‘Super El Niño’ exigirá preparo maior do Brasil
Por O Globo
Previsão é o fenômeno mais intenso nos
últimos 140 anos, agravando cheias, secas e incêndios florestais
O Brasil precisa se preparar desde já para os efeitos nefastos do próximo El Niño, fenômeno climático provocado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico que favorece eventos como secas severas, grandes incêndios florestais e tempestades devastadoras. Dados da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos e da Organização Meteorológica Mundial, da ONU, mostram que a probabilidade de ele ocorrer a partir do segundo semestre deste ano ultrapassa 90%. Segundo cientistas, poderá ser o mais intenso dos últimos 140 anos e foi apelidado “Super El Niño”.
Avisos não faltam. Uma nota técnica do Centro
Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais diz que o El Niño
poderá alterar de forma significativa padrões de chuva e temperatura. Nas
regiões Norte e Nordeste, espera-se queda nas precipitações, com secas e atraso
no início do período chuvoso. No Sudeste e no Centro-Oeste, o cenário prevê
ondas de calor mais frequentes e menor umidade relativa do ar, com impacto na
saúde da população. A combinação de temperatura elevada e estiagem pode
favorecer incêndios florestais no Pantanal. No Sul, a tendência são chuvas
intensas, com riscos de inundações e deslizamentos.
As previsões preocupam não só pelos riscos
óbvios, mas porque, no Brasil, o histórico tem revelado negligência e
despreparo. “O Brasil responde a esse cenário com estruturas do passado”, escreveu em
artigo no GLOBO Carlos Bocuhy, presidente do Instituto
Brasileiro de Proteção Ambiental. “A cada evento extremo, repete-se o roteiro:
emergência, resposta tardia, reconstrução parcial e esquecimento.” As chuvas
catastróficas no Rio Grande do Sul, que deixaram mais de 180 mortos e
provocaram destruição sem precedentes no estado em 2024, deveriam ao menos
servir de lição.
O despreparo não acontece só por omissão ou
inépcia do Executivo. No Congresso, parlamentares ignoram a emergência
das mudanças
climáticas. Em vez de reforçar a proteção ao meio ambiente,
atuam no sentido contrário. Não bastasse o desmonte da legislação de proteção
já ocorrido, nos últimos dias a Câmara aprovou um projeto restringindo o uso de
satélites no combate ao desmatamento. Não chega a proibi-lo, mas dificulta — um
retrocesso. O texto aprovado também impede a destruição de equipamentos usados
por garimpeiros ilegais que devastam a floresta e contaminam os rios. Espera-se
que o Senado barre tais despropósitos.
É um equívoco imaginar que há
incompatibilidade entre desenvolvimento e conservação ambiental. Eles devem
caminhar juntos, de forma sustentável. A deterioração do meio ambiente pode
alterar todo o regime de chuvas, afetando o agronegócio. E, num mercado mundial
cada vez mais competitivo, exige-se garantia de que os produtos não venham de
áreas desmatadas. Zelar por uma legislação ambiental rigorosa significa também
ampliar mercado às exportações brasileiras.
A julgar pelo histórico de outros anos, como
2023 e 2024, o El Niño trará tempos difíceis aos brasileiros. Seria uma lástima
se o país não se preparasse. Não há como impedir eventos extremos, mas é
possível enfrentá-los de forma mais planejada, evitando a correria quando
secas, incêndios, inundações e deslizamentos já estão fora de controle.
Executivo e Legislativo precisam estar cientes de sua responsabilidade. Não
poderão alegar que não sabiam.
Novos exames para recém-formados refletem
deficiências do ensino superior
Por O Globo
Seis projetos tramitam no Congresso para
instaurar, noutras profissões, provas semelhantes à da OAB
Em 2011, quando avaliou o exame da Ordem dos
Advogados do Brasil, o Supremo Tribunal Federal (STF) considerou
constitucionais as provas de qualificação elaboradas por conselhos profissionais,
desde que respaldadas por lei federal. Nos últimos tempos, ganharam força
tentativas de instaurar exames dessa natureza como forma de compensar a
incapacidade do ensino superior brasileiro de formar profissionais com preparo
adequado.
No ano passado, o próprio Ministério da Educação (MEC)
instituiu o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), para
avaliar os formados nas faculdades de medicina. Tramitam no Congresso seis
projetos de lei com o objetivo de referendar exames de proficiência aplicados
por entidades de classe. Neste mês, a proposta do Exame de Habilitação
Profissional em Medicina Veterinária passou pela Câmara e foi remetida ao Senado.
Em fevereiro, o Exame Nacional de Proficiência em Medicina foi aprovado na
Comissão de Assuntos Sociais do Senado. Outros quatro projetos se destinam a
enfermeiros, dentistas, biomédicos e professores.
