Pluralismo é crítico para as universidades
Por O Globo
Professores reagem à intolerância e ao
radicalismo com manifesto em defesa da liberdade acadêmica
Universidades deveriam ser espaços abertos ao
pensamento livre, ao debate de ideias, à convivência entre diferentes visões
políticas, ideológicas, religiosas ou de comportamento. Infelizmente, não é o
que se tem visto no Brasil. Em vez de abrirem as portas a divergências e
discussões produtivas, as instituições de ensino superior — em especial as
públicas — têm se fechado como redutos de radicalismo, intolerância, censura e
pensamento único. Por isso foi um sopro de sensatez o manifesto divulgado por
um grupo de docentes e pesquisadores de diferentes partes do país em defesa do
pluralismo e da liberdade acadêmica.
Manifestações e críticas são frequentes no ambiente universitário. Devem ser não apenas toleradas, mas encorajadas, desde que transcorram em clima pacífico e respeitoso. Não é o caso dos sucessivos episódios de cancelamento de eventos, abaixo-assinado contra professores e pesquisadores, boicote a aulas, campanhas sórdidas em redes sociais, intimidação a palestrantes e até agressão física. Está em xeque a própria essência da universidade: acolher todas as correntes de pensamento.
Um dos muitos episódios que ilustram a
distorção foi o cerco à vereadora de São Paulo e ex-deputada estadual Janaina
Paschoal. Em 2023, estudantes da USP fizeram um abaixo-assinado para tentar
impedi-la de retornar como professora da Faculdade de Direito. Não por qualquer
ressalva a currículo ou credenciais acadêmicas. Alegaram que a atuação política
de Janaina — signatária do pedido de impeachment de Dilma Rousseff e apoiadora
de Jair Bolsonaro em 2018 — era incompatível com os valores democráticos da
instituição. Foi tratada como persona non grata — atitude inaceitável.
Alguns casos não ficaram só na intimidação. O
advogado Jeffrey Chiquini e o vereador Guilherme Kilter foram impedidos de dar
uma palestra sobre o Supremo na UFPR. Foram hostilizados e empurrados. Na
Unesp, o professor Gabriel Cepaluni foi agredido por alunos no campus de
Franca. Sob gritos de “racista” e “assediador”, levou socos e chutes, suas
roupas foram rasgadas. Em 2016, na UFPI, o professor de filosofia Ramon Lima
foi cercado por alunos do Centro de Ciências Humanas. Acusado de racismo e
machismo, chegou a ficar trancado numa sala. Foi libertado sob proteção da
polícia com colete à prova de balas. Os três casos são uma pequena parte da
extensa pesquisa “Restrições à liberdade acadêmica”, realizada por UFF, USP e
UFPR.
Não surpreende que a imagem da academia tenha
derretido aos olhos da sociedade. Em 2025, 59% diziam confiar pouco ou não
confiar em universidades públicas, segundo pesquisa da More in Common. Mais da
metade (54%) acredita que promovem mais ideologia que ensino de qualidade. Para
que recuperem a confiança e cumpram sua missão de formação e produção de
conhecimento, dizem os autores do manifesto, é necessário que se comprometam
com três aspectos fundamentais: neutralidade institucional, liberdade acadêmica
e pluralismo.
Estudantes que intimidam, cancelam, boicotam
e agridem quem discorda conspiram contra a democracia e a missão acadêmica. A
responsabilidade cabe também às instituições. É preciso rechaçar o ativismo
militante, garantir a liberdade e se esforçar para abrigar vozes divergentes.
Só assim as universidades poderão ser palco do debate robusto de onde surgem as
melhores ideias — e o melhor conhecimento.
Remoção de barricadas do PCC é só primeiro
passo para conter seu poder
Por O Globo
Desde que facção criminosa levou o terror a
São Paulo há 20 anos, ela se globalizou — e a situação se agravou
Há 20 anos, a maior cidade do país se viu
refém da facção criminosa PCC, que impôs
o terror à população com ataques coordenados, cujo auge se deu no dia 15 de
maio. Os atos de violência, tema do
podcast “PCC, o salve geral”, lançado pelo GLOBO e pela Rádio
CBN, foram deflagrados depois do anúncio da transferência de 765 presos a uma
penitenciária com regras mais rígidas. Os atentados, antecipação da escalada de
poder do crime organizado, deixaram ruas vazias, provocaram o fechamento de
escolas, repartições e empresas, afetando severamente a rotina dos moradores.
