Encíclica de Leão XIV sobre IA reflete realismo e sensatez
Por O Globo
Papa reconhece valor da nova tecnologia, mas
aponta os riscos intrínsecos a seu avanço
Leão XIV não é o primeiro papa a se preocupar com as transformações trazidas pela tecnologia à sociedade. A inspiração explícita de Magnifica Humanitas (Magnífica Humanidade), sua primeira encíclica publicada ontem, é Rerum Novarum (Sobre as coisas novas), em que Leão XIII — inspirador também do nome adotado pelo americano Robert Francis Prevost — discorria sobre o impacto das “coisas novas” oriundas da Revolução Industrial e, ao mesmo tempo que reconhecia o valor do avanço científico, rogava pela proteção daqueles cujo trabalho ou vida fossem afetados pelas transformações. É também esse o tom de Leão XIV na encíclica que dedicou à maior revolução tecnológica em curso: o advento da inteligência artificial (IA).
Matemático de formação, Prevost é um papa
cujo preparo científico o qualifica a entender com profundidade o universo
digital. Logo no início do papado, anunciou que daria atenção aos riscos das
novas tecnologias e já fez várias declarações sobre IA. Escolheu divulgar sua
encíclica ao lado de Christopher Olah, um dos fundadores da Anthropic, cujo
modelo Claude tem sido treinado com base na preocupação com a “moralidade” das
decisões tomadas pelos algoritmos — a Anthropic enfrentou o Pentágono ao negar
o uso de seus sistemas em armas autônomas.
Os princípios defendidos em Magnifica
Humanitas refletem realismo e sensatez. De um lado, Leão XIV reconhece que a
tecnologia não pode, em si, ser considerada uma “força antagônica” ao ser humano
e enxerga múltiplos benefícios em seu uso. De outro, chama a atenção para os
riscos que lhe são intrínsecos. “Não significa renunciar à tecnologia, mas
impedir que ela domine o ser humano”, escreve. “Significa retirá-la dos
monopólios, torná-la discutível, contestável e, portanto, habitável,
devolvendo-a à pluralidade das culturas humanas e das formas de vida.”
Ele defende a regulação das gigantes digitais
que desenvolvem a IA e o treinamento da força de trabalho cujos empregos forem
ameaçados. “É desejável que a tecnologia alivie o homem de trabalhos
particularmente pesados, repetitivos ou perigosos e ofereça um apoio
inteligente à atividade humana; porém o princípio geral deve continuar a ser a
proteção dos postos de trabalho e do papel insubstituível da pessoa”, diz em
seu texto. “A ordem econômica deve manter-se subordinada à sua dignidade e ao
bem comum.”
O papa também recomenda a proteção de
crianças e adolescentes e afirma que a educação é primordial para usar as
inovações. “Educar para o uso da IA implica educar para decidir quando e em que
situações não a utilizar”, afirma. Ele exige que máquinas não tenham como tomar
decisões autônomas no “âmbito bélico”: “A decisão de recorrer à força letal não
pode ser delegada em processos pouco transparentes ou automatizados, mas deve
permanecer sob um controle humano efetivo, consciente e responsável”.
Por fim, Leão XIV faz uma exortação enfática
por salvaguardas éticas. “A inovação tecnológica pode ser, em certo sentido,
uma forma humana de participar no ato divino da criação”, diz. “Programadores
assumem um particular peso ético e espiritual (...). Tal como o autor de uma
obra artística ou literária é responsável por ponderar os valores que ela
expressa, também eles são chamados a tratar com a devida seriedade os valores
que infundem.” O recado papal deveria ser ouvido não só por católicos, mas por
todos.
Situação financeira crítica da Cedae expõe
desmandos crônicos das estatais
Por O Globo
Auditoria revelou R$ 1 bilhão gastos sem
licitação e R$ 200 milhões investidos em papéis do Banco Master
A Companhia Estadual de Água e Esgotos (Cedae)
atendia 64 municípios do Rio de Janeiro antes da privatização de sua extensa
área de saneamento. Depois da bem-sucedida venda, que tem atraído investimentos
necessários ao setor em todo o estado, ela continuou responsável pela captação
e fornecimento de água tratada às concessionárias privadas. Persistiram,
contudo, os problemas financeiros, como revela a auditoria encomendada pelo
novo presidente da empresa, o procurador do estado Rafael Rolim, nomeado pelo
governador em exercício, Ricardo Couto.