O MEC deve ter a prerrogativa de autorizar e
reconhecer cursos de nível superior, mas faz sentido permitir que haja exames
para exercício de certas profissões. Há fartos exemplos noutros países. Nos
Estados Unidos, destaca-se o exame para advogados, exigido pela Bar
Association, a OAB americana.
No Reino Unido, conselhos profissionais independentes avaliam estudantes de
medicina britânicos e médicos formados no exterior, e a advocacia obedece a
regras semelhantes. Na Alemanha, o próprio Estado submete recém-formados a
testes. Venha de universidades públicas ou privadas, o estudante de medicina,
Direito e de outras áreas só recebe o diploma se aprovado.
Mas é preciso atenção com o uso desses exames
como barreira à entrada de novos profissionais no mercado. A própria
regulamentação de profissões precisa ser avaliada com equilíbrio. Não pode ser
demasiado restritiva nem liberal em excesso. Um caso de flexibilização sensata
foi a revisão, feita pelo STF, de uma interpretação restritiva de decretos do
primeiro governo Getúlio Vargas sobre oftalmologistas. No final de 2021, a
Corte permitiu que optometristas com formação superior também pudessem examinar
quem tem problemas de visão e receitar óculos, sem autorizá-los a fazer
qualquer tipo de cirurgia ou procedimento oftalmológico. Nos Estados Unidos, o
Conselho Estadual de Odontologia da Carolina do Norte tentou proibir que salões
de beleza e esteticistas fizessem clareamento dental. A Comissão Federal de
Comércio interveio para evitar o monopólio de dentistas nesse serviço.
No mundo ideal, as faculdades só formariam profissionais de alto nível. No Brasil, contudo, ainda há muito a melhorar no ensino superior, principalmente nas faculdades privadas. Exames para recém-formados se justificam como filtro em profissões de risco, como medicina ou veterinária. Mas não podem servir como instrumento de engessamento do mercado de trabalho com objetivos corporativistas.
Master tem impacto inicial modesto sobre voto
em Flávio
Por Folha de S. Paulo
Filho de Bolsonaro tem 43% das intenções de
voto ante 47% de Lula em simulação de 2º turno, diz Datafolha
Cada lado acumula percentuais expressivos
tanto de rejeição como de seguidores fiéis aos quais não importa muito o
envolvimento em desmandos
A revelação
das relações entre Flávio
Bolsonaro (PL) e o ex-banqueiro Daniel
Vorcaro impactou, sim, intenções de voto no senador fluminense.
Mas, apesar de a nova pesquisa Datafolha registrar
perdas, os danos não parecem suficientes para que o principal presidenciável da
direita até aqui corra risco imediato de ser substituído.
No primeiro turno, a vantagem de Luiz
Inácio Lula da
Silva (PT)
sobre Flávio aumentou de 3
para 9 pontos percentuais. O parlamentar, porém, mantém-se
competitivo no segundo turno, em que é batido por Lula por 47% a 43% —na
pesquisa anterior, havia empate em 45%.
Ainda é um desempenho consideravelmente
melhor que os de seus rivais no campo da direita, Ronaldo
Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo),
que marcam 39% ante 48% de Lula. Numa simulação com Michelle Bolsonaro, o
incumbente petista derrota a ex-primeira-dama por 48% a 43%.
Cabe ressaltar que a pesquisa retrata um
momento anterior à campanha oficial. O filho de Jair
Bolsonaro tem um histórico de envolvimento em episódios
rumorosos a serem expostos e explorados pelos adversários. Nesse aspecto, sua
situação piorou.
Não bastassem sucessivas omissões e mentiras
sobre o relacionamento com o ex-controlador do Banco Master,
a quem chamava de "irmão", Flávio propiciou outro motivo de suspeitas
sobre sua idoneidade.
Na semana passada, o portal Metrópoles
revelou que, depois de preso pela primeira vez, mas em casa e com tornozeleira
eletrônica, Vorcaro recebeu a visita de Flávio. Este saiu-se com a desculpa de
que teria discutido o fim da relação no encontro.
Ainda não há clareza alguma sobre os negócios
do ex-banqueiro e pivô do escândalo de corrupção com a família Bolsonaro e a
produtora do filme sobre o ex-presidente. Nos mais de quatro meses que restam
até as eleições,
Flávio terá de encarar exposição e questionamento em debates, TV e redes —fora
a possibilidade de novos fatos virem à tona.
Permanece difícil, de todo modo, a situação
de Lula, que não obteve alta significativa em intenção de voto nem queda do
índice de rejeição a seu nome.