Duas décadas depois, a situação só se
agravou. O PCC, que disputa as principais rotas do tráfico com o Comando
Vermelho (CV), tornou-se uma multinacional do crime. No mês passado, reportagem
do jornal Wall Street Journal mostrou que a facção nascida nas prisões
paulistas se tornou uma organização com presença em diferentes continentes. No
Brasil, o PCC mantém controle rígido sobre seus feudos. Transformou a favela de
Paraisópolis, na Zona Sul paulistana, em seu centro de comando, implantando ali
métodos adotados pelo CV no Rio. As estratégias incluem delimitar território
com barricadas, cobrar taxas de comerciantes, monitorar organizações sociais e
incentivar protestos de moradores.
Em tal contexto, foi oportuna a ação da
Polícia Militar de São Paulo que removeu barricadas em vias de acesso a
Paraisópolis. “Não haverá lugar em São Paulo onde a polícia não entre ou onde o
Estado seja impedido de atuar”, disse o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Os bloqueios com estacas metálicas, carcaças de veículos ou blocos de concreto
têm o objetivo de impedir ou dificultar a entrada da polícia. Infelizmente, a
prática das barricadas tem se disseminado, numa afronta ao direito de ir e vir.
No Rio, o governo diz ter mapeado 13,6 mil pontos de bloqueio na capital e em
cidades vizinhas e implantou o programa Barricada Zero, que visa a remover as
estruturas.
É inaceitável que bandidos queiram delimitar
territórios usurpados do Estado à base de fuzis. Além de subjugar moradores,
privam os cidadãos de ser atendidos por ambulâncias, bombeiros, correios ou
caminhões de mudança. No vácuo do Estado, se acham donos das comunidades onde
se instalam. Nesses territórios, onde mantêm arsenal considerável, criam
fortalezas onde vivem entrincheirados. As barricadas são apenas a face visível
de um poder nefasto que, como demonstram os atentados de 2006, pode extravasar
seus domínios a qualquer momento.
Remover barreiras é só um primeiro passo. O objetivo primordial deve ser retomar os territórios, de modo a oferecer serviços de educação, saúde, assistência social, cidadania, urbanismo ou habitação. Para isso, a polícia precisa combater esses grupos armados com operações permanentes e planos de ocupação bem estruturados. Enquanto comunidades e bairros inteiros estiverem dominados por facções e milícias, os bandidos se acharão no direito de trancar a porta do espaço público ou de impor o terror à população.
Oportunidade rara
Por Folha de S. Paulo
Projeto que cria política de minerais
críticos avança no Congresso sem estapafúrdia ideia de estatal do PT
Brasil, detentor de reservas expressivas, tem
chance de ser ator relevante
Mesmo com dispositivos a serem aperfeiçoados,
é um avanço a aprovação, pela Câmara dos
Deputados, do texto-base do projeto que institui a Política Nacional
de Minerais
Críticos e Estratégicos.
Em um contexto geopolítico marcado pela busca
por segurança do suprimento de materiais essenciais à transição energética, à
defesa e às tecnologias digitais, o Brasil, detentor de reservas expressivas,
tem a chance de se posicionar como ator relevante.
Os minerais críticos e estratégicos —o grupo
de cerca de 17 terras raras, além de lítio, nióbio, grafite, cobalto e outros—
são indispensáveis para a fabricação de ímãs permanentes usados em motores
elétricos, baterias, semicondutores, sistemas de defesa e eletrônicos de alta
performance.
Além da extração, a China domina cerca de 90%
do refino global, adotando uma política de preços baixos que inviabilizou até
aqui a presença de agentes privados de outros países. A concentração cria
riscos geopolíticos, tornando urgente a diversificação do fornecimento.
O texto busca estimular a agregação de valor
local em projetos de longa maturação e elevado risco. Cria-se o Conselho
Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos, ligado à
Presidência, com maioria de indicações do Executivo.
O órgão definirá a lista de minerais
prioritários cobertos. Há a previsão da necessidade de homologação de operações
societárias, parcerias internacionais e vendas de ativos. O escrutínio das
estruturas empresariais pode ser importante para garantir o interesse nacional,
mas há preocupações no setor privado quanto à possibilidade
de interferência excessiva do governo.