De acordo com
reportagem do GLOBO, estão sob inspeção os contratos assinados
nos 12 meses anteriores à posse, em 16 de abril. Desses contratos, os 230 com
valor acima de R$ 1 milhão foram enviados à Controladoria Geral do Estado
(CGE). Outros 150, envolvendo somas menores, estão sob inspeção na própria
Cedae. A auditoria já descobriu gastos de R$ 1 bilhão acertados sem licitação,
com pregões e atas de registro de preços para compras feitos fora da empresa.
Ao redor de R$ 2,2 bilhões foram aplicados no mercado financeiro, entre eles R$
200 milhões no insolvente Banco Master. A Cedae flexibilizou as regras de
investimentos antes de comprar títulos do Master em 2023.
A situação é ainda mais crítica porque, em
razão de falhas flagrantes cometidas no edital de venda da área de saneamento —
diversas informações sobre a cobertura dos serviços nos municípios fluminenses
estavam incorretas —, a Cedae se viu forçada a reduzir em 24% o preço da água
cobrado da concessionária privada Águas do Rio, por meio de um termo de
conciliação. Com isso, a estimativa de prejuízo para 2027 está em R$ 387
milhões. A nova gestão determinou corte de 25% no orçamento de obras e serviços,
além de redução de R$ 5 milhões anuais em gastos com funcionários comissionados
e terceirizados.
Em reunião com os funcionários, Rolim
garantiu que as diretorias foram despolitizadas e que doravante a gestão será
técnica. “Não quero perseguir ninguém. Quem fez, fez, daqui para a frente não
faz mais. Se envolvam na companhia”, disse à equipe. A nova diretoria tem razão
em examinar de perto os contratos da Cedae fechados nas administrações
anteriores. Mas, se a auditoria revelar irregularidades ou infrações, não pode
ser leniente com os envolvidos.
A Cedae foi durante muito tempo um trunfo político a serviço do governador. As perdas na rede de abastecimento oscilavam entre 38% e 40%, ante taxas abaixo de 10% nos países avançados. Se houvesse administrações comprometidas com a busca por eficiência, isso não teria ocorrido. Os desmandos na Cedae reforçam o acerto do Marco Legal do Saneamento, criado para garantir a universalização dos serviços de água e esgoto por meio de investimentos privados e regulação robusta do Estado. A situação crítica da empresa revela um tipo de gestão que só acontece em estatais, vulneráveis a interesses políticos.
Redução da fila joga luz sobre alta do gasto
do INSS
Por Folha de S. Paulo
Despesas previdenciárias levam governo Lula a
cortar R$ 22,1 bi em custeio da máquina e investimento
Gastos do instituto com aposentadorias e
pensões devem saltar de 8,1% para 9,1% do PIB até 2030; tal cenário demanda
reformas e ajustes
Adepto da expansão contínua de gastos
públicos, o governo Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
se viu forçado a anunciar, na semana passada, um bloqueio
de R$ 22,1 bilhões no Orçamento deste ano eleitoral.
De todo modo, o motivo está relacionado à
disputa presidencial: uma súbita, mas não inesperada, revisão para cima nas
projeções de despesas obrigatórias com benefícios previdenciários, de R$
11,5 bilhões, e com o Benefício de Prestação Continuada (BPC), de R$
14,1 bilhões.
É o preço de acelerar a concessão de
benefícios para reduzir a fila de pendências no Instituto Nacional do Seguro
Social (INSS),
promessa eleitoral de Lula. O que deveria ser rotina de gestão se tornou, mais
uma vez, peça de campanha.
Para compensar o gasto adicional não orçado e
cumprir os limites fiscais, o bloqueio anunciado recairá sobre as chamadas
despesas discricionárias —custeio da máquina, investimentos e parte das emendas
parlamentares.
Segundo as novas projeções oficiais para o
ano, o governo terá déficit primário (sem contar pagamentos de juros) de R$
60,3 bilhões. Com as múltiplas exceções criadas pela administração petista na
apuração do saldo, o resultado será um superávit de R$ 4,1 bilhões, ainda muito
abaixo da meta de R$ 34,3 bilhões.
A redução da fila do INSS foi negligenciada
nos três primeiros anos de mandato. Depois de um recorde de 3,1 milhões de requerimentos
em fevereiro, o número caiu para 2,3 milhões em maio. Houve uma redução de 8%
em apenas 15 dias, segundo o Ministério da Previdência.
A ineficiência do INSS é crônica. Em outubro
de 2025, quase metade dos 18,8 mil servidores (46%) ainda trabalhava em regime
remoto integral ou parcial. Agências operavam com 70% dos postos fechados ao
público.