Quanto à avaliação do governo, prossegue a
discreta melhora verificada a partir do último mês. O saldo negativo entre os
que o consideram ruim ou péssimo e ótimo ou bom, que era de 11 pontos
percentuais em abril, recuou para 6 pontos agora (38% e
32%, respectivamente).
É possível que as sucessivas medidas
eleitoreiras tenham influenciado de modo marginal os votantes, em particular as
mulheres e o estrato com renda inferior a dois salários mínimos.
Assim, não se abala substancialmente por ora a polarização entre PT e bolsonarismo que já marcou as duas últimas disputas presidenciais. Cada lado acumula percentuais expressivos tanto de rejeição como de seguidores fiéis —aos quais não importa tanto o envolvimento em desmandos.
Recuperar a CVM
Por Folha de S. Paulo
Autarquia sofre com escassez de recursos e
vive crise de credibilidade por falhas no caso Master
Nomeação de novo presidente não ajuda a
dissipar desconfianças; Supremo manteve decisão que proibiu a retenção de taxas
pagas à entidade
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM)
enfrenta uma crise de credibilidade, que tem raiz num quadro de insuficiência
financeira e técnica.
Responsável por regular e fiscalizar o
mercado de capitais, inclusive os fundos de investimento, a CVM sofre de
letargia operacional, com escassez crônica de recursos e de pessoal, além de um
estoque crescente de processos.
A autarquia iniciou 2026 com apenas duas das
cinco diretorias ocupadas e
permaneceu cinco meses sem julgamentos. Em 2025, julgou apenas 49
processos sancionadores, ante 94 no ano anterior, enquanto o número de casos
abertos saltou a 804.
Trata-se de um contrassenso, considerando a
expansão de complexidade, volume e sofisticação das operações, com fundos de
investimento superando R$ 11 trilhões em patrimônio e um ecossistema que
envolve dezenas de milhares de agentes.
A indicação de Otto Lobo para a presidência
da CVM, mantida por Luiz Inácio Lula da
Silva (PT) e aprovada
pelo Senado, não ajuda a dissipar as desconfianças sobre influência
política.
O advogado, que já foi presidente interino,
coleciona decisões controversas, notadamente a que beneficiou o Banco Master e Daniel
Vorcaro em processo sobre manipulação de preços de ações da
Ambipar. Suspeitas de articulações partidárias, incluindo apoios do Centrão e
de setores interessados, cercaram a sua indicação desde o início.
É no mínimo questionável que, em meio ao
escândalo do Master, o governo e o Congresso optem por um nome que,
independentemente de sua qualificação técnica, carrega esse histórico.
A falha mais evidente foi a incapacidade de
detectar e estancar a tempo as operações suspeitas envolvendo fundos da Reag,
parte da ciranda financeira do Master. A CVM abriu inúmeros processos, mas a
reação foi tardia e reativa, expondo lacunas de supervisão preventiva em fundos
opacos e estruturas complexas.
Entre 2022 e 2024, a entidade arrecadou para
o Tesouro em torno de R$ 2,4 bilhões, dos quais cerca de R$ 2,1 bilhões vieram
de taxas para o custeio da fiscalização, mas recebeu orçamento de R$ 670
milhões, segundo ação movida pelo Partido Novo no
Supremo Tribunal Federal.
Contra a vontade do Planalto, que quer usar os recursos para outros fins, o STF manteve a decisão de Flávio Dino que proibiu a retenção das taxas pagas à CVM e exigiu a elaboração de um plano de reestruturação. É um passo inicial para recuperar o órgão e prevenir novos crimes contra o sistema financeiro.
Um escândalo que não pode ser esquecido
Por O Estado de S. Paulo
‘Virar a página’ do escândalo do INSS, como
quer o governo, depende de respostas à sociedade, da responsabilização dos
culpados e da devolução de bilhões em recursos à União
O ministro da Previdência Social, Wolney
Queiroz, disse ao Estadão que
chegou a hora de o País “virar a página” da crise dos descontos ilegais nos
benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Para ele, é preciso
atacar novas frentes, entre elas a redução dos juros do empréstimo consignado
para aposentados e pensionistas e o fim da fila de pedidos de benefícios do
órgão.
“Precisamos salvaguardar a instituição, a
Previdência Social e o INSS”, disse ele ao jornal. Muito à vontade no cargo, o
ministro, inclusive, já assumiu o discurso de seu antecessor, Carlos Lupi,
contra a reforma da Previdência. Para ele, trata-se de um “método de
desconstrução” para enfraquecer a imagem da instituição e um problema da área econômica,
muito embora a quantidade de contribuintes seja cada vez menor, e o
envelhecimento da população, uma realidade que não pode ser ignorada.