Cabe ao Senado avaliar
com maior cuidado tal prerrogativa. É preciso evitar insegurança jurídica ou
caprichos governamentais, e eventuais intervenções devem ter escopo restrito
—talvez, por exemplo, em casos envolvendo controle estrangeiro.
O diploma também abre espaço para incentivos
tributários de até R$ 5 bilhões (entre 2030 e 2034),
condicionados ao beneficiamento e à industrialização no Brasil, além da criação
de um fundo de natureza privada com aporte inicial da União de até R$ 2 bilhões
para mitigação de riscos de crédito e preços, com contrapartidas das empresas.
Aqui se incorre no velho risco de subsídios
temporários se tornarem permanentes, ainda que haja lógica na tentativa de
priorizar o processamento local.
Com o domínio chinês, dificilmente os
projetos terão viabilidade comercial sem mecanismos como garantia de compra por
empresas ou alinhamentos com governos. No caso brasileiro, de todo modo, tal
etapa só seria atingida após 2030.
Felizmente, por fim, não prosperou a
estapafúrdia ideia de criação de uma estatal, a Terrabras, defendida
por setores do PT em
projetos paralelos. O país precisa de pragmatismo e investimentos, não de
ideologia.
Combater roubo de celulares vai além do
ladrão da esquina
Por Folha de S. Paulo
Epidemia criminosa que assola São Paulo clama
por mais policiamento ostensivo e asfixia das gangues
É preciso priorizar receptadores e o mercado
paralelo; proprietário deve observar a procedência de onde faz a aquisição de
seus aparelhos
A ação é rotineira e dura só alguns segundos:
a pancada assustadora na janela; o vidro estilhaçado; o indivíduo que
rapidamente invade o veículo, toma o celular e desaparece pelas ruas. Resta à
vítima, quando escapa ilesa, um misto de choque, impotência e perplexidade.
A prática da
chamada "gangue do quebra-vidros" —ou gangues, porque
está disseminada por várias regiões de São Paulo— tornou-se um pavor na cidade.
Mas não é a única: outras ações violentas
incluem ladrões em motos ou bicicletas que apanham o telefone das mãos de
pedestres; e há também as mais sutis, que furtam o aparelho no ônibus ou no
metrô, sem a vítima notar.
Seja de qual forma for, a modalidade criminosa
ganhou contornos epidêmicos e atinge indistintamente todas as classes sociais.
Em Pinheiros, bairro da zona oeste que lidera
as ocorrências, 23
celulares foram levados todos os dias, em média, só no primeiro
trimestre. Em 2025, segundo dados do governo Tarcísio de Freitas
(Republicanos), foram registrados 154 mil roubos e furtos —uma média de 422 por
dia.
A gestão tem realizado operações policiais
contra as gangues para coibir o delito, quase sempre executado por homens
jovens, mas também por adolescentes.
Esse combate, contudo, deve ir muito além. Os
assaltantes são apenas a linha de frente de uma cadeia organizada, que recebe
aparelhos para abastecer o mercado paralelo de peças e de falsos
"usados", vendidos em regiões como a da Santa Ifigênia, o maior polo
eletrônico do país.
Boa parte é
enviada a países africanos, em parceria com quadrilhas
internacionais, onde são desbloqueados e revendidos.
O telefone celular é um bem que chega a valer
alguns milhares de reais, mas, atualmente, o prejuízo pode ser maior. Estão lá
contatos pessoais, fotos e vídeos de família, dados de trajetos do GPS,
assuntos privados e acesso a senhas e aplicativos bancários.
Alguns desses bandidos, como se não bastasse
o revés material, ainda expõem nas redes sociais imagens íntimas armazenadas
nos aparelhos —caso de uma jovem brincando com o seu filho bebê, como noticiou
a Folha.
A mitigação exige policiamento ostensivo, com
inteligência, mapeamento e monitoramento por câmeras das áreas mais sensíveis.
Mas isso será insuficiente se o foco principal não for o desmantelamento dos
receptadores profissionais e do comércio ilegal.
Para o proprietário, além de redobrar o cuidado, cumpre, como dever de cidadão, observar a procedência de onde faz a aquisição e manutenção de seus aparelhos.
O Brasil escolheu o atraso
Por O Estado de S. Paulo
Décadas de baixo crescimento econômico, como
mostra o FMI, refletem decisões erradas, falta de reformas estruturantes e
preponderância de interesses políticos de curtíssimo prazo
O Brasil, há décadas, cresce em movimentos
espasmódicos e sempre aquém de seu potencial. Logo, seria de esperar que, em
ano eleitoral, todos os candidatos à Presidência da República que se pretendem
sérios apresentassem à sociedade, dia sim e outro também, não apenas uma
genuína preocupação com esse problema, como respostas para uma questão
fundamental: como tirar o País do atoleiro?