A infraestrutura física também está sucateada
por falta de verbas, o que talvez impeça, de acordo com o próprio instituto, o
necessário retorno de maior contingente ao trabalho presencial. Casos urgentes
não são priorizados por falta de tecnologia e gestão, gerando sofrimento e
judicialização desnecessária.
É inevitável constatar que, em quatro anos de
mandato, o governo Lula não investiu seriamente em modernização e cruzamento de
dados para distinguir fraudes de demandas reais. Os improvisos eleitoreiros
revelam agora a extensão do descaso.
Expõem com mais clareza, ainda, a trajetória
alarmante de expansão de gastos com aposentadorias e BPC que, impulsionados
pela demografia, vão retirando espaço orçamentário de serviços e
investimentos públicos.
Nos cálculos da Instituição Fiscal
Independente (IFI, ligada ao Senado),
só os gastos previdenciários do INSS devem saltar do equivalente a 8,1% do
Produto Interno Bruto (PIB), no ano
passado, para 9,1% até 2030. Tal cenário demanda reformas e ajustes cujo debate
está sendo adiado, como de costume, para depois das eleições.
A expansão preocupante das escolas
cívico-militares
Por Folha de S. Paulo
Em julgamento no STF, relator decide pela
constitucionalidade do modelo, mas impõe regras necessárias
Avanço desde 2019 reflete gestão ideológica,
em vez de técnica, da educação; não há evidência de que a mera rigidez da
caserna eleve notas
É preocupante que avance no Brasil um modelo
educacional de viés ideológico que não contribui para a melhoria geral da
aprendizagem.
Segundo pesquisa realizada pela USP, o número
de escolas cívico-militares aumentou 495%
entre 2019 e 2026, passando de 265 a 1.578. Embora representem
apenas 1,5% das mais de 102 mil escolas do país, as unidades de ensino
militarizadas estão presentes em praticamente todos os estados —a única exceção
é Sergipe.
Bandeira bolsonarista, o modelo se espraia
tanto à direita —com 375 unidades no Paraná, pioneiro na implantação do
programa, e 111 em São Paulo—
quanto à esquerda —com 138 escolas no Maranhão e 131 na Bahia.
Hoje, 6,2% dos alunos de ensino fundamental e
4,1% do ensino médio estão sob esse modelo.
No Paraná, a lista de espera para vagas em unidades cívico-militares neste ano
já conta com mais de 20 mil alunos. A demanda revela a preocupação legítima dos
pais com segurança e disciplina.
Mas, no âmbito da aprendizagem, pesquisas
indicam que escolas que seguem o modelo tendem a apresentar melhores
indicadores porque selecionam o alunado e recebem mais verbas. Não há
evidências de que a mera rigidez da caserna eleve notas.
O debate está judicializado. Em 2024, o PSOL ajuizou
no Supremo Tribunal Federal (STF) uma ação
contra a lei paulista, sancionada por Tarcísio de
Freitas (Republicanos) no mesmo ano, que instituiu o programa
no estado.
O julgamento pela corte teve início na sexta
(22). O relator do caso, ministro Gilmar Mendes,
decidiu pela constitucionalidade
do modelo escolar, mas impôs regras, como proibir a exaltação de
símbolos e hinos militares e das forças de segurança.
Ademais, também definiu que normas escolares
sobre vestimenta e outros elementos estéticos dos estudantes devem respeitar a
diversidade religiosa e cultural brasileira —em fevereiro deste ano, a Justiça
paulista já havia exigido que o governo Tarcísio suspendesse regras
referentes a aparência, corte de cabelo e uniformes; no Paraná,
também houve decisão nesse sentido.
Tal disputa jurídica não ocorreria se os
governos buscassem melhorar a educação não
com ideologia retrógrada capaz de minar direitos do alunado, mas com uma gestão
técnica que direcione recursos de forma racional para capacitar professores e
fortalecer modelos que de fato dão resultados —como o de tempo integral aliado
ao ensino técnico.
Em regimes republicanos e democráticos, escola não é lugar para as Forças Armadas.
A inteligência artificial e a humanidade
Por O Estado de S. Paulo
Encíclica de Leão XIV aborda IA não como
ameaça apocalíptica, mas teste moral. O maior risco não é de máquinas que
pensem como humanos, mas que humanos pensem como máquinas
A humanidade voltou a construir torres para
conquistar o paraíso. Não de pedra, mas de dados, chips, modelos matemáticos e
plataformas capazes de escrever textos, reconhecer rostos, prever
comportamentos, moldar a atenção e influenciar decisões em escala planetária.