É conveniente para o governo dar o escândalo
como encerrado. Wolney Queiroz chefia o ministério há um ano, logo após a
Operação Sem Desconto ter sido deflagrada. Então número dois da pasta, ele
assumiu depois que se soube que Lupi havia sido alertado ainda em 2023 sobre os
descontos em uma reunião do Conselho Nacional da Previdência Social e que levou
quase um ano para adotar medidas para coibir as fraudes.
Wolney Queiroz, por sinal, estava nessa mesma
reunião, mas, diferentemente do chefe, sobreviveu ao escândalo. A pedido de
Lula, ele desistiu de disputar a eleição para deputado federal por Pernambuco e
permaneceu no ministério, o que torna a superação da crise – a tal virada de
página – vital para seu futuro político.
O ministro assegura que os processos internos
foram revistos, mas o Tribunal de Contas da União (TCU) tem dúvidas, tanto que
chegou a suspender a concessão de novos empréstimos por julgar que os problemas
que fizeram com que os descontos ilegais ganhassem escala ao longo dos anos
ainda não haviam sido devidamente sanados.
As operações com desconto em folha foram
liberadas após o governo recorrer da decisão, considerada “drástica” pela
ministra-chefe da Casa Civil, Miriam Belchior. Drástica, mesmo, é a conta que
ficou com a União – mais precisamente, com o contribuinte – após o
ressarcimento de mais de R$ 3 bilhões a mais de 4,4 milhões de beneficiários. O
rombo, aparentemente, ficará por isso mesmo, uma vez que o governo conseguiu
autorização para excluir os valores do arcabouço e da meta fiscal.
A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito
(CPMI) do INSS não ajudou em nada. Os trabalhos começaram mal, com deputados e
senadores mais preocupados em blindar seus próprios grupos políticos, e
terminaram de maneira melancólica, com o vazamento de mensagens íntimas do
empresário Daniel Vorcaro e sem sequer um relatório final aprovado.
A “virada de página” a que Wolney Queiroz fez
referência inclui ainda a demissão do presidente do INSS, Gilberto Waller Jr.,
que substituiu Alexandre Stefanutto, dispensado em abril do ano passado e preso
desde novembro, e a troca da área responsável pelo inquérito da Polícia Federal
(PF) sobre os desvios, que afastou o delegado Guilherme Figueiredo Silva das
investigações.
No caso de Waller Jr., o Executivo o
dispensou atribuindo a ele a responsabilidade pela fila recorde de pedidos de
benefícios do INSS, como se a medida não fosse uma forma de conter despesas e
administrar o orçamento a conta-gotas. Quanto ao delegado, que pediu a quebra
do sigilo de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente da
República, para apurar suas relações com o lobista Antônio Carlos Camilo
Antunes, o Careca do INSS, a PF alegou que a mudança visava a assegurar a
eficiência e a continuidade das investigações.
O esforço do governo é para que o escândalo
do INSS fique para trás sem que seja preciso dar respostas à sociedade. Ora, a
superação definitiva dessa crise depende essencialmente do governo, que precisa
fazer o mínimo: buscar a responsabilização de todos os culpados e cobrar a
devolução dos bilhões desviados pelas entidades e associações ao erário. A
“virada de página” depende disso.
Preservando os dedos e os anéis
Por O Estado de S. Paulo
Conhecedores dos problemas gerados pelo
modelo de distribuição de recursos das emendas, prefeitos deveriam defender seu
fim, e não um novo fundo para corrigir suas distorções
Prefeitos de milhares de municípios
brasileiros descobriram o óbvio: as emendas parlamentares têm distorcido o
Orçamento Geral da União. Embora os recursos reservados para essas indicações
tenham quase quintuplicado nos últimos anos, passando de R$ 10,7 bilhões em
2017 para R$ 49,9 bilhões neste ano, a distribuição dessa verba tem sido feita
sem critérios técnicos e contribuído para ampliar as desigualdades regionais.
A solução para esse problema é intuitiva e
parece muito simples: basta acabar com as emendas e retomar um modelo de
transferências com critérios claros e que privilegie quem mais precisa do
dinheiro. Mas não é isso que desejam os gestores municipais. Reportagem
publicada pelo Estadão na
semana passada revelou que os prefeitos querem que os pré-candidatos à
Presidência da República mantenham as emendas e se comprometam a criar um fundo
para equilibrar esses repasses.
Ora, esse fundo já existe e se chama Fundo de
Participação dos Municípios (FPM). É por meio dele que o governo federal
repassa recursos para as prefeituras. Tem critérios definidos por lei e que
dependem do tamanho da população do município, da renda per capita da região e
de sua localização. O dinheiro é enviado de maneira automática a todos os
municípios, ou seja, não é preciso depender de apoio político para receber a
verba. Como se trata de um fundo constitucional, o dinheiro tampouco pode ser
bloqueado.
