Crime Organizado e a Política no Brasil
Por Revista Será?
Quando se fala em crime organizado, a
primeira imagem costuma estar associada aos dois poderosos grupos criminosos —
o PCC e o Comando Vermelho — que controlam cerca de 20% do território nacional,
como quase Estados paralelos tomados do Estado brasileiro. Esta é a face mais
visível do crime organizado no Brasil, marcada pela escala da violência e pelo
domínio territorial.
Mas o Estado brasileiro está contaminado por dentro por diversos grupos criminosos que nem sempre precisam de armas, combinando corrupção, fraudes, troca de favores, lavagem de dinheiro, coerção, extorsão e ameaças. A atuação desses grupos penetra em praticamente todas as instituições da República — na política, no Judiciário e no sistema financeiro — irradiando poder e influência nos núcleos duros do Estado brasileiro.
Para dominar territórios, esses grupos
precisam de um exército. Para corroer o Estado por dentro, os meios são outros,
mais refinados, quase sempre envolvendo corrupção em larga escala, movimentação
financeira sofisticada e, quando necessário, intimidação e ameaças.
Na verdade, é cada vez menor a diferença
entre os dois tipos de organizações criminosas — PCC e Comando Vermelho, de um
lado, e criminosos de “colarinho branco”, de outro —, assim como se tornam mais
evidentes as formas de cooperação entre eles. O PCC e o Comando Vermelho também
estão infiltrados nas instituições brasileiras, apoiando e elegendo políticos,
investindo em negócios formais para dar aparência de legalidade às suas
operações e utilizando o sistema financeiro em sofisticados esquemas de lavagem
de dinheiro. Da mesma forma, o grupo criminoso de Vorcaro contava com uma
espécie de milícia privada capaz de “quebrar os dentes” daqueles que tentassem
impedir suas operações, além de um “núcleo de serviço sujo” destinado a coagir
testemunhas, jornalistas e intimidar funcionários.
O escândalo do Banco Master é emblemático
pela amplitude de sua atuação criminosa, pela presença e pela cooptação de
figuras destacadas das instituições da República. Além das suspeitas de fraude
financeira, corrupção, desvio e lavagem de dinheiro, as evidências indicam que
Vorcaro teria corrompido funcionários do Banco Central, montado uma rede de
operadores a serviço de suas atividades criminosas e contado com o apoio de
políticos influentes no Congresso e em alguns estados da Federação, alcançando
até mesmo integrantes do Supremo Tribunal Federal.
De forma crescente, o crime organizado
penetra e impacta a política brasileira. Quase ao mesmo tempo em que o governo
federal anunciava, com estardalhaço, mais um plano de enfrentamento ao crime
organizado — voltado aos grupos armados que controlam territórios —, a Polícia
Federal descobria conversas de Vorcaro indicando que o banqueiro concedia uma
milionária mesada ao senador Ciro Nogueira, um dos principais líderes do
Centrão.
Pouco depois, o Intercept divulgou uma
mensagem em vídeo do senador Flávio Bolsonaro, candidato do bolsonarismo à
Presidência da República, pedindo dinheiro ao banqueiro, supostamente para
financiar a produção de um filme sobre seu pai.
É lícito duvidar da eficácia do plano de enfrentamento ao crime organizado, sobretudo no restante do atual mandato presidencial. Entretanto, a revelação da mensagem de Flávio Bolsonaro pedindo recursos ao banqueiro mafioso já provoca um terremoto político no bolsonarismo, com possíveis impactos relevantes nas eleições de outubro. De imediato, o episódio favorece a reeleição do presidente Lula da Silva. Ao mesmo tempo, pode estimular um descolamento da direita civilizada em relação à liderança da extrema direita bolsonarista.
Bondades eleitoreiras terão custo alto
Por O Globo
Lula não demonstra limite ao adotar medidas
de apelo popular sem se preocupar com o impacto fiscal
Em busca da reeleição, o presidente Luiz
Inácio Lula da
Silva tem sido pródigo no anúncio de medidas de forte apelo popular sem se
preocupar com o custo para os cofres públicos. Subvenções e desonerações para
conter a alta dos combustíveis,
crédito subsidiado, ampliação de programa habitacional, renegociação de
dívidas. Vale qualquer ideia na tentativa de seduzir o eleitor, mesmo que não
faça sentido econômico. E o período de “bondades eleitorais” parece longe do
fim. O plano mais recente da equipe econômica é uma linha de crédito destinada
a financiar carros para motoristas de aplicativo e taxistas. Muitas dessas
medidas passam ao largo das metas fiscais. E todas têm impacto negativo na
dívida pública. Quem quer que vença a eleição, será alta a conta da busca
desenfreada de Lula por votos.