Não é isso o que se vê, obviamente – e os
números do Fundo Monetário Internacional (FMI) expõem a dimensão da omissão.
Entre 1980 e 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita global cresceu
675%, enquanto no Brasil, no mesmo período, a alta foi de 428%. Essa
disparidade, longe de ser trivial, é o retrato mais bem acabado de uma
deliberada opção pelo atraso.
Calculados em Paridade de Poder de Compra
(PPP, na sigla em inglês), os dados do FMI tornam a comparação mais justa e o
contraste mais vergonhoso. Desde 2015, o rendimento médio global supera o
brasileiro, um marco que, não por coincidência, está atrelado à profunda
recessão do biênio 2015-2016, quando a economia brasileira encolheu mais de 3%
ao ano sob os desatinos do governo Dilma Rousseff. Se não criou o problema,
aquela crise o escancarou com tintas que mantêm seus matizes até hoje.
De forma complementar, um estudo do
economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, com base na Penn World Table,
um banco de dados econômicos da Universidade de Groningen (Holanda), indica que
o PIB per capita do País poderia ser hoje 42% maior se o Brasil tivesse
acompanhado o ritmo de crescimento de economias como as da Coreia do Sul,
Botsuana e Romênia, que saíram de patamares semelhantes aos do Brasil na década
de 1980. “Dos anos 1980 até o Plano Real, foram quase 15 anos de crise
profunda. De partida, já perdemos todos esses anos”, afirmou Vale. Desde então,
o País só faz “correr atrás do prejuízo”, como disse o economista, sem jamais
ter encontrado o caminho do crescimento sustentável.
As causas desse desempenho medíocre são
sobejamente conhecidas. A produtividade é baixíssima em comparação com
economias mais desenvolvidas, a educação falha reiteradamente em formar capital
humano competitivo, o ambiente de negócios é hostil por sua enlouquecedora
complexidade normativa, e o sistema tributário, um “manicômio” que a reforma tributária
mal começou a resolver. O Estado é inchado, perdulário e ineficiente. O
Orçamento da União é engessado. Os investimentos, quando existem, são
insuficientes. A infraestrutura é deficiente e incapaz de dotar o Brasil das
condições para crescer em toda a sua plenitude. O desenvolvimento industrial e
a inovação tecnológica são questões laterais, tímidas. Some-se a todos esses
problemas a eterna instabilidade macroeconômica, frequentemente agravada por
decisões políticas orientadas por interesses imediatistas, não raro
eleitoreiros.
Nada disso, contudo, está no centro do debate
eleitoral. Em seu lugar, viceja o populismo que caminha na direção
diametralmente oposta à necessária. Veja-se como exemplo de nossa afeição pela
miséria intelectual a discussão sobre o fim da escala de trabalho 6x1. Por si
só, o mérito da proposta já é questionável. Mas, ainda assim, tanto o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva como o Congresso – governo e oposição –
parecem unidos pelo interesse eleitoral de alçar um tema dessa natureza à
Constituição, agravando a já excessiva rigidez normativa do País. Numa economia
que precisa ganhar eficiência, medidas como o fim da escala 6x1 só tendem a
agravar o problema da baixa produtividade. Mas quem, em Brasília, parece estar
preocupado com isso em ano eleitoral?
E assim patina o País. A recorrência desse
padrão de debate indigente é reveladora da dificuldade crônica da chamada
classe política brasileira em lidar com horizontes de longo prazo de forma
minimamente racional. Eleição após eleição, prevalece o cálculo imediato,
enquanto as grandes reformas capazes de sustentar o crescimento do Brasil ficam
sempre para depois, sabe-se lá quando.
O resultado aí está. Um país que avançou
menos do que poderia e menos até do que nações como Botsuana, Coreia do Sul e
Romênia. A advertência de Nelson Rodrigues, segundo a qual “o
subdesenvolvimento não se improvisa”, segue viva. O Brasil precisa decidir se
continuará ignorando-a.
