O Globo
Aprovar que uma lei dessas seja imposta ao
Brasil a pedido de brasileiros é abrir mão da soberania nacional, ainda mais
baseado em distorções mentirosas.
Pela segunda vez a família Bolsonaro atuou
junto ao governo dos Estados Unidos para que o presidente Trump tomasse
atitudes contra o governo brasileiro, como se tratasse apenas de uma luta
política entre eles e o PT do presidente Lula. Sem uma visão de longo prazo, e
com uma política externa atrelada aos interesses americanos, repetindo a velha
máxima do então embaixador brasileiro nos Estados Unidos Juracy Magalhães, “o
que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. Se a frase em 1965 já
chocou, em plena ditadura militar, o conceito, nos dias de hoje, é mais
anacrônico ainda, mas norteia o pensamento dos Bolsonaro.
Morando nos Estados Unidos, declarando-se
autoexilado por questões políticas, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro
utiliza a proximidade ideológica com alguns dos principais assessores do
presidente Trump para estimular atitudes hostis ao governo de esquerda do
Brasil, como se tudo que fosse ruim para os petistas fosse bom para o Brasil.
Numa estreiteza política típica, esquecem os Bolsonaro que algumas decisões
autoritárias do governo americano têm o poder de ferir a economia brasileira,
como no tarifaço decretado por Trump, enquanto outras, como declarar
terroristas as facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da
Capital (PCC) ferem a soberania brasileira.
Sucessivos governos brasileiros, de
diferentes sotaques políticos, evitaram nos últimos 30 anos enfrentar a questão
do crime organizado. Temia-se que a questão, constitucionalmente afeita aos
estados, pudesse trazer culpas diretas para o Presidente da República. Em seu
primeiro mandato, o presidente Lula criou um Gabinete de Segurança Pública com
esse objetivo, e levou o sociólogo Luiz Eduardo Soares para dentro do Palácio
do Planalto para executar a nova política. Mais por intrigas palacianas do que
por problemas concretos, não chegamos a ter a implantação de medidas contra a
bandidagem a nível nacional.
O presidente Michel Temer, anos depois, subiu
o patamar da preocupação criando um ministério de Segurança Pública, conduzido
com muita competência pelo falecido ministro Raul Jungmann. O ministério, que
nasceu com o epíteto de “extraordinário”, teve atuação incipiente e foi
abandonado pelo governo Bolsonaro. O problema só fez crescer e tomar conta de
diversos territórios, hoje sob o domínio das gangues criminosas. A volta do
ministério da Segurança Pública tornou-se tema inevitável, pois a sensação de
insegurança domina amplas parcelas da população, mesmo as que não vivem em
territórios ocupados. Os assaltos diários de celulares são exemplares dessa
situação.
Ser favorável a chamar os Estados Unidos para
ajudar nesse combate é uma reação natural de quem sofre com os criminosos
impondo suas regras e arrecadação a cada vez mais gente. Mas deveria ser mais
estudado por políticos que se consideram aptos a assumir a Presidência da
República. O senador Flavio Bolsonaro, seu pai e acólitos, ganharam um bom tema
para a campanha eleitoral, mas perderam a chance de mostrarem-se preparados
para a tarefa que ambicionam. Os poderes autoritários que o governo de Donald
Trump recebe da lei americana para punir autoridades de outros países de acordo
com seus pontos de vista são exorbitantes quando se pensa na soberania de cada
um.
O sequestro do ditador Nicolas Maduro na Venezuela é exemplar dessa possibilidade. Não importa que Maduro seja ditador, nem que seja um abusador dos direitos humanos. Nenhum país, incluindo os Estados Unidos, tem o direito de decidir terminar pela força um governo estrangeiro. Nem mesmo para teoricamente defender a democracia. Aprovar que uma lei dessas seja imposta ao Brasil a pedido de brasileiros é abrir mão da soberania nacional, ainda mais baseado em distorções mentirosas. O governo petista não tem nada a ver com as facções criminosas, e a inação é a mesma de outros governos, inclusive o de Bolsonaro, por motivos que nada têm de cumplicidade. Que os Poderes da República estão contaminados pela infiltração criminosa não há dúvidas. Inventar ligações criminosas para alimentar o embate político é se reduzir a um mero contraventor eleitoral.

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