entre as reflexões suscitadas no primeiro encontro do Brasil Adiante, na quarta-feira passada, talvez a mais basilar tenha sido a de Pedro Parente: “Sabemos onde estamos, mas não para onde ir”. A frase resume nossa miséria. Se não faltam os meios, faltam ao Brasil lideranças políticas genuinamente comprometidas com o interesse público e capazes de mobilizar a sociedade civil em torno de uma visão de país orientada pelo bem comum.

O desenvolvimento não surge por geração espontânea. Exige formulação, diálogo honesto, coordenação política, estabilidade institucional e clareza para definir objetivos que transcendam governos e ciclos eleitorais. Exige, sobretudo, políticas de Estado e, consequentemente, estadistas – essa espécie em extinção no habitat político brasileiro, dominado pelo populismo e pela estreiteza dos olhares voltados sempre à próxima eleição.

Enquanto outros países de traços semelhantes aos do Brasil conseguiram avançar em produtividade, inovação tecnológica e fortalecimento institucional, aqui se desperdiçam energia e dinheiro com o patrimonialismo, disputas ideológicas estéreis e reformas tíbias, quase sempre aquém do necessário. A consequência é um país de crescimento medíocre, investimento escasso e desilusão para seus cidadãos. Não surpreende que tantos brasileiros, ano após ano, percam a fé no Brasil e deixem de votar ou decidam recomeçar suas vidas no estrangeiro.

Mas o Brasil tem jeito. Romper os grilhões que o mantêm aferrado ao atraso é o maior desafio da Nação. Como bem lembrou no evento o economista Marcos Mendes, pesquisador associado ao Insper, não há uma “bala de prata” capaz de resolver os problemas do Brasil. Não basta aprovar uma ou duas reformas pontuais, ainda que urgentes. É preciso, antes, restaurar uma ideia de projeto nacional, o que pressupõe espírito público, coesão social, responsabilidade política e compromisso genuíno com o bem-estar das atuais e das futuras gerações de brasileiros. Sem isso, o País continuará administrando frustrações.

O encontro inaugural do Brasil Adiante mostrou que ainda existe, na sociedade civil, vida inteligente e disposição para pensar o País para além da polarização que amesquinha o debate público. É um começo mais do que bem-vindo – necessário.

PCC, CV e a exigência de reorganização interna

Por Correio Braziliense

Não se escutou ainda de nenhum especialista sério de que a decisão, por parte dos EUA, do enquadrar PCC e CV como terroristas é capaz de possibilitar aos brasileiros fecharem essas chagas

Passado o impacto do enquadramento do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas pelo governo de Donald Trump, não se escutou de nenhum especialista sério de que foi uma medida capaz de possibilitar aos brasileiros fecharem essas chagas. Ao contrário. Nas entrevistas que se seguiram em análise da situação, houve uma unanimidade: a decisão enfraquece a guerra contra o crime organizado, pois a retira do âmbito de quem entende e a remete a organismos que nunca conseguiram resultados efetivos no combate aos cartéis das drogas.

Eleitoralmente, serviu para a direita brasileira desfiar o surrado rosário de soluções rasas, barulhentas e brutais. Para a esquerda e o governo, restaram duas certezas: a primeira, de que a histórica ingenuidade acadêmica é, hoje, indefensável e nada pragmática; a segunda, de que custou-se a perceber que mais do que a economia, é a violência que apavora há muito tempo a maior parcela dos brasileiros.

Uma das vozes mais contundentes contra a decisão do governo Trump é o promotor de Justiça Lincoln Gakia. Há pelo menos 20 anos, investiga o PCC e está marcado para morrer pela facção. No livro O Brasil livre das máfias, do qual é coautor com o jurista Walfrido Warde, há uma definição sobre o que são essas organizações criminosas. De tão cristalina, só não é compreendida por quem não quer.