Brincando com fogo
Por O Estado de S. Paulo
Na expectativa de melhorar o humor dos
brasileiros e angariar votos pela reeleição, Lula pretende incentivar
consumidores que pagam suas contas em dia a também se endividar
O governo Lula não se emenda. Mal anunciou
uma nova edição do Desenrola, programa de renegociação de dívidas para
consumidores inadimplentes, ou seja, com contas em atraso entre três meses e
dois anos, o Executivo já se prepara para lançar uma nova etapa da iniciativa.
O foco serão os clientes que honram seus compromissos em dia, mas que estão com
o orçamento apertado, além de trabalhadores informais. A proposta, segundo o
ministro da Fazenda, Dario Durigan, deve sair até o início de junho, quatro
meses antes da disputa presidencial.
Se alguém ainda desconfiava do caráter
eleitoreiro do Desenrola, o Executivo não deixou qualquer espaço para dúvidas.
Nada mais sintomático do desespero de um governo do que um programa que se
dispõe a renegociar a dívida de quem consegue pagá-la em dia. Na avaliação de
Durigan, será um “estímulo” para que eles continuem adimplentes.
Não se discute a eventual dificuldade que as
pessoas tenham para honrar seus débitos, mas o fato é que há um incentivo
tácito para que não o façam. Quem paga as contas em dia tem toda a razão de se
sentir ludibriado. Afinal, o socorro público sempre vem, especialmente quando
as pesquisas indicam que o incumbente está em maus lençóis.
O secretário-executivo do Ministério da
Fazenda, Rogério Ceron, rasgou a fantasia em entrevista ao Estadão/Broadcast. Segundo ele, a
depender da política pública, “não necessariamente precisa ter um corte de
renda”. E acrescentou: “Queremos ter a sensação de que fizemos algo para todo
mundo, com razoabilidade e técnica”.
Não se trata de exclusividade do lulopetismo.
Em 2022, quando disputou a reeleição e também estava mal posicionado nas
pesquisas, o então presidente, Jair Bolsonaro, por meio de medida provisória,
autorizou beneficiários do Bolsa Família, à época chamado de Auxílio Brasil, e
do Benefício de Prestação Continuada (BPC) a tomarem empréstimos consignados,
elevou a margem de comprometimento da renda de aposentados e pensionistas com
essas operações e perdoou as dívidas de universitários com o Fundo de Financiamento
Estudantil (Fies).
Estudantes, mais uma vez, são um dos
principais públicos da segunda etapa do Desenrola, assim como micro e pequenos
empreendedores e agricultores familiares. A lógica das renegociações é a mesma,
o que muda são apenas a forma e, às vezes, o público. Como bem disse a
ex-presidente Dilma Rousseff, o governo faz “o diabo” quando está próximo da
eleição.
O problema é que a conta sempre chega, e os
recordes em índices de endividamento e inadimplência registrados neste ano já
deveriam ter ensinado algo aos governantes. Socorros não passam de soluções
paliativas para um problema maior e complexo: o excesso de gastos do governo,
que impede a redução estrutural dos juros, única maneira de tornar as taxas de
empréstimos mais acessíveis para a população consumir e o setor privado
investir.
Não é de hoje que o Banco Central (BC)
alerta, reunião após reunião, que a falta de reformas estruturais, políticas de
crédito direcionado e o comportamento da dívida pública elevam a taxa de juros
neutra da economia, reduzem a potência da política monetária e aumentam o custo
da desinflação. Não é preciso ser um economista para saber que todas essas
iniciativas que o governo tem anunciado aumentarão o endividamento público e
contribuirão para manter a inflação pressionada e acima do centro da meta.
Em outras palavras, ao tentar baixar os juros
na marra, o Executivo boicota ativamente o trabalho do Banco Central, que é,
basicamente, perseguir a meta de inflação que o próprio governo definiu por
meio do Conselho Monetário Nacional (CMN), no qual, inclusive, tem maioria de
votos.
A equipe econômica, por sua vez, está em
negação e prefere culpar o termômetro – e não a doença – pela febre alta. A
despeito da inegável escalada da dívida pública ao longo do governo petista,
tanto Durigan quanto Ceron atribuem a responsabilidade à Selic e descartam a
necessidade de um choque fiscal em 2027. No fundo, o governo dá o exemplo, e a
leniência que demonstra ter com os encalacrados é a mesma que tem consigo
mesmo.