Em sua primeira encíclica, Magnifica
humanitas, Leão XIV adverte que a questão crucial da era da
inteligência artificial (IA) não está na potência dessas ferramentas, mas no
tipo de civilização que se organiza ao redor delas. Estamos diante da
alternativa entre “construir uma nova Torre de Babel” ou erguer uma comunidade
em que técnica e dignidade permaneçam reconciliadas.
Não há tecnofobia nem entusiasmo ingênuo.
Tecnologias não devem ser nem demonizadas nem idolatradas. O papa reconhece que
a IA pode ampliar capacidades humanas, reduzir sofrimento, acelerar descobertas
científicas, melhorar vidas. Mas adverte que a tecnologia não é neutra: “Toda
escolha de design reflete uma visão de humanidade”. Sistemas automatizados
embutem prioridades, incentivos, critérios de eficiência e concepções
implícitas sobre o que merece atenção, recompensa ou exclusão.
Esse ponto instala a discussão num terreno
mais fecundo do que as fantasias sobre robôs conscientes ou máquinas rebeldes.
A questão é antropológica. Uma civilização orientada pela lógica algorítmica
tende a reinterpretar a experiência humana segundo categorias de cálculo,
previsão e otimização. “Para um algoritmo, um erro é uma falha a ser corrigida;
para uma pessoa, porém, o erro pode ser catalisador de uma transformação
profunda.”
Algoritmos corrigem desvios para maximizar
resultados. Pessoas amadurecem por meio de limites, arrependimento, experiência
e responsabilidade. A inteligência artificial pode simular linguagem,
raciocínio e criatividade. Não possui consciência moral, vulnerabilidade ou
capacidade de sacrifício. Não há amor artificial. “Nenhum sistema computacional
pode criar um coração capaz de se entregar.” A observação pode soar teológica,
mas toca um nervo crucial numa cultura fascinada por transformar seres humanos
em projetos permanentemente aperfeiçoáveis.
Dados, infraestrutura computacional,
plataformas digitais e modelos de IA estão sob controle de um número reduzido
de governos e corporações. Quem controla esses sistemas influencia consumo,
reputação, trabalho e imaginação coletiva. A encíclica descreve esse
ecossistema como uma infraestrutura invisível, aparentemente neutra, mas
carregada de escolhas morais e políticas.
A Rerum
novarum (1891), de Leão XIII, surgiu quando a máquina ameaçava
reduzir trabalhadores a engrenagens descartáveis. A Revolução Industrial
reorganizou o trabalho. A revolução digital reorganiza percepção, julgamento,
linguagem e relações sociais. O risco não se limita à exploração econômica, mas
alcança a própria ideia de ser humano.
Plataformas digitais moldam a percepção
coletiva da realidade. “A verdade é um bem comum”, insiste o papa, num momento
em que sistemas generativos diluem a fronteira entre autêntico e sintético. No
mercado de trabalho, ganhos extraordinários de produtividade convivem com
formas silenciosas de precarização e fragmentação social. Na guerra, a
automação promete decisões mais rápidas e precisas enquanto aliena a
responsabilidade moral e reduz seres humanos a padrões estatísticos.
Nada disso leva o pontífice a defender freios
obscurantistas ao desenvolvimento tecnológico. A encíclica aponta noutra
direção: prudência institucional, transparência, responsabilidade e controle
democrático sobre sistemas capazes de alterar radicalmente a vida social.
Babel, afinal, nunca simbolizou excesso de
conhecimento, mas excesso de soberba. O risco maior da inteligência artificial
está menos em máquinas que se pareçam conosco, e mais numa sociedade que
enxergue a si mesma segundo a lógica das máquinas. Leão lembra que “um rosto
humano que pede para ser contemplado permanece no centro da nossa história”. A
advertência cristológica, lida em registro antropológico, é uma síntese
provocadora para um tempo fascinado por sistemas capazes de processar volumes
infinitos de informação e cada vez mais esquecido de contemplar aquilo que
continua irredutivelmente humano.
Havana no fio da navalha
Por O Estado de S. Paulo
O cerco ostensivo mostra que Washington busca
mais do que concessões pontuais, mas ainda não está claro se quer negociar uma
transição ou estrangular um regime decrépito
O indiciamento de Raúl Castro por um tribunal
federal americano, três décadas após o abate de aviões civis americanos,
dificilmente alterará o seu destino judicial. Aos 94 anos, protegido por um
regime fechado e cercado pelo aparato de segurança que ajudou a construir, é
improvável que o antigo ditador cubano acabe numa corte em Miami. Ainda assim,
a decisão não pode ser reduzida a um gesto simbólico ou uma reparação tardia.