"O crime organizado do dia de hoje é atividade econômica organizada, é uma empresa, que reúne meios, materiais e humanos, com vistas à obtenção de lucros, por meio da prática sistemática e profissional de crimes. O crime organizado de tipo mafioso se tornou uma estrutura dos sistemas político, econômico e social, que decorre da incapacidade do Estado de prover segurança, justiça e bem-estar, e que se desenvolve na simbiose entre mercados lícitos e ilícitos, corrupção institucional e fragilidades socioeconômicas" (página 70).

Outro jurista, Walter Fanganiello Maierovitch, expõe de modo definitivo o oportunismo político norte-americano com a chamada "guerra às drogas" no livro Máfia, poder e antimáfia. Mostra, nas páginas 195 e 196, como "a War on Drugs começou em decorrência de uma situação politicamente embaraçosa para o então presidente norte-americano Richard Nixon", em razão de os combatentes no Vietnã voltarem para casa dependentes da heroína asiática, para uma ampliação conduzida por Ronald Reagan, legitimando os EUA "a dar combate às drogas, sem respeitar fronteiras."

A extensão dos efeitos do enquadramento do PCC e do CV como organizações terroristas ainda está sendo descortinada. Mas é fácil perceber, primeiramente, que tornou-se um supertrunfo nas relações entre EUA e Brasil. Ostensivamente, aumenta a pressão para o afastamento paulatino da China — nosso maior parceiro comercial — e rebaixa as negociações comerciais a um nível que indica sujeição. A ampliação do alinhamento ideológico do Ocidente aos ditames de Washington é pilar da política externa dos EUA.

O passo atrás representa a necessidade de rápida reorganização das instituições nacionais. Para evitar o congelamento de acordos de cooperação e trocas de informações entre os dois países, a diplomacia brasileira terá de dobrar o expediente junto ao Departamento de Estado e mostrar avanços concretos contra as duas facções. Isso forçará a articulação do Palácio do Planalto a demonstrar maior efetividade em fazer andar a PEC da Segurança. Parada no Senado, está ao sabor dos humores do presidente da Casa, Davi Alcolumbre, que sequer a distribuiu para análise nas comissões.

Esse esforço não inclui somente o governo. Tal como no tarifaço de 50%, as instituições afetadas terão de entrar em campo. Aqui, há um grande peso sobre a Faria Lima, por conta da participação no Sistema SWIFT, de rastreamento monetário. Há muito que seus executivos sabem que baixa credibilidade, opacidade e insegurança não combinam com investimentos. Agora, terão de fazer disso um mantra por obra e graça do governo Trump.

Santo Antônio: religião e cultura no Cariri

Por O Povo (CE)

Neste dia do carregamento do Pau da Bandeira, o percurso do cortejo de 7 quilômetros passa por várias ruas da cidade e exige uma preparação dos órgãos de trânsito que interditam as vias por causa da instalação da quermesse e devido ao grande fluxo de pessoas que acompanham o evento

Este último domingo de maio, 31, marca o tradicional carregamento do Pau da Bandeira de Santo Antônio, em Barbalha, na Região do Cariri. A festa, que começa no fim deste mês e se estende até 13 de junho, mobiliza fiéis, turistas, nativos e visitantes de todo o Brasil. A ideia é agradecer ao santo e pedir a intercessão por alguma bênção ou mesmo reforçar o festejo cultural que já faz parte também do calendário cultural da região. Pelos registros oficiais da Igreja, a festa chega ao seu 98º ano.

Neste dia do carregamento do Pau da Bandeira, o percurso do cortejo de 7 quilômetros passa por várias ruas da cidade e exige uma preparação dos órgãos de trânsito que interditam as vias por causa da instalação da quermesse e devido ao grande fluxo de pessoas que acompanham o evento. E é preciso ressaltar: seguir o cortejo ou presenciar parte dele é uma experiência única no Cariri.