Terras raras, desafio comum
Por O Estado de S. Paulo
Marco aprovado pelo Congresso não elimina
obstáculos para transformar potencial em riqueza
A aprovação do marco regulatório para
exploração de minerais críticos e terras raras pela Câmara revela um senso de
oportunidade política compreensível diante da corrida global por recursos
considerados estratégicos para a transição energética, a indústria de
tecnologia e a disputa comercial entre Estados Unidos e China. O tema ganhou
prioridade internacional e entrou definitivamente no vocabulário geopolítico do
século 21.
Nesse contexto, é natural que o Brasil busque
se posicionar. O País reúne reservas relevantes e aparece nas listas de nações
com potencial para ampliar a oferta global desses minerais. A movimentação
recente do governo Donald Trump em torno do assunto reforçou a percepção de que
se trata de um mercado com peso crescente na reorganização econômica mundial.
O texto aprovado pela Câmara cria a Política Nacional
de Minerais Críticos e Estratégicos, prevê um fundo garantidor para estimular
projetos do setor, autoriza participação da União em um fundo privado com
limite de R$ 2 bilhões e estabelece um programa de crédito tributário de até R$
5 bilhões para empresas que realizarem etapas de beneficiamento e transformação
mineral no País.
O risco está em transformar potencial em
euforia. A aprovação de um marco legal pode representar um passo importante
para organizar regras e oferecer previsibilidade ao setor. Mas está muito longe
de significar, por si só, a criação de uma indústria nacional robusta de
minerais críticos. Entre a existência de reservas minerais e a consolidação de
uma cadeia econômica competitiva, há um percurso longo, caro e tecnicamente
complexo.
A exploração desse tipo de recurso exige
investimentos bilionários, tecnologia sofisticada, infraestrutura logística,
capacidade de processamento industrial e acesso a mercados internacionais
concentrados. Em muitos casos, o verdadeiro valor econômico não está apenas na
extração do minério bruto, mas nas etapas posteriores de refino, transformação
e desenvolvimento tecnológico.
O País possui longa tradição de exportador de
commodities minerais e agrícolas sem conseguir converter integralmente essa
riqueza em capacidade industrial de maior valor agregado. A simples ampliação
da extração de terras raras não resolverá esse problema histórico.
Também convém evitar outro vício recorrente
da política industrial brasileira: a crença de que determinados setores
estratégicos podem sobreviver indefinidamente apoiados em subsídios públicos. O
histórico nacional está repleto de programas concebidos como estímulos
temporários e que acabaram transformados em dependências permanentes do Estado.
O desafio das terras raras exige cuidado semelhante. Faz sentido discutir mecanismos de indução econômica para um setor nascente e competitivo. O problema começa quando o incentivo deixa de funcionar como ponte para a autonomia produtiva e passa a operar como muleta permanente para atividades incapazes de se sustentar sem proteção estatal contínua. O verdadeiro desafio começará após a lei que ainda precisa ser aprovada pelo Senado.
Revisão necessária da morte de JK
Por Correio Braziliense
Por décadas, a morte de Juscelino Kubitschek
foi tratada como uma fatalidade. Em nome da democracia, é justo e necessário
que se estabeleça a verdade sobre este grande brasileiro
O Brasil está a poucos meses de ter um
reencontro importante com a história. No próximo 22 de agosto, completam-se 50
anos da morte de Juscelino Kubitschek de Oliveira, fundador de Brasília e
considerado por muitos o maior estadista do país. Homem público que mudou o
rumo do desenvolvimento econômico brasileiro e aprofundou a integração
nacional, Juscelino era, além e acima de tudo, um democrata. E, como tal, foi
implacavelmente perseguido pelo regime de repressão.
Após deixar a Presidência da República, JK
elegeu-se senador por Goiás em 1961. Mas o golpe militar de 1964 cassou-lhe o
mandato parlamentar. A perseguição política obrigou Juscelino a se exilar na
França, onde permaneceu até 1967. Ele volta ao Brasil, mas é proibido pelo
governo Médici de visitar a capital federal. Em 1976, pouco antes de completar
74 anos, JK morre em decorrência de um acidente de carro na Rodovia
Dutra.
Por décadas, a morte de Juscelino Kubitschek
foi tratada como uma fatalidade. Essa versão oficial, sempre colocada em
dúvida, foi seriamente contestada com a revelação do que um relatório produzido
pela Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) concluiu: o
ex-presidente foi vítima de um atentado político. Fruto de investigações
recentes, o documento de 5 mil páginas será votado pelos integrantes do
colegiado.