A guerra no Oriente Médio tem sido usada como
pretexto para um amplo leque de medidas eleitoreiras. Em março, o governo
eliminou impostos federais sobre importação e venda de diesel. Em abril, novo
pacote, com subvenção a diesel e gás de cozinha, isenção de impostos federais
sobre biodiesel e querosene de aviação e crédito para empresas aéreas. Na
semana passada, a gasolina recebeu subsídio de até R$ 0,89 por litro. Por
beneficiar pobres e ricos de forma indiscriminada, o subsídio é injusto. O
certo seria ajudar quem não consegue absorver a alta de preços e deixar que o
valor da gasolina incentive mais gente a consumir menos, até que o mercado de
petróleo se estabilize em patamar mais baixo.
Não satisfeito em anunciar subsídios e
desonerações, o governo ainda tenta driblar a Lei de Responsabilidade Fiscal,
que prevê corte de despesas ou aumento de impostos para compensar qualquer
desequilíbrio orçamentário gerado por novos gastos. Com sua visão fiscalmente
míope, o Planalto quer usar a receita extra obtida pelo país com a venda de
petróleo mais caro para fechar a conta. Ora, esse dinheiro inesperado deveria
ser usado para abater a dívida pública, reduzindo a conta que todos os
brasileiros terão de pagar no futuro próximo.
Pela lógica do governo, o público-alvo das
medidas deve ser amplo, mas o foco prioritário são os eleitores de classe média
ou dos estratos sociais em que tem caído a popularidade de Lula. Um exemplo é o
reforço no programa de crédito habitacional Minha Casa, Minha Vida, permitindo
adesão de quem ganha até R$ 13 mil e aumento no teto de preço dos imóveis para
atender à classe média. Outro é o novo Desenrola, programa de renegociação de
dívidas anunciado no início do mês, beneficiando pessoas físicas, empresas de
pequeno porte, proprietários rurais e estudantes. Um terceiro exemplo é o fim
da “taxa das blusinhas”, imposto de 20% sobre produtos importados de até US$
50, que pune quem não viaja para o exterior. E vem aí o crédito sob medida para
motoristas de aplicativo e taxistas.
Ao abrir mão de receita sem buscar
contrapartida, o governo aumenta o desequilíbrio das contas públicas. Ao
oferecer crédito subsidiado, enfraquece a solvência do Estado. Com todas as
turbinas ligadas, a roda da economia gira em ritmo mais rápido, e o Banco
Central se vê forçado a manter os juros nas alturas por mais tempo para conter
a inflação.
O preço das bondades será, portanto, uma economia que cresce artificialmente,
com maior pressão inflacionária e juros mais altos. Eis o legado que Lula
deixará ao próximo governo.
Infiltração do crime organizado na economia
formal é preocupante
Por O Globo
Em mais de 40% dos municípios fluminenses,
organizações criminosas exploram serviços de internet
Depois de ocupado o território, vem o domínio
econômico. É assim que o crime organizado se fortalece. O faturamento com o
tráfico já foi ultrapassado pela receita obtida com outros negócios, e a lista
de serviços controlados pela criminalidade não se resume mais a botijão de gás,
gelo ou carvão. Um dos que mais crescem é a venda de acesso a sinal de
internet. Facções criminosas e milícias têm ampliado sua atuação no ramo,
impondo taxas a quem fornece o serviço legalmente ou o explorando diretamente.
Isso ocorre em 37 dos 92 municípios do Rio de Janeiro,
como revelou levantamento
do GLOBO.
Só na Região Metropolitana, há mais de cem
pontos de fornecimento de internet controlados por tráfico ou milícia, segundo
a Secretaria de Segurança. Provedor que não colabora sofre represália. Cabos
são cortados, instalações danificadas e veículos incendiados. A área de atuação
desses grupos é extensa. Além de bairros cariocas, há registros de casos em
Angra dos Reis, Niterói, São Gonçalo, Macaé e Duque de Caxias.