Ela sugere que Washington passou a enxergar Cuba menos como um impasse
histórico a ser administrado e mais como um regime vulnerável, pressionável e
talvez transformável.
Essa mudança coincide com a crise mais aguda
vivida pela ilha desde o colapso soviético. Hospitais operam sob escassez
permanente. O transporte é errático. A dependência do petróleo venezuelano,
durante anos um dos pilares silenciosos da sobrevivência cubana, tornou-se um
passivo insustentável após a queda de Nicolás Maduro e o bloqueio promovido
pela Casa Branca. O país importa cerca de 80% de seus alimentos e enfrenta
dificuldade até para manter seu sistema elétrico – apagões de 20 horas são
rotina.
A fábula da revolução igualitária foi há
muito soterrada sob um sistema opaco, concentrado e predatório. O centro de
gravidade da economia já não está no Partido Comunista propriamente dito, mas
na Gaesa, conglomerado controlado pelas Forças Armadas que domina hotéis,
portos, remessas, varejo, construção civil e parte expressiva das divisas da
ilha. Enquanto a população convive com racionamentos e deterioração acelerada
dos serviços públicos, uma oligarquia político-militar preserva acesso a
dólares, importações e zonas protegidas da economia. Socialismo para o povo,
capitalismo de compadrio para a nomenklatura.
A estratégia americana parece desenhada para
atingir esse núcleo. As sanções recentes miram empresas ligadas à Gaesa. O
bloqueio energético busca aprofundar o desgaste interno. A ajuda humanitária
oferecida por Washington vem condicionada à distribuição pela Igreja Católica
ou organizações independentes, contornando o Estado. Ao mesmo tempo, o
secretário de Estado americano, Marco Rubio, filho de cubanos, dirige mensagens
à população, descrevendo o Politburo como uma oligarquia que sequestrou os
recursos nacionais. O tom é agressivo, mas coerente. Há uma tentativa de
separar regime e sociedade.
A tática integra uma doutrina geopolítica. O
governo Trump voltou a tratar o Caribe como área de interesse estratégico. A
presença chinesa e russa aparece com frequência crescente nos discursos de
Washington, assim como a preocupação com fluxos migratórios e instabilidade
regional. O indiciamento de Castro se encaixa nesse ambiente de pressão
hemisférica.
A comparação entre a Cuba castrista e a
Venezuela chavista é incontornável, mas encontra limites importantes. O regime
de Maduro convivia com facções rivais e estruturas paralelas de poder. Cuba
preserva uma cadeia de comando mais compacta, um sistema de vigilância social
muito mais antigo e uma dissidência esmigalhada por décadas de exílio,
repressão e exaustão social. Não há resquícios de instituições democráticas,
nem sequer um sucessor evidente, como Delcy Rodríguez em Caracas, capaz de
conduzir uma abertura negociada.
Pressionar regimes autoritários costuma ser
mais simples do que administrar sua ruína. A economia cubana se mostra cada vez
menos sustentável. A legitimidade revolucionária se desintegrou há muito tempo.
Mesmo assim, colapsos políticos raramente obedecem ao roteiro imaginado por
quem os acelera. Eles podem produzir endurecimento repressivo, convulsões
intestinas ou ondas migratórias difíceis de conter.
Durante décadas, Cuba permaneceu suspensa
numa espécie de congelamento histórico: pobre, isolada, autoritária e
surpreendentemente estável. Essa estabilidade foi devorada por dentro. A
“Revolução” é só uma fachada em ruínas para um extrativismo voraz e
autodestrutivo. Washington percebeu a fragilidade e decidiu testá-la. A longa
disputa com o regime comunista parece se encaminhar para uma rodada final. Se
Trump joga por uma transição negociada ou uma ruptura violenta, ninguém sabe –
talvez nem ele mesmo.
Prêmio aos golpistas
Por O Estado de S. Paulo
Intocável pela Receita, Trump anuncia fundo
que pode beneficiar vândalos do Capitólio
O governo dos EUA anunciou a criação de um
fundo de US$ 1,776 bilhão para compensar supostas vítimas de “perseguição
judicial” durante a gestão anterior, do democrata Joe Biden. Como tudo na
administração de Donald Trump, o valor do fundo tem função simbólica: trata-se
de uma alusão ao ano da Independência dos EUA, que completa 250 anos agora em
julho.
Abastecido com recursos do Tesouro, o fundo
pode resultar na transferência de recursos do contribuinte americano para
aliados e apoiadores de Trump. Vândalos que depredaram o Capitólio no fatídico
6 de Janeiro estão entre os potenciais beneficiados pelo chamado Anti-Weaponization Fund.