Os recursos do FPM podem ser usados em várias
áreas, como a folha de pagamento dos municípios, mas uma parte deve ir,
obrigatoriamente, para saúde e educação. Municípios de pequeno porte e do
interior do País, especialmente nas Regiões Norte e Nordeste, recebem mais
proporcionalmente do que capitais, que contam com receitas próprias para se
sustentar.
Não se trata de um modelo perfeito nem imune
a críticas, mas sem dúvida alguma é mais justo que o das emendas parlamentares,
em que o envio da verba não depende da necessidade do município, da importância
do projeto ou de sua conexão com políticas públicas, mas da vontade de
deputados e senadores.
Mas basta analisar a demanda dos prefeitos
para ter a certeza de que não é de justiça que se trata. O que eles querem,
segundo a reportagem, é acelerar o pagamento das emendas aos municípios que já
garantiram indicações até julho e, em paralelo, garantir uma compensação
adicional àqueles que não foram contemplados. Ou seja, é mais dinheiro.
Sintomático que essa tenha sido uma das
principais pautas da 27.ª Marcha dos Prefeitos. O evento, que acontece em
Brasília todos os anos, ganha importância ainda maior na proximidade de
disputas eleitorais. É nessa época que os gestores municipais perambulam de
gabinete em gabinete em busca de mais recursos para os municípios que governam.
A contrapartida que eles assumem é a de trabalhar pela eleição desses mesmos
parlamentares em suas regiões.
Eis a tradução do “Orçamento municipalista”,
expressão que o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL) preferia utilizar
para defender as escolhas do Congresso na distribuição dessas verbas
bilionárias. É assim, segundo ele, que deputados e senadores, que supostamente
veem de perto as necessidades locais dos brasileiros, dizem atender às demandas
de suas regiões, invisíveis para os insensíveis burocratas de Brasília.
Na prática, é por meio das emendas que os
parlamentares têm premiado municípios governados por aliados e punido aqueles
administrados por adversários ou que não entregaram votos suficientes na
eleição.
Se parece um mecanismo de financiamento
eleitoral paralelo, é porque é assim que ele tem funcionado, e não surpreende
que esse modelo, além de favorecer desvios, resultar em obras atrasadas,
inacabadas e de baixa qualidade e nem de longe primar pela transparência,
reforce os problemas históricos de desigualdade social no País.
É de lamentar que nem mesmo o reconhecimento
do fracasso desse mecanismo pelos prefeitos é capaz de convencê-los a abrir mão
dele. A maneira definitiva de corrigir os problemas gerados pelas emendas não é
criar um novo fundo, mas extingui-las.
A pompa de Xi e a realidade chinesa
Por O Estado de S. Paulo
Enquanto projeta poder para o mundo, Pequim lida com sua fragilidade econômica interna
Há poucos dias, quando recebeu o presidente
dos EUA, Donald Trump, em visita oficial, o governo de Xi Jinping não poupou
esforços para exibir ao americano inúmeros sinais do poderio da China.
Mas o que nenhuma recepção grandiosa consegue
mascarar por muito tempo é que a mesma China que assombra o mundo com sua
capacidade industrial e tecnológica enfrenta desafios cada vez mais urgentes no
plano doméstico.
Pequim sabe que o papel de fábrica do mundo
que a China exerce atualmente gera insatisfação crescente nos diversos países
inundados por produtos chineses. Também por isso, a liderança comunista vem
buscando, sem sucesso até agora, promover uma transição estratégica. Em vez de
abastecer os mercados globais, a China passaria a consumir fatias mais amplas
do que produz.
No entanto, por mais que, nos últimos anos,
Pequim tenha lançado mão de medidas para estimular a população local a comprar,
os chineses seguem relutando em fazê-lo. Em abril, as vendas ao varejo
cresceram apenas 0,2% em relação ao mesmo período de 2025. O resultado não
apenas veio substancialmente abaixo da alta de 2% projetada por economistas,
como foi o mais fraco desde dezembro de 2022, quando o país começava a relaxar
sua rígida política de “covid zero”.
Símbolo da vulnerabilidade chinesa, o setor
imobiliário segue alvo de extrema desconfiança da população, após o estouro de
crises entre 2020 e 2021, que levaram incorporadoras à falência e causaram uma
forte desvalorização dos preços dos imóveis.
Temerosos de que as casas sigam perdendo
valor, ou que nem mesmo sejam finalizadas e entregues, como já aconteceu, os
chineses evitam comprar imóveis.