A partir de 2022, o crime organizado passou a
movimentar por ano quase R$ 150 bilhões apenas nos mercados de ouro, bebidas,
combustíveis e lubrificantes, tabaco e cigarros, segundo estudo do Fórum
Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Os crimes no mundo digital,
impulsionados por roubo e furto de celulares, geraram receita de R$ 186 bilhões
de julho de 2023 a julho de 2024. São cifras muito superiores aos R$ 15 bilhões
anuais que, de acordo com a pesquisa, as facções arrecadaram com o
narcotráfico. Sem considerar o faturamento com drogas, as organizações
criminosas já movimentam um volume de recursos comparável ao de grandes
conglomerados financeiros.
O PCC parece ser a quadrilha mais avançada na
infiltração da economia formal. A Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto
passado, expôs o grau de sofisticação dos bandidos. Revelou que um braço do PCC
operava na importação de derivados de petróleo e insumos destinados à indústria
química, mobilizando grande estrutura de transporte para fornecer combustíveis
a uma rede própria com mil postos. Metanol importado era usado para adulterar o
etanol vendido neles. Bilhões lavados por meio de fundos de investimento
multimercado e fundos imobiliários financiavam a compra de usinas e permitiam
gastos com bens de consumo de luxo.
A expansão de facções como PCC e Comando Vermelho pela economia formal é um sinal de alerta. Todo esse cenário deve servir para apressar a integração das forças de segurança, única forma de o Estado enfrentá-las com eficácia. Quanto mais negócios dependerem do crime para operar, mais difícil se tornará combatê-las.
Benesses não alavancam aprovação a Lula
Por Folha de S. Paulo
Mesmo com maior isenção de IR outras medidas,
avaliação do presidente não se move, diz Datafolha
Dúvida imediata é impacto do caso Master sobre Flávio; competidores à direita tentarão capitalizar desgaste do pré-candidato do PL
A despeito de uma série de benesses
concedidas ao eleitorado, os fracos índices de aprovação a Luiz Inácio Lula da
Silva (PT) praticamente não se moveram, mostra a mais recente pesquisa do Datafolha.
Tampouco se alteraram de forma relevante as intenções de
voto que apontam para uma disputa presidencial acirrada.
Observe-se, porém, que os pesquisadores do
instituto foram às ruas na terça (12) e na quarta-feira (13) de uma semana de
fatos novos, capazes, ao menos em tese, de influenciar o cenário político.
De mais impactante, revelou-se na tarde de
quarta a intimidade
chocante entre Flávio Bolsonaro (PL), principal adversário de Lula na corrida
pelo Planalto, e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Além do mais, o Planalto anunciou mais
medidas eleitoreiras; outras há pouco entraram em vigor, como a renegociação de
dívidas do Desenrola 2. Foi decretado, na terça, o fim da chamada "taxa
das blusinhas". Na quarta, uma medida provisória criou subsídios para a
gasolina.
O governo petista apostou na ampliação da
faixa de isenção do Imposto de Renda, que entrou em vigor neste ano, e hoje faz
vasta propaganda do intento de reduzir a jornada de trabalho. Ainda assim,
foi avaliado como
ótimo ou bom por não mais de 30% dos entrevistados (ante 29% em abril) e como
ruim ou péssimo por 39% (40% em abril).
A redução do saldo negativo não passa, pois,
da margem de erro —e os números estão no vermelho desde fevereiro de 2024.
Hoje, dizem aprovar o trabalho do presidente 45% dos brasileiros aptos a votar,
enquanto 51% o reprovam. A insatisfação parece persistente, mesmo com melhoras
em emprego e salário.
Lula lida com consequências de seus erros,
como as pressões inflacionárias e os juros sufocantes decorrentes da expansão
desmesurada dos gastos públicos. O endividamento das famílias alcançou
patamares recordes, e o crescimento econômico é declinante.
A principal dúvida imediata quanto ao cenário
político e eleitoral, de todo modo, recai sobre a reação às notícias relativas
ao envolvimento de Flávio
Bolsonaro no escândalo do Banco Master.
Não é, cumpre notar, o primeiro caso rumoroso
relacionado ao filho do ex-presidente condenado por tentativa de golpe de
Estado. Apesar desse péssimo histórico, Flávio permanece empatado, com 45%, na
simulação de segundo turno contra Lula, que tem histórico de condenações por
corrupção anuladas pelo Supremo Tribunal Federal.
Demais competidores em potencial à direita,
como Ronaldo
Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo),
que hoje têm índices nanicos de intenção de voto no primeiro turno, decerto
tentarão capitalizar o desgaste do pré-candidato do PL para romper a
polarização entre PT e bolsonarismo que marcou as duas últimas corridas.