Paralelamente, o Departamento de Justiça
anunciou, de forma discreta (ou envergonhada), um acordo segundo o qual a
Receita Federal dos EUA (IRS, na sigla em inglês) fica impedida “para sempre”
de prosseguir com ações fiscais contra o presidente, sua família ou suas
empresas. Trump pleiteava uma indenização de US$ 10 bilhões do IRS por suposto
vazamento de informações.
É bastante provável que as duas medidas
prejudiquem ainda mais a popularidade do republicano, que já se encontra no
nível mais baixo de seus dois mandatos – apenas 37% dos americanos aprovam a
gestão do republicano, segundo pesquisa do The New York Times/Siena.
A popularidade baixa limita as chances dos
republicanos de manterem o controle da Câmara e do Senado nas eleições de meio
de mandato, agendadas para novembro.
Não que Trump pareça se importar com isso.
Ele acaba de dinamitar mais uma candidatura de um republicano que ousou
discordar dele. Contrário às ações militares dos EUA na Venezuela e no Irã, o
deputado pelo Kentucky Thomas Massie perdeu para o colega de partido Ed
Gallrein a primária republicana para disputar a eleição de novembro. Gallrein
recebeu endosso e apoio publicitário milionário de Trump, enquanto Massie, que
também desagradou ao presidente por pressionar pela divulgação de arquivos
relacionados a Jeffrey Epstein, foi taxado de “desleal”, “canalha” e “idiota”.
Não é de hoje que Trump humilha o próprio
partido. Para o presidente, só é republicano digno do nome quem o apoia
incondicionalmente. Trump esmaga qualquer um que ouse questioná-lo, mesmo que
totalmente embasado na Constituição ou na racionalidade.
Quem se alinha incondicionalmente ao
presidente também alinha-se a uma gestão que desagrada ao eleitor americano por
ações como a guerra no Irã, que tem pesado cada vez mais no bolso do cidadão
médio. Já quem contesta o presidente perde chance até de concorrer nas eleições
parlamentares.
Desmoralizada pelas ações erráticas de Trump, a quem os republicanos definitivamente não conseguem controlar, a direita americana no momento parece contar com um único trunfo: a miséria do lado democrata, que até agora limitou-se a se apresentar como a antítese de Trump, sem propor aos eleitores uma visão que vá além desse embate. O resultado, por ora, é a apatia.
Inadimplência e crédito não-bancário
preocupam BC
Por Valor Econômico
O avanço rápido do crédito não-bancário pode vir a representar um risco financeiro
A liquidação do conglomerado Master trouxe
pouca preocupação para as instituições financeiras, que voltaram sua atenção
para o aumento generalizado da inadimplência. Apesar de o império de Daniel
Vorcaro ter custado R$ 40,4 bilhões ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que
ressarce investidores até R$ 250 mil, ele não trouxe risco sistêmico. A
inadimplência é a maior ameaça presente ao sistema, sobre a qual os bancos têm
se desincumbido bem, sem perda de rentabilidade e com provisões suficientes.
Mas, segundo o Relatório de Estabilidade Financeira do Banco Central, “a
capacidade de pagamento das empresas e das famílias segue desafiadora”.
O relatório cobre todo o ano de 2025 com uma
pesquisa junto a bancos feita em fevereiro, e indica alguns padrões previsíveis
de comportamento. O mais importante deles é que as instituições financeiras
apertarão as condições de crédito tanto para famílias quanto para empresas, em
especial as grandes. A performance dos dois segmentos, porém, é diferente. Já
havia uma mudança no uso do crédito ao consumidor, das modalidades mais caras
para as de menor custo, em especial os contraídos em cartões de crédito e no
crédito não consignado, que tinha crescido velozmente.
É na categoria do não-consignado em que há
maior concentração de ativos problemáticos, com pagamentos em atraso, com 13%
do total sob observação, acima já dos empréstimos com cartão de crédito (11%).
Pelos cálculos do BC, a probabilidade maior de default (calote) recai sobre 10%
dos empréstimos da modalidade.
O crédito para empresas diminuiu para todos
os portes. Para o BC, “o aperto monetário não afetou de forma relevante a
capacidade de pagamento das empresas da maioria dos setores”. Mesmo com
condições financeiras mais restritivas, a capacidade de pagamento (dívida/ebitda)
e o Índice de Cobertura de Juros (receitas para pagar dívida financeira) foram
mantidas em “níveis adequados”, segundo o relatório.