A fraqueza do mercado imobiliário arrasta os
indicadores de investimento chineses para baixo. Nos primeiros quatro meses do
ano, o índice de investimento em ativos fixos teve contração de 1,6%, quando o
esperado era uma expansão de 1,6%.
Aos desafios econômicos internos, somam-se as
surpresas externas. Por mais capacidade que tenha de armazenar combustível e de
produzir energia renovável, o conflito prolongado no Irã também tem reflexos
consideráveis para Pequim.
Por ora, a segunda maior economia do mundo
parece ser uma vencedora do conflito que opõe EUA e Israel ao Irã, mas que na
prática afeta a economia global como um todo, ainda que de forma assimétrica.
Em abril, as exportações chinesas cresceram
14,1%, quase o dobro do esperado. Isso aconteceu porque compradores
estrangeiros anteciparam encomendas, estratégia que costuma ser adotada em momentos
de instabilidade como o que o mundo atravessa agora.
A esta altura, porém, cada dia extra de
indefinição e de fechamento do Estreito de Ormuz aumenta o risco de recessão
mundial. Nesse cenário, torna-se mais difícil para a China, que já enfrenta o baixo
dinamismo de seu mercado doméstico, seguir vendendo para outras nações, que
precisam lidar com custos crescentes de energia em plena alta temporada no
Hemisfério Norte.
Não há cerimônia pomposa que contenha os efeitos deletérios de uma desaceleração econômica global.
Mudança em leis ambientais pode prejudicar o
próprio agro
Por Valor Econômico
Permitir mais desflorestamento pode agravar o desequilíbrio no regime de chuvas do qual o setor depende para seguir gerando riqueza
A formulação de políticas públicas deveria
servir para legitimar a confluência de interesses entre governo, parlamentares
e setor privado, que permita o casamento de preservação e desenvolvimento
econômico. Mas o que se viu na última semana, com votações em série no
Congresso, foi uma sucessão de medidas que visam ao benefício de poucos em
detrimento da sociedade brasileira. Restrições e mudanças legais feitas pela
Câmara dos Deputados, que dependem de aprovação do Senado, contribuem para
erodir a imagem internacional de um setor produtivo, moderno e competitivo e
comprometer o futuro da atividade agropecuária, dificultando a execução de
práticas que procuram atenuar efeitos de mudanças climáticas nocivas.
Em uma sequência de votações que começou na
terça-feira (19), a Câmara dos Deputados flexibilizou ainda mais a legislação
de proteção ambiental. Os deputados aprovaram o PL 364/2019, que elimina a
proteção de todos os campos nativos e formações não florestais. Segundo o
Observatório do Clima, esse PL deixa esse tipo de vegetação em risco,
permitindo que possa ser livremente explorado em atividades minerais, agrícolas
e pecuárias. Se avançar no Senado, o projeto pode retirar proteção de toda a
Mata Atlântica e deixar sob risco cerca de 48 milhões de hectares de campos
nativos em todo o país - Pantanal, Pampa, Cerrado e Amazônia -, que ficariam
vulneráveis a uma exploração agrícola contrária a prática ambientais
consagradas.
Os deputados também aprovaram o PL 2486/2026,
que revoga o decreto presidencial que criou a Floresta Nacional (Flona) do
Jamanxim, no Pará, em 2006, e reduz seus limites em cerca de 814,6 mil
hectares. Essa área será devolvida aos fazendeiros. Como “compensação”, o PL
prevê a criação de uma Área de Proteção Ambiental (APA) na mesma região, com
apenas 486 mil hectares, que permite o desenvolvimento de atividade
agropecuária, de garimpo, industrial e ocupação populacional urbana em áreas
sensíveis. Não se trata, há muito tempo no caso de Jamanxim, de exploração
legal dentro dos melhores padrões agrícolas. A área tem sido polo de
desmatamento ilegal agressivo na Amazônia, e as iniciativas para legalizar o
uso da terra na região sempre tentaram facilitar a grilagem de terras.
A Câmara aprovou ainda o PL 5900/2025, que
concede “superpoderes” ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) na
análise de espécies animais, vegetais, aquáticas e demais usadas em atividades
produtivas. A inclusão de animais na Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de
Extinção, por exemplo, passará a depender da manifestação do Mapa. É descabido
que um ministério tenha poder de veto sobre todos os demais órgãos ambientais,
como Ministério do Meio Ambiente (MMA), Ibama, ICMBio e Conama. O resultado
será o enfraquecimento, e não o aperfeiçoamento, necessário do Sistema Nacional
do Meio Ambiente e da capacidade do Estado de fiscalizar, licenciar e formular
normas ambientais com base em critérios técnicos e científicos.
