O Globo
O envolvimento com Daniel Vorcaro se entranha
entre políticos da direita bolsonarista, que já se considerava vencedora da
eleição
A direita vive tempos difíceis. Nenhuma explicação do senador Flávio Bolsonaro fica de pé. Ciro Nogueira torce para que a onda sobre Flávio seja tão grande que o país esqueça da mesada que ele recebia. O ex-governador Cláudio Castro foi visitado pela Polícia Federal. Os analistas de mercado suspiram de saudade da candidatura presidencial que não foi e poderia ter sido, a do governador Tarcísio de Freitas. A direita bolsonarista briga com os outros pré-candidatos da direita que criticaram Flávio Bolsonaro. Eduardo Bolsonaro vê a onda que atingiu seu irmão se voltar também contra ele. O ex-governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, finge de morto enquanto o BRB luta para sobreviver. E a família Vorcaro já tem quatro elementos na cadeia.
Flávio Bolsonaro afirmou, há dois meses, que
nunca teve contato com Vorcaro. No áudio divulgado na última quarta-feira pelo
site "The Intercept Brasil”, ele aparece cobrando dinheiro do banqueiro –
“muita parcela para trás” e “muita conta para pagar”– e declara haver entre
eles união estável, “irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia
conversa entre a gente”.
O repórter do site fez uma pergunta direta
sobre o financiamento de Vorcaro. O senador respondeu: “Mentira, de onde você
tirou isso? Pelo amor de Deus. Militante não dá, cara”. Na quinta-feira, em
entrevista à GloboNews, disse que não tinha afirmado que era mentira. Um
espanto negar a fala da véspera. Tal pai, tal filho. Jair, quando presidente,
atacava repórteres e mentia sobre seus atos e palavras.
Na versão atual, Flávio Bolsonaro afirma que
o filme recebeu só dinheiro privado, e que não falou antes porque o contrato é
confidencial. A verdade: o contrato caducou, portanto, poderia ter sido
divulgado. O filme tinha verba pública, sim. O banqueiro que o financiava
deixou um rombo de R$ 12 bilhões em banco estadual, um déficit de R$ 2 bilhões
em fundos de previdência de servidores, e um buraco de R$ 55 bilhões no Fundo
Garantidor de Créditos (FGC), formado em parte por depósitos do Banco do Brasil
e Caixa. A rota da doação é nebulosa. Sai de fundos do ecossistema do Master e
termina num fundo gerido pelo advogado que cuidou do processo de imigração de
Eduardo. A dúvida que paira é se esse recurso financiou também Eduardo.
No começo desse escândalo, Daniel Vorcaro era
um banqueiro acusado de gestão temerária. Hoje já se sabe que é chefe de máfia.
Tinha uma milícia privada de intimidação, um grupo de hackers para invadir
sistemas digitais públicos, era um corruptor serial e mantinha infiltrados em
órgãos de controle. Seu pai, Henrique, foi preso semana passada acusado de ser
demandante, beneficiário e operador financeiro do esquema mafioso. O primo
também foi preso após fracassar na fuga num carrinho de golfe. O cunhado já
estava preso. Vorcaro tentava comprar todo mundo, mas teve especial sucesso na
direita.
Ciro Nogueira, o “amigo da vida” de Vorcaro,
foi acusado de ato de ofício. Ou seja, recebeu dinheiro e em troca usou seu
mandato para beneficiar o Master na emenda que arrombaria o FGC para salvar o
banqueiro encrencado. As suspeitas sobre Ciro são fortes. O Ministério Público
avaliou que “os elementos da investigação revelam indícios concretos de
estreita relação pessoal, empresarial e financeira entre os investigados”. Era
o vice dos sonhos de Flávio e depois passou a ser tratado como tóxico pelo
mesmo Flávio, que agora também se tornou tóxico.
O ex-governador bolsonarista de Brasília,
Ibaneis Rocha, tem poucas chances de escapar de tudo isso, dado que o
ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa, escolhido por ele e que comandou
todas as falcatruas no banco em favor de Vorcaro, está fazendo delação
premiada. O ex-governador bolsonarista no Rio, Cláudio Castro, devia explicação
sobre o R$ 1 bilhão que a previdência dos servidores aplicou em papéis podres de
Vorcaro. Na sexta, foi alvo da Operação Sem Refino sob a suspeita de ter
colocado a máquina do Estado em favor do maior sonegador do país, Ricardo
Magro, um foragido da Justiça, que mora hoje nos Estados Unidos.
Todos esses casos atingiram a direita bolsonarista.
E a outra direita? Não tem vida independente desde que se deixou capturar pelos
extremistas. Poderia até escapar deste destino de satélite, mas anda meio
perdida. Quanto a Flávio Bolsonaro, ele posava como vitorioso de véspera e
agora tenta salvar a candidatura.

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