Não se trata, no entanto, de uma situação
confortável. O risco de calote do estoque de débitos das microempresas é de
24%, o das empresas pequenas, de 19%, o das médias, de 13%, e o das grandes, de
3,9%. A concessão de crédito a pequenas empresas fugiu ao padrão e cresceu
muito porque elas tiveram acesso a programas de incentivos ao crédito, como o
Programa Emergencial de Acesso ao Crédito, que passou a servir de canal para
financiamento de empresas atingidas então pelo tarifaço de Donald Trump e,
agora, também a companhias com exportações afetadas pelo conflito no Irã.
Um elemento de atenção presente no relatório
é o crescimento do mercado de capitais na oferta de crédito, que se expandiu
muitas vezes mais que o próprio crédito bancário. Aumentou a emissão de
debêntures, notas comerciais, cédulas de produto rural e outros, dinheiro que
desagua em fundos de investimentos, que por sua vez investem em cotas de outros
fundos, em um cipoal de relações cuja transparência nem sempre é grande e que
geralmente estão a cargo da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Sem relacionar o diagnóstico ao que ocorreu
ao Banco Master, o relatório expõe claramente as brechas pelas quais dinheiro
sujo se infiltrou no sistema financeiro e como é difícil o que parece simples:
identificar os donos do dinheiro. “Ativos ambientais, créditos litigiosos,
precatórios e recebíveis de crédito com falhas no processo de originação,
investimentos no exterior, em empresas de capital fechado e em projetos
imobiliários, dentre outros, podem estar presentes na carteira de fundos,
especialmente os estruturados”, aponta o BC. “A baixa liquidez e a limitação de
informações completas e confiáveis sobre a real qualidade, exposição e
recuperabilidade desses ativos adicionam incerteza a sua avaliação. A
complexidade intensifica-se quando outros veículos - como fundos de cotas ou
multimercados - adquirem cotas desses fundos, criando camadas adicionais de
opacidade e dificultando a avaliação agregada de riscos”.
Não é pouco dinheiro a rastrear: R$ 2
trilhões em dezembro de 2025. No caso de fundos que investem em cotas de outros
fundos, eles representavam 29% do total e apenas 1% dos ativos do sistema
financeiro global, mas 14% do dinheiro aplicado no mundo todo nesse tipo de
veículo.
A regulação precisa ser aperfeiçoada e
caminhos a futuros casos Vorcaro, barrados. Cotas de fundos offshore,
investimentos alavancados e risco de crédito de contrapartes não são
identificadas. Mesmo que as regras exijam informações da base de cotistas, diz
o relatório, o beneficiário final das cotas associadas a cerca de 10% do
patrimônio líquido não é identificado, pois se trata de cotas detidas por
investidores não residentes ou por sociedades cujo conhecimento dos
proprietários é de caráter sigiloso.
O avanço rápido do crédito não-bancário pode vir a representar um risco financeiro. Mas o que o caso Master mostrou é que há nele brechas legais pelas quais se insinuam contraventores de toda ordem. Esse é mais um motivo para que o BC redobre vigilância e laços com a CVM e que esta seja enfim sustentada com recursos compatíveis com o tamanho gigantesco de suas tarefas.
Atenção aos professores precisa começar na
formação
Por Correio Braziliense
Tão importante quanto manter os professores
nas salas de aula é fazer com que quem chegue a elas esteja, de fato, preparado
para tamanha responsabilidade
Os resultados do Exame Nacional de Desempenho
dos Estudantes (Enade) das Licenciaturas, divulgados pelo Ministério da
Educação (MEC) no último dia 20, são prova inconteste de que os avanços na
educação brasileira exigem uma atenção ao corpo docente que não se limita às
condições de trabalho. É consenso que a carreira de professor precisa ser
atrativa, mas há de se reforçar mecanismos que melhorem a qualidade da formação
de quem se envereda por ela.
O Enade avalia as graduações com base no
desempenho dos alunos concluintes. A versão mais recente das licenciaturas
considerou 4.948 cursos — responsáveis pela formação de pouco mais de 293 mil
profissionais para atuar na linha de frente da educação brasileira. Dessas, 35%
foram reprovadas — não conseguiram ter mais de 60% dos estudantes com a
proficiência considerada básica.
Um olhar mais apurado nos números deixa a
situação ainda mais preocupante. Considerando apenas as licenciaturas na
modalidade de educação a distância (EAD), mais da metade, 52%, é enquadrada na
lista de desempenho insuficiente. No caso dos cursos presenciais, o número cai
para 29%. E a formação que se dá nos chamados ambientes virtuais de
aprendizagem impera entre os avaliados: 194.433 — quase sete em cada 10 —
concluíram a graduação nesse formato.