Com consequências práticas graves, o projeto
2564/2025 aprovou alterações na Lei de Crimes Ambientais para vedar multas e
punições a desmatamentos ilegais feitos por detecção remota, via satélite. A
negociação na Câmara atenuou a norma, autorizando o uso dos satélites na
vigilância, mas com exigência de que o produtor seja avisado antecipadamente e
que haja um tempo para que ele apresente defesa antes de o embargo ser
validado. O monitoramento por satélite é a base de dois terços das autuações do
Ibama, que perderia seu principal meio de intervenção na imensidão amazônica
para evitar ações predatórias contra a floresta.
A mudança de uso da terra é o principal fator
de emissões de gases de efeito estufa no Brasil. Enfraquecer os frágeis
instrumentos de controle existentes, sem oferecer melhores alternativas, e
permitir nova aceleração no desflorestamento contribuiria para agravar as
mudanças climáticas e o desequilíbrio no regime de chuvas do qual a própria
atividade agropecuária depende para seguir gerando riqueza. O Brasil não
precisa de mais desmatamento para expandir áreas agrícolas. Além dos aumentos
de produtividade obtidos pelos produtores rurais, há 28 milhões de hectares de
pastagens severa ou moderadamente degradadas que podem ser restauradas com fins
produtivos. Essa é uma “velha” fronteira agrícola que está sendo explorada por
investidores para elevar a oferta sustentável de alimentos, aumentando as
exportações de forma compatível com as exigências dos países consumidores. Em
2025, o PIB do setor agropecuário registrou crescimento de 11,7%, com valor
adicionado bruto de R$ 775,3 bilhões, ou 6,1% do PIB - com desmatamento em
queda.
Infelizmente, a bancada ruralista, autora da maior parte dos projetos, é avara em propostas que ampliem a conservação ambiental e preservem avanços da produtividade agrícola. Ampliar brechas legais para a destruição das florestas, especialmente na Amazônia, tem um custo ambiental severo. Facilitá-la, como fazem propostas aprovadas na Câmara, vai contra o interesse dos próprios produtores rurais. Cabe ao Senado a correção de rumos.
O abandono urbano e seus efeitos
Por Correio Braziliense
Conceito que vem ganhando espaço cada vez
maior no debate global, o abandono urbano parece que ainda não motiva discussões
como deveria pelo país
O Brasil apresenta um enorme desafio urbano a
ser enfrentado, que aparece em estudos e no dia a dia da população. Na última
quarta-feira, um ranking elaborado por meio da parceria de organizações foi
divulgado mostrando as cidades com a melhor e a pior qualidade de vida em 2026.
O levantamento avaliou 5.570 municípios nacionais e, ao final, apontou que as
desigualdades regionais continuam profundas: 19 das 20 localidades mais bem
colocadas ficam no Sul e Sudeste, enquanto 18 das 20 mais baixas estão no Norte
e no Nordeste. Inúmeras são as questões que envolvem essas diferenças
aparentemente somente geográficas, mas entre elas a falta de atenção básica é
um ponto comum, independentemente da posição no mapa.
Conceito que vem ganhando espaço cada vez
maior no debate global, o abandono urbano parece que ainda não motiva
discussões como deveria pelo país. Reflexo físico de crises sociais e
econômicas, além de falhas no planejamento público, o fenômeno merece atenção.
Não é raro observar — seja em pequenas, seja em médias e seja em grandes
cidades — a deterioração de imóveis residenciais ou comerciais desocupados, que
representam riscos até para a saúde pelo potencial de transmissão de
arboviroses, por exemplo. Além disso, as calçadas destruídas e a proliferação
do lixo dificultam o deslocamento pelas ruas. Sem contar que endereços
abandonados tendem a se tornar lugares de vulnerabilidade, aumentando a
sensação de insegurança.
Como espaço de vivência coletiva, uma cidade
deve ser pensada e gerida justamente para garantir o bem-estar e o direito à
qualidade de vida de todos os habitantes. Em termos simples, precisa ter áreas
estruturadas, lazer, transporte público e serviços distribuídos de forma justa
para cumprir seu papel social.
Atentos a isso, governos ao redor do mundo
têm desenvolvido iniciativas para combater o abandono por meio da revitalização
e do retrofit. Outras aliadas decisivas são a tecnologia e a inteligência
artificial. Centros urbanos que utilizam a conectividade e a análise de dados
em tempo real para otimizar a infraestrutura e melhorar a eficiência, sem
perder o foco na sustentabilidade, mostram ganhos em qualidade. A aplicação dos
dados em decisões que transformam a vida dos moradores é mais um diferencial
que alcança resultados significativos.
