O Globo
Quando você olha o quadro de votações dessas
medidas indecentes, esquerda, direita e centro estão de mãos dadas
Chego a Brasília, e o carro desliza por
longas avenidas vazias de gente. Fiz esse trajeto durante 16 anos. Ele termina
num lugar onde os hotéis estão próximos uns dos outros. De seu quarto de hotel,
você parte para o Congresso, um imenso ringue onde se ataca, se defende, às
vezes se insulta e se é insultado, tomando rios de café em copinhos de
plástico. Volta para o hotel sem saber direito o que produziu. Toma uma sopa.
Amanhã recomeça.
Essas lembranças me ocupavam no caminho até que encontrei uma amiga, jornalista, com décadas de experiência em Brasília. Perguntei se estava tudo bem, e ela me respondeu: parece que vivo noutro planeta. Fiquei preocupado, pois, quando uma antiga moradora de Brasília se sente noutro planeta, o homem comum deve se sentir noutra galáxia.
Mais uma vez, os deputados aprontaram.
Resolveram neutralizar a fiscalização do desmatamento por satélite. Ela é
efetiva em 90% do território amazônico. Não se pode multar ninguém nem embargar
nada baseado apenas nos dados de satélite. É preciso encontrar o dono das
terras e notificá-lo. Isso significa que terá tempo para concluir o
desmatamento ou fugir, se for o caso.
As maiores barbaridades estavam reservadas
para as questões partidárias e eleitorais. Para começar, a proibição de gastar
dinheiro nos períodos eleitorais caiu. Agora é possível doar bens, valores ou
benefícios para turbinar campanhas. A semana foi chamada também de “liberou
geral”. A minirreforma eleitoral praticamente blindou os partidos políticos em
suas falcatruas. A multa máxima que podem pagar será de R$30 mil, eles que
movimentam bilhões do fundo partidário. Ainda assim, poderão pagar a multa com
o mesmo dinheiro público que malbarataram. Partidos endividados, ao se fundirem
com outros, terão as dívidas perdoadas. Agora é possível o disparo maciço de
propaganda pela internet, mesmo sem consentimento do eleitor.
Tudo isso divulgado pela imprensa me trouxe
uma preocupação ao falar do assunto. Minha pergunta é esta: eles fazem
barbaridades, nós protestamos, e a vida segue na mesma. Como se as barbaridades
e nossos protestos fizessem parte do mesmo sistema, uns legitimando as outras.
Há alguma esperança? Honestamente, é preciso
admitir que a sociedade terá de subir uma montanha para se liberar dessa gente
que se move unicamente no sentido de se perpetuar no poder. Tudo é feito para
que possam usar mais dinheiro e ganhar todas as eleições, deixando espaço
mínimo para a renovação. É preciso renovação de qualidade, pois, quando você
olha o quadro de votações dessas medidas indecentes, esquerda, direita e centro
estão unidos, de mãos dadas.
Quando deixei Brasília, no fim de semana, o
aeroporto estava cheio. Uma pequena multidão nervosa parecia, como eu, buscar
uma pausa desse espaço asfixiante. A funcionária diante dos detectores de metal
gritava: “Quem tem marca-passo, por aqui, por aqui”. Em poucos minutos, com ou
sem marca-passo, estávamos nos ares, pensando no fim de semana, almoços, jogão
no Maracanã, todas essas pequenas alegrias da enorme prisão em que vivemos,
dominados por aquela gente a fazer o que quer de nossas leis, imersos num mundo
revelado pelo escândalo do Master. Não sou mais menino. Sei o preço da revolta.
Mas pagamos um preço enorme ao nos acomodarmos. Onde está o caminho?

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