É certo que algumas ações seculares já se misturam aos ritos religiosos da festa do santo padroeiro de Barbalha. A participação popular e as brincadeiras durante o cortejo se unem ao sacrifício que os carregadores fazem em todo o trajeto numa profissão de fé e devoção. No entanto, todo o conjunto cultural que se forma durante os festejos é uma tradição que merece e precisa ser valorizada e incentivada ano após ano.

Desde o corte do tronco de árvore, geralmente um angico, até o carregamento no cortejo oficial, há uma grande expectativa da população para a festa que vai se iniciar. Além disso, as manifestações populares tomam conta da cidade em uma celebração popular e totalmente marcada pela expressão da cultura caririense. Os grupos tradicionais, como reisados e brincantes, são atrações constantes para quem participa dos festejos. Também as bandas cabaçais e as quadrilhas se apresentam no evento.

O Centro Histórico de Barbalha é enfeitado pelas bandeirinhas coloridas ao tempo em que a imagem de Santo Antônio é vista por todos os lados - numa devoção ao santo que é tão popular quanto querido. Considerada uma das maiores manifestações culturais e religiosas do Nordeste e do Brasil, a Festa já é reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (Iphan).

É certo que, neste ano, devido ao período eleitoral que se avizinha, vários políticos, de diversas ideologias, já anunciaram que marcarão presença neste dia do carregamento do Pau da Bandeira. A festa, por ser popular, é democrática e, portanto, comporta todo participante que quiser experimentar a vivência do evento. No entanto, espera-se que o jogo político-partidário não se sobreponha ao caráter religioso e cultural da festa. A essência da tradição, que é cercada pela devoção religiosa e pelo valor cultural, precisa ser o objetivo primeiro da festa quase centenária. 

Nefastas afinidades

Por Revista Será? (PE)

O senador Flávio Bolsonaro fez uma visita relâmpago a Washington, nesta semana, numa tentativa de neutralizar o derretimento da sua candidatura provocada pela demonstração de relações suspeitas que teria com tóxico banqueiro Daniel Vorcaro. Com o seu breve encontro com Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca, Flávio espera também transmitir uma imagem de político com estatura internacional, sendo recebido pelo presidente da maior potência internacional. Objetivos muito duvidosos na medida em que mostra, por outro lado, uma afinidade ideológica indesejável com um governante errático, truculento e destrutivo que está provocando um desequilíbrio no comércio mundial, desrespeitando a soberania das nações, provocando guerras e distribuindo ameaças, chantagens e violência mundo afora. Esta afinidade com Trump pode despertar mais desconfiança e rejeição que inclinação favorável ao candidato do PL-Partido Liberal. As duas fotos no Salão Oval mostram o senador de pé, ao lado da poltrona em que está sentado o presidente Donald Trump, que nem sequer olha para o visitante, numa imagem humilhante de subordinação. No máximo, vai ser útil para produzir “santinhos” distribuídos na campanha eleitoral.

Na principal agenda da reunião, Bolsonaro teria solicitado que Trump classificasse o PCC e o Comando Vermelho como grupos terroristas, o que, na visão trumpista, autorizaria a intervenção dos Estados Unidos em todos os países com atuação destacada do crime organizado. O candidato brasileiro manifestou disposição de integrar o Brasil ao chamado “Escudo das Américas” que serve para Trump justificar os ataques criminosos ao espaço aéreo e marítimo de países do Caribe e em áreas do Pacífico, destruindo barcos e matando supostos traficantes.

Como o eleitorado brasileiro tem definido a segurança pública (a ausência dela) como o principal problema do Brasil, Flávio Bolsonaro espera que esta proposta de adesão do país ao projeto de combate às drogas do presidente dos Estados Unidos possa carrear para ele uma enxurrada de votos. Aparentemente, estes votos ele já tem. Por outro lado, a adesão (quase subordinação) a Trump oferece um pacote completo que serve aos interesses exclusivos dos Estados Unidos (Make América Graet Again), o Brasil a serviço da hegemonia estadunidense.

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