O Brasil, de Norte a Sul, não pode ignorar o
custo do abandono urbano. Quando a cidade permite a existência de locais
degradados, ela desperdiça o dinheiro do contribuinte e torna hostil o ambiente
para os moradores. Tornar os municípios mais agradáveis exige coragem política
para aplicar métodos inovadores e, em muitos casos, fazer a lei ser cumprida —
como os códigos de posturas. Revitalizar bairros por meio de projetos de
habitação de interesse social e iniciativas de uso misto — que combinam
moradia, comércio e lazer — pode oxigenar as cidades como um todo, gerando
empregos e contribuindo para a segurança nas ruas.
As cidades do futuro — inteligentes,
sustentáveis e com qualidade para todos — precisam começar a sair dos projetos
no presente. Um primeiro passo que o país precisa dar nesse sentido é o de
recuperar o que está esquecido há anos. Sem isso, humanizar seus municípios,
garantindo dignidade para a população, fica um objetivo distante.
O sucesso de uma nação passa também pela maneira como ela cuida do seu território. Nesse quesito, o Brasil tem muito a realizar se quiser colocar as suas cidades em condição de responder às necessidades de cada cidadão e, paralelamente, dar um salto de desenvolvimento.
Um forte El Niño exige planejamento e ações
Por O Povo (CE)
A situação projetada provoca um alerta quanto
a uma possível falta de água, mas sobretudo expõe, na prática, os efeitos da
crise climática global. Matéria do O POVO de maio deste ano mostrou que, em
Fortaleza, tem chovido mais em menos tempo, especialmente entre 2020 e 2026
Diferentes modelos climáticos alertaram: o El
Niño, fenômeno que interfere na temperatura e na ocorrência de chuvas no
Ceará, será intenso no segundo semestre de 2026 e deverá ter impactos diretos
na quadra chuvosa de 2027.
O acelerado aquecimento das águas do Oceano
Pacífico, condição que configura o evento climático, já vem sendo identificado
há meses. As probabilidades para um El Niño forte são de 60% a 90%, de acordo
com a National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), agência climática
dos Estados Unidos.
Essa intensidade preocupa porque o El Niño
provoca menos chuvas e mais calor. O POVO mostrou, no início de abril,
que o Ceará pode registrar acréscimo de até 2ºC nos termômetros.
O cenário é esperado para os meses de
setembro, outubro e novembro, que fazem parte do B-0-R-O Bró, período
em que o Estado tem baixa umidade do ar e chuvas escassas. Os efeitos incluem
maior ressecamento da vegetação e do solo, e impactos sobre recursos hídricos,
agricultura, além de risco de incêndios florestais.
No Ceará, o segundo semestre tem peso
especial no planejamento e debate do uso de água. Quando os Comitês das
Bacias Hidrográficas mais atuam para executar a gestão do abastecimento, com
base nos resultados da quadra chuvosa que passou.
Até a primeira quinzena de maio, o Ceará
registrou chuvas "levemente dentro da normalidade", com um volume
acumulado de 632,8 mm entre 1º de fevereiro e 15 de maio. Até ontem, 23, a
capacidade preenchida dos açudes cearenses era de 53,66%.
O forte El Niño que se anuncia alerta para
uma possível falta de água, mas sobretudo expõe, na prática, os efeitos
da crise climática global. Matéria do O POVO de maio deste ano
mostrou que, em Fortaleza, tem chovido mais em menos tempo, especialmente entre
2020 e 2026.
Temporais inesperados, enchentes, pessoas
desabrigadas, mortes, cidades alagadas, desabamentos, desastres
ambientais, doenças… essas são algumas consequências de chuvas intensas em um
curto período de tempo.
Os poderes público e Legislativo precisam
estar também em alerta para as demandas que surgem com um processo de estiagem
severa e de eventos extremos. É preciso planejamento para que as cidades sejam
mais adaptadas e resilientes, com sistemas eficazes de drenagem,
abastecimento e saneamento.
Ciente de que um forte El Niño está chegando,
o setor econômico precisa se preparar para subsidiar o impacto no
preço dos alimentos. Todos precisam agir.
Dada a história de um Estado que sofre com as
consequências da seca e que possui cidades que não têm infraestrutura
para a velocidade dos adensamentos, será necessário pensar em planos de
contingência que deem conta das ondas de calor e priorizem o acesso à Saúde.
Cada El Niño é único e seus efeitos podem ser sempre diferenciados. É um fenômeno natural que não pode ser interrompido e que demanda a atuação humana para que seus impactos sejam reduzidos. Sob pena de, mais uma vez, colhermos consequências drásticas do que já sabíamos que poderia acontecer.

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