Caiado e Zema rondam os 40% no segundo turno,
indicando que o antilulismo, com qualquer nome, será uma das forças do pleito.
A tentação de prolongar os subsídios aos
combustíveis
Por Folha de S. Paulo
Lula lança nova subvenção com prazo inicial
de 2 meses; perspectiva para o fim da guerra no Irã é nebulosa
Medida prejudica necessária redução da
demanda; países em todo o mundo enfrentam o mesmo dilema e adotaram subsídios
ou teto de preços
O governo federal editou medida provisória
que institui subvenção à gasolina, mais uma entre várias iniciativas que
refletem preocupação com o impacto dos preços elevados de petróleo e
derivados no mercado internacional, em razão do conflito no Golfo Pérsico, na
popularidade presidencial.
A MP prevê subvenção de até R$ 0,89 por
litro, paga diretamente aos produtores e importadores com recursos do
Orçamento. O impacto fiscal estimado varia de R$ 1 bilhão a R$ 1,2 bilhão
mensais (ou R$ 2,4
bilhões, se adotada a alíquota máxima). A medida vale inicialmente
por dois meses, com reavaliação posterior.
A defasagem entre o preço praticado nas
refinarias da Petrobras e
a paridade de importação chega a R$ 2,03 por litro, o que pressiona a estatal a
fazer a correção, pois não pode continuar a subvencionar as cotações.
O governo resolveu agir diante do lento
avanço no Congresso do projeto de lei complementar que prevê isenção de
PIS/Cofins proporcional à arrecadação extraordinária gerada pela alta do
petróleo. Pressões do agronegócio para estipular o repasse obrigatório do
benefício ao consumidor final e para incluir pautas do setor dificultaram a
tramitação.
A Petrobras, por seu estatuto, está proibida
de subsidiar combustíveis. Daí a compensação do iminente reajuste interno com a
subvenção direta a distribuidoras e importadores, como foi feito no caso do
diesel, em abril.
Países em todo o mundo enfrentam o mesmo
dilema. Governos europeus, asiáticos e latino-americanos adotaram subsídios,
tetos de preços ou reduções temporárias de impostos para mitigar o choque
inflacionário.
No caso brasileiro, além de severas
restrições orçamentárias, a Lei de Responsabilidade Fiscal exige compensações
integrais para qualquer despesa nova.
A justificativa do Planalto é que a alta do
petróleo gera receita adicional em royalties e impostos sobre exportações,
criando margem de segurança.
Mesmo assim, o histórico do governo não
inspira confiança. A administração petista já subvencionou diesel e gás de
cozinha com o mesmo argumento de proteção ao consumidor. Agora repete a fórmula
com a gasolina. Ainda restam cinco meses até as eleições,
as perspectivas para o fim da guerra no Irã são
nebulosas e será grande a tentação de prolongar as benesses.
Medidas nessa direção precisam ser temporárias. Subsídios distorcem o mercado e prejudicam a redução necessária de demanda, além de fragilizar ainda mais a credibilidade fiscal.
O perfil que o STF exige
Por O Estado de S. Paulo
Rejeição da indicação de Messias ao STF dá a
chance de tornar a escolha dos ministros mais republicana: espera-se que os
próximos indicados sejam comprometidos só com a Constituição
A rejeição de Jorge Messias pelo Senado
produziu um fato raríssimo na história republicana brasileira: pela primeira
vez em mais de um século, um presidente da República foi impedido de
transformar automaticamente sua vontade pessoal em um ministro no Supremo
Tribunal Federal (STF). O episódio deveria servir para encerrar uma era de
complacência institucional, recolocando no centro do debate uma pergunta que há
muito deveria orientar as escolhas para a Corte: afinal, que perfil o País
espera de um ministro do STF?
Ora, é evidente que o próximo indicado
precisa reunir cinco características fundamentais: saber jurídico amplamente
reconhecido, independência em relação ao governo, discrição institucional,
respeito aos limites constitucionais da Corte e ausência de militância
político-partidária.
A sucessão aberta pela aposentadoria de Luís
Roberto Barroso deixou de ser só uma disputa em torno de nomes. Tornou-se uma
discussão sobre os critérios mínimos exigidos de alguém que ocupará uma cadeira
na mais alta corte da República pelas próximas décadas. Isso impõe ao
presidente Lula a obrigação de fazer uma escolha muito diferente da anterior.