Neta de JK e presidente do Memorial em
homenagem ao fundador de Brasília, Anna Cristina Kubitschek acredita que a
revisão do que aconteceu com o avô "representa um passo importante para a
verdade histórica no Brasil". E acrescenta:
"A família considera fundamental que o Brasil enfrente sua história com
coragem e transparência. Caso a CEMDP conclua, oficialmente, que JK foi vítima
de um atentado político, será um reconhecimento histórico necessário — não
apenas para sua memória, mas para todas as vítimas da violência do Estado".
Recentemente, o Brasil e o mundo se comoveram
com o premiado filme Ainda estou aqui. A obra faz uma revisão histórica da
morte de Rubens Paiva, sequestrado, torturado e assassinado pela ditadura
militar em 1971. Retrata ainda a luta incansável de Eunice Paiva, personagem
central no esforço das famílias que buscam o reconhecimento oficial e a
reparação por abusos cometidos por agentes do Estado durante o regime militar.
A morte de JK também se insere nesse contexto.
Para se fortalecer como democracia, o Brasil
precisa trazer à luz o que permanece nas sombras da história. O caso de JK é
emblemático, pois simboliza o anseio de milhares de brasileiros que sofrem até
hoje as consequências pela perda de seus entes queridos. A construção da
verdade também significa um marco civilizatório, pois sociedades evoluem quando
conhecem a própria história.
Ao morrer, em 1976, Juscelino Kubitschek recebeu uma homenagem histórica na cidade que construiu. Carregado por milhares de candangos, o féretro com o corpo do ex-presidente percorreu as avenidas de Brasília, na primeira manifestação política relevante da capital federal. Em nome da democracia, é justo e necessário que se estabeleça a verdade sobre este grande brasileiro.
Um ano do pontificado do papa Leão XIV
Por O Povo (CE)
O papa Leão XIV chega, neste mês de maio, ao
primeiro ano de seu pontificado. Era 8 de maio de 2025 quando a eleição do
então cardeal surpreendeu o mundo, porque as especulações à época praticamente
descartavam a escolha de um norte-americano. Da sacada central da Basílica de
São Pedro, Robert Francis Prevost, nascido em Chicago (EUA), com uma larga
vivência eclesial latino-americana, no Peru, se tornava papa. A grande parte
dos apostadores para o nome do novo papa excluía os cardeais provenientes da
América Latina. Foi, no entanto, eleito um que tem até cidadania peruana.
Desde então, uma série de atividades tem
marcado a missão de Leão XIV. No ano de 2025, em meio ao Jubileu da Esperança,
o papa participou das audiências jubilares e de diversos momentos com os
peregrinos. Um dos pontos altos de seu pontificado foi a primeira canonização,
que ocorreu em 7 de setembro, quando foram elevados às honras dos altares São
Carlo Acutis e São Pier Giorgio Frassati.
Em novembro, realizou sua primeira viagem
apostólica, visitando a Turquia e o Líbano em uma jornada marcada pelo diálogo
ecumênico e inter-religioso. Neste ano, realizou uma série de visitas pastorais
a paróquias em Roma e viajou para Mônaco, em sua segunda viagem apostólica.
Outro momento relevante foi a Via-Sacra no Coliseu, em que carregou a cruz em
toda a meditação das estações, o que considerou um "sinal importante por
aquilo que o papa representa". Recentemente, fez uma incursão de 11 dias
pela África, passando por Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial. Em suas
falas, chamou atenção para a justiça econômica.
O papa Leão XIV também tem sido uma voz forte
contra a normalização dos conflitos e o perigo das armas nucleares. Ele
defende, de forma ativa, o diálogo entre as nações, promovendo a diplomacia e
lembrando o compromisso cotidiano com a justiça e a dignidade humana.
Essa postura parece incomodar alguns líderes
mundiais, como o presidente norte-americano Donald Trump. Depois de se tornar
um crítico firme da guerra EUA-Israel contra o Irã e das políticas rígidas
anti-imigração do governo Trump, uma crise entre os dois foi desencadeada, o
que tem causado uma série - sem precedentes, ressalte-se - de ataques públicos
ao papa nas últimas semanas. O cenário provocou reação negativa de líderes
cristãos de todo espectro político. Os ataques depreciativos que Trump promoveu
contra o líder da Igreja Católica nos últimos dias é, de fato, preocupante.
Espera-se que o diálogo e a busca