A possibilidade de ampliar o acesso ao ensino
superior é apontada como um dos principais benefícios do avanço da EAD no país.
Educação que restringe é, de fato, um contrassenso. Mas não se pode cair na
armadilha do mais por menos, do diploma de graduação a qualquer custo.
Um dos riscos é de que esses licenciados sequer
consigam entrar em sala de aula — balizados, por exemplo, nos processos
seletivos. Outro é de que sigam carreira, despertando preocupação quanto à
qualidade dos serviços prestados, como se deu recentemente diante do alto
índice de reprovados nos cursos de medicina.
Na ocasião, também foram levantadas questões
acerca da defasagem nas graduações, dos riscos do crescimento desenfreado de
cursos e do destino dos milhares de alunos com baixo desempenho no exame,
considerando o alto investimento na formação médica e a segurança dos
pacientes. As inquietações servem também para os futuros professores.
Cursos com as notas 1 e 2 no Enade podem
sofrer ações de regulação por parte do MEC — entre elas, a suspensão de novas
vagas ou matrículas. No caso das licenciaturas, existe um processo de
reformulação em curso há um ano, incluindo a extinção de todas as formações EAD
até maio de 2027 e a migração dos cursos dessa modalidade para a
semipresencialidade ou presencialidade. Ainda assim, o boletim da semana passada
evidencia um contingente de recém-formados com o diploma para docência e a
necessidade de aprimorar o currículo.
Virar as costas para esses milhares de iniciantes é uma decisão delicada, sobretudo em um momento de baixo interesse pela profissão. A porta de entrada desses professores é a educação básica, onde se dá o desenvolvimento integral de crianças e adolescentes e se pode iniciar a ruptura dos ciclos de desigualdade. Tão importante quanto mantê-los nas salas de aula, é fazer com que quem chegue a elas esteja, de fato, preparado para tamanha responsabilidade
Por mais 24 horas sem homicídios no Ceará
Por O Povo (CE)
Durante as 24 horas que transcorreram ao
longo do último dia 22, sexta-feira passada, não houve registro de um só
homicídio em todo o Ceará. Situação raríssima e que precisa de uma profunda
reflexão de todos nós para entender como tornou-se possível e as condições, se
existentes, para essa realidade ideal entrar numa certa rotina. Claro que, à
primeira vista e sendo consciente, diante de um cenário ainda muito crítico e
preocupante que prevalece, não parece ser o mais normal de se esperar.
O que está demonstrado, porém, é que podemos
ter como possível um quadro com predominância de menos violência e de menos
mortes. Cabe ao governo da vez, muito justificadamente pressionado pelo tema da
segurança pública, absorver o episódio com a força do exemplo que apresenta
para mergulhar com profundidade nas análises e buscar entender as
circunstâncias que permitiram o resultado extraordinário e, como política de
Estado, consolidar as ações que podem ter sido responsáveis por ele.
Espere-se deste governo, e a cobrança deve
ser firme nesse sentido, que não se limite a transformar o resultado em produto
de marketing e propaganda, útil para uma campanha eleitoral que se avizinha.
Sua preocupação principal, é preciso insistir, deve ser com a melhor interpretação
dos dados disponíveis e o entendimento do que precisa ser feito, reproduzindo
as boas causas que levaram àquele resultado, para que mortes sigam sendo
evitadas e vidas continuem sendo protegidas. Tudo com o sentido de conter as
estatísticas macabras que o Ceará tem, de maneira insistente, produzido nos
últimos anos.
É inevitável que o tema da segurança pública
seja explorado na campanha eleitoral que se aproxima, em especial pelas forças
de oposição. Interessa à própria população que os erros e problemas da
atualidade sejam colocados sob análise e submetidos a uma visão crítica,
considerando um grupo que dita a política no Estado desde 1º de janeiro de
2027, pelo menos. Da mesma forma que o ambiente eleitoral permitirá àqueles que
nos governam apresentar suas razões para o que fizeram ou deixaram de fazer e
que determinam a realidade dramática que temos hoje, nem sempre derivadas
apenas de uma ineficiência específica na área.
Há razões, por exemplo, determinadas por aspectos econômicos, em que a pobreza não recua, ou por uma realidade marcada por profundas desigualdades sociais, fatores que geram violência e alimentam as estatísticas. No momento, a despeito dos interesses e estratégias eleitorais, o importante é olharmos para o que aconteceu na última sexta, e que já fora observada em 31 de março neste ano de 2026, demonstrando ser possível reverter um quadro que nos deve preocupar e envergonhar numa mesma dimensão.

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