A cadeira vaga no STF já produz efeitos
concretos. Como mostrou a Coluna
do Estadão, ao menos 14 julgamentos estão travados por empate no
plenário virtual da Corte, incluindo ações relevantes. Lula precisa indicar
rapidamente um novo nome. Mas a urgência institucional não pode servir de
pretexto para uma escolha orientada por conveniência política, proximidade
pessoal ou pressões identitárias.
Os atributos hoje exigidos de um ministro do
STF não são abstratos nem ornamentais. São precisamente aqueles cuja erosão
ajudou a produzir o desgaste institucional que hoje envolve a Corte.
Nos últimos anos, consolidou-se no STF uma
cultura de protagonismo incompatível com a sobriedade esperada de um tribunal
constitucional. Ministros passaram a atuar como comentaristas permanentes da
vida nacional, formuladores de agendas públicas, representantes informais de
grupos políticos ou personagens centrais de disputas que deveriam arbitrar com
distanciamento. Em vez de moderador dos conflitos institucionais, o Supremo
passou gradualmente a ser percebido como parte deles.
A indicação de Jorge Messias condensava praticamente
todos os vícios que passaram a contaminar o processo de escolha para o STF. Sua
principal credencial jamais foi uma autoridade jurídica amplamente reconhecida,
mas sua proximidade com Lula e sua fidelidade política ao PT. À frente da AGU,
associou seu nome a iniciativas de viés censor e a uma concepção expansiva do
papel do Estado sobre o debate público. Sua indicação representava menos um
esforço de requalificação institucional da Corte do que uma tentativa de
ampliar alinhamentos políticos dentro dela. O Senado fez bem ao rejeitá-lo.
Ainda que muitos parlamentares tenham agido
movidos por interesses comezinhos, a recusa estabeleceu um limite importante: o
Supremo não pode mais ser tratado como espaço automático de acomodação política
do governo de turno. Lula deveria compreender o alcance desse recado.
A prerrogativa presidencial de indicar
ministros do STF não existe para recompensar lealdades pessoais, acomodar
interesses circunstanciais ou produzir maiorias informais dentro do tribunal. A
deterioração desse rito ajuda a explicar por que o STF atravessa hoje um
processo de erosão de autoridade pública sem paralelo desde a redemocratização.
O próximo indicado precisa representar
justamente o movimento oposto. O País necessita de um jurista respeitado para
além das fronteiras ideológicas, alguém de autoridade intelectual inequívoca,
sem relação de dependência pessoal com o governo, avesso ao protagonismo
político e comprometido com a autocontenção judicial.
Há no Brasil nomes plenamente capazes de
preencher esses requisitos, inclusive mulheres de sólida trajetória jurídica e
reconhecida produção intelectual – perfis muito mais compatíveis com as
necessidades atuais da Corte do que vários personagens excessivamente políticos
hoje movimentados nos bastidores de Brasília.
A questão central, porém, não é identitária
nem partidária. É exclusivamente institucional.
A inflação da guerra e a de Lula
Por O Estado de S. Paulo
A guerra no Irã pesa sobre os preços no mundo
todo, inclusive no Brasil. Mas a manutenção da alta inflacionária por aqui tem
menos a ver com a guerra e mais com a farra eleitoreira de Lula
Em outubro de 2008, o então presidente Luiz
Inácio Lula da Silva vaticinou que o tsunami da crise financeira global
deflagrada naquele ano chegaria ao Brasil na forma de uma “marolinha”. Em certa
medida, foi o que aconteceu, sobretudo porque o Brasil era periférico no
sistema mais afetado pela turbulência. Agora, porém, é pouco provável que o
Brasil, malgrado ter uma economia fechadíssima, saia ileso do terremoto
econômico causado pela guerra no Irã – o que pode ter impacto inclusive nas
eleições.
Os sinais mais evidentes do alcance dos
tremores secundários por aqui vieram com a inflação de abril medida pelo IPCA,
o índice oficial, que subiu 0,67%, o resultado mais alto para o mês desde 2022,
segundo o IBGE. Em 12 meses, a inflação acumulada é de 4,39%, quase no limite
de tolerância de 4,5% perseguido pelo Banco Central (BC) e bem distante da meta
anual de 3%. Não à toa, instituições financeiras têm revisado para cima suas
previsões para a inflação em 2026. Já há, inclusive, quem vislumbre IPCA acima
de 5% no final do ano. Consequentemente, o espaço para que o BC siga reduzindo
a taxa básica de juros fica cada vez mais restrito.
No início de 2026, bem antes da eclosão da
guerra no Irã, a expectativa era de que em dezembro deste ano a taxa básica de
juros caísse para algo em torno de 12%, patamar ainda bastante elevado, mas
consideravelmente melhor que os juros de 15% com os quais inaugurou o ano.
A guerra reconhecidamente pesa sobre os
preços. Uma vez que parte relevante da produção global de petróleo está interditada
devido ao fechamento do Estreito de Ormuz, por onde escoa parte significativa
da produção, o custo dos combustíveis aumentou. Mas não só. O conflito no
Oriente Médio também tende a pressionar os preços dos alimentos, porque afeta a
entrega de fertilizantes.
Embora a guerra provoque inflação no mundo
todo – nos EUA, o índice de abril, de 3,8%, é quase o dobro da meta de 2%
definida pelo Fed –, no caso brasileiro a questão inflacionária tem camadas
extras de complexidade.
Mundo afora, as autoridades monetárias têm
enfrentado o desafio de calibrar suas taxas de juros em meio a um choque de
oferta de energia. Por aqui, no entanto, a Selic já era bastante elevada bem
antes da guerra.
Juros reais sufocantes, de 8% ao ano, têm
cobrado seu preço. A população ressente-se do baixo poder de consumo. O
endividamento e a inadimplência estão mais presentes na vida do cidadão e das
empresas. Em um cenário tão pouco alvissareiro, tornar a elevar juros causaria
transtornos ainda maiores.
O governo, porém, age de modo incansável para
atrapalhar ainda mais a queda dos juros. O presidente Lula, cuja gestão é mal
avaliada pelos eleitores, vem lançando uma série de medidas populistas e
fiscalmente irresponsáveis. A guerra é usada como pretexto para o uso
desbragado de subvenções do Tesouro, isenções fiscais e subsídios.
O exemplo mais recente é a medida provisória
que estabelece subsídio federal de R$ 0,89 por litro de gasolina e de R$ 0,35
por litro de diesel. Bastou a presidente da Petrobras, Magda Chambriard,
afirmar que a companhia anunciaria “já, já” um aumento do preço da gasolina,
defasado em cerca de 70% em relação ao mercado internacional, para a caneta de
Lula ser acionada.
Não haveria problema na adoção de medidas que
buscam mitigar os efeitos da guerra (prolongados, mas temporários) sobre a
população, sobretudo a mais pobre, se o governo não tivesse passado a gestão
inteira gastando como se o País vivesse em permanente estado de emergência.
Quando a emergência realmente ocorre, como
agora, o governo imprevidente gasta ainda mais aquilo que já não tem.
Supostamente preocupado com o povo, Lula vai empilhando medidas que, em vez de
solucionar, agravam os problemas de fundo do País.
Ao despejar dinheiro no mercado, o governo
joga ainda mais gasolina na fogueira inflacionária, impedindo que a Selic caia.
Se prosseguir nesse ritmo, Lula corre o sério risco de contratar juros altos
por mais tempo – encarecendo dívidas, sufocando o setor produtivo e limitando o
crescimento. Ou seja, o terremoto provocado pela guerra no Irã causa prejuízos
em todo o mundo, mas as nossas dificuldades são criadas por aqui mesmo.
Linchamento
Por O Estado de S. Paulo
Caso do cão Orelha mostra, didaticamente,
como funciona o tribunal da internet
O Ministério Público de Santa Catarina
concluiu que o cão Orelha, encontrado debilitado e com ferimentos no dia 4 de
janeiro, na Praia Brava, em Florianópolis, não foi vítima de agressão nem de
maus-tratos. Ou seja, o animal, cuja morte comoveu o País por ter sido
supostamente resultado de espancamento atribuído a adolescentes, morreu em
decorrência de uma infecção, e não da alegada violência.
O caso é exemplar de como funciona o tribunal
da internet. Ao longo do processo, os pais dos adolescentes acusados pela
polícia viveram o inferno das redes sociais, sofrendo todo tipo de ameaça, sem
terem como se defender. O tribunal acusa, condena e executa sem apelação.
Nem mesmo os sinais de que a investigação
policial estava eivada de erros, omissões e manipulação bastaram para arrefecer
o ímpeto dos linchadores virtuais. Ao contrário, parece ter servido para dar
notoriedade a seus responsáveis. Por exemplo, o delegado-geral da Polícia Civil
catarinense na época, Ulisses Gabriel, aproveitou ao máximo a visibilidade
súbita, usando as redes sociais para falar das investigações e para defender a
redução da maioridade penal. Gabriel, que é objeto de inquérito civil em razão
de sua conduta durante as investigações, trilhou o caminho de tantos outros que
ganharam os holofotes por mau comportamento: lançou-se candidato a deputado
estadual pelo PL.
Os adolescentes e suas famílias tiveram suas
identidades expostas, foram colocados em risco e sofreram danos de difícil
reparação. É evidente que foram vítimas de ilegalidades, a começar pela
violação de direitos previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA),
como a preservação da identidade dos menores. Mas não apenas isso: seus
direitos constitucionais, como a presunção de inocência, a ampla defesa e o
contraditório também foram desrespeitados por autoridades públicas que deveriam
protegê-los.
Tudo isso no embalo das redes sociais, o
local moderno dos antigos rituais de linchamento. Esse justiçamento promovido
por uma massa que se constitui para esse fim dá a quem participa dele o
conforto da impunidade. Nenhum dos algozes corre o menor risco, porque a massa
é infinitamente superior à sua vítima, que fica completamente à mercê de seus
algozes.
O assassinato virtual dos que são acusados de
crimes abomináveis, como espancar um cão até a morte (e não um cão qualquer, e
sim um cão “comunitário”, que era supostamente cuidado por todos na região),
serve como uma espécie de crime “permitido”, perfeitamente justificável,
incentivado e até mesmo desejado. Torna-se, dessa maneira, praticamente
irresistível, porque dá aos participantes a liberdade total para exercitar seus
piores instintos, aqueles que a vida em sociedade obriga a reprimir.
Por fim, mas não menos importante, depois do linchamento cada um dos linchadores vai cuidar de sua vida, com a consciência tranquila: afinal, num linchamento, não é possível dizer quem deu o golpe fatal. É a comunidade quem mata – e, quando até mesmo o poder público participa do linchamento, salve-se quem puder.
Cenário não ajuda programa contra o crime
organizado
Por Correio Braziliense
Programa anunciado pelo presidente Luiz
Inácio Lula da Silva chega com muitos meses de atraso e em um momento
conturbado da vida política do país
O programa Brasil Contra o Crime Organizado,
lançado na segunda-feira, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, chega com
muitos meses de atraso e em um momento conturbado da vida política do
país. É fácil entender os porquês. Primeiramente, fazer da espinha dorsal do
plano o ataque à movimentação financeira de facções criminosas e milícias, por
meio do rastreamento de recursos, é algo rejeitado com veemência pela
extrema-direita. Em segundo lugar, é de se antever que o período eleitoral
interditará qualquer discussão séria sobre a abordagem às organizações
criminosas.
Desde a Operação Carbono Oculto, que
desmantelou parte do esquema de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da
Capital (PCC) via postos de combustíveis — e cujo branqueamento de recursos
incluía fundos de investimentos, em seguida alcançados pela Operação Compliance
Zero, que derrubou Daniel Vorcaro —, o governo federal trabalha para convencer
adversários políticos de que interromper o fluxo financeiro é o caminho do
asfixiamento de facções e milícias. Uma obviedade recomendada pelo Garganta
Profunda, que, mais tarde, se saberia ser o ex-diretor do FBI Mark Felt, aos
jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein. Assim foi desvelada a quadrilha de
Watergate. Desde então, a expressão "follow the money" é o mantra do
combate às organizações criminosas.
Mas governadores bolsonaristas e
congressistas da bancada da bala consideram tal conceito algo de menor
importância. Para eles, o combate às facções é parte integrante de uma política
de segurança pública feita com mortes às dezenas nas favelas e periferias. Não
à toa, todos foram se solidarizar ao ex-governador fluminense Cláudio Castro
depois da operação policial que deixou cerca de 120 mortos no Complexo do
Alemão, em outubro de 2025. Para esses políticos, todos ali, sem exceção, eram
faccionados ligados ao Comando Vermelho. A verdade do dia seguinte, porém,
mostrou que, recolhidos os cadáveres, o tráfico voltou ao controle com novos
rostos a substituir os que morreram. Nada mudou; a segurança pública não
avançou um único milímetro; a facção não ruiu.
O governo federal patinou na elaboração de
uma proposta, sobretudo, por causa da construção de uma linha que distinguisse
facção de terrorismo. A preocupação é explicada no artigo "Terrorismo e
crime organizado no direito brasileiro: limites conceituais e repercussões
internacionais", de David Pimentel Barbosa de Siena — professor da Academia
de Polícia Dr. Coriolano Nogueira Cobra (Acadepol) e delegado de Polícia do
Estado de São Paulo: "A definição jurídica de terrorismo no Brasil tem
origem recente e reflete uma postura cautelosa diante de experiências
autoritárias do passado. (...) Esse receio decorre do uso político do termo
durante o regime militar (1964-1985), quando opositores foram rotulados como
'terroristas'. No período democrático subsequente, persistiu a preocupação com
o risco de que uma legislação antiterror se voltasse contra movimentos sociais
legítimos".
O timing não ajuda o programa Brasil Contra o
Crime Organizado. O Palácio do Planalto tem conhecimento, desde 2023, pelas
pesquisas de opinião, de que a violência com o consequente ataque ao domínio
territorial e econômico imposto por facções e milícias tornara-se preocupação
primeira do cidadão-contribuinte-eleitor. Da mesma forma, sabe que a captura do
tema pela extrema-direita facilita o discurso reducionista, mas sedutor, de
que, no combate à violência, a brutalidade é o fator prevalecente.
A PEC da Segurança Pública confirma isso. Está parada no Senado e sem perspectiva de ser votada.
Xi Jinping, Donald Trump e a paz
Por O Povo (CE)
É esperar que o encontro entre os dois não
tenha sido apenas uma ação midiática e que aconteçam desdobramentos concretos
no rumo de recuperar a diplomacia como a primeira alternativa de busca de
solução para diferenças que apareçam entre os países, em geral determinadas
pelo interesse legítimo de cada um
Diante de uma realidade contemporânea mundial
tão marcada por tensões, disputas, animosidades, guerras que levam a mortes e
destruições, vale saudar como evento simbolicamente importante os três dias de
encontro, na semana, entre os líderes das duas maiores potências econômicas
do mundo atual: Xi Jinping, o anfitrião pela China, e Donald Trump, o convidado
pelos Estados Unidos. O que houve de mais importante ali, para além dos
resultados concretos que um e outro apresente, é a demonstração de que o
caminho do diálogo segue possível.
Mais do que isso, continua sendo a melhor
opção. Trocar o campo de guerra pela mesa do diálogo, especialmente no
caso de Trump, ajudará a resolver muitos dos conflitos que hoje se espalham
mundo afora, vários deles fruto apenas de uma opção preferencial pelo uso da
força como meio de prevalecer em discussões que, claramente, haveria como serem
resolvidos de outra forma. Sem deixar um rastro de mortes e de destruições,
como nos últimos anos, infelizmente, fomos acostumados a observar.
É evidente que o cenário que havia antes do
atual líder dos Estados Unidos entrar em cena não era de concórdia absoluta
entre os povos e os países, mas, sem dúvida, havia algum esforço de privilegiar
a diplomacia na busca de soluções. O que passava, e continua passando, por
prestigiar as instâncias multilaterais criadas, exatamente, para fomentar
um espaço de conversa. Registra-se mais recentemente, neste caso sim
vinculando-se a uma política posta em prática pelo atual governo
norte-americano, um interesse de esvaziamento de tais instituições, a começar
pela Organização das Nações Unidas (ONU).
Xi Jinping e Donald Trump puderam, um diante
do outro, expor as dificuldades que há para um entendimento entre os países,
com toda a influência que naturalmente exercem sobre a comunidade
mundial, o que dá oportunidade para, através das respectivas equipes com as
quais governam, identificar o que é superável pela conversa e, de outra parte,
perceber os limites reais que há para chegarem a um ponto de acordo. Sem a
necessidade, para isso, de utilizar forças militares ou ações que deixem como
saldo mortes, famílias destruídas e prejuízos materiais que, às vezes, demandam
gerações para serem recuperados.
É esperar que não tenha sido apenas uma ação
midiática e que aconteçam desdobramentos concretos no rumo de recuperar a
diplomacia como a primeira alternativa de busca de solução para
diferenças que apareçam entre os países, em geral determinadas pelo interesse
legítimo de cada um.
O mundo anda precisando de dias mais calmos e menos bélicos para voltar às prioridades reais, que, independente da ideologia de cada governo, deve ser o bem estar das pessoas. Olhemos para o que houve em Pequim como um primeiro, mesmo que ainda insuficiente, sinal de que não é um sonho irreal esperar dias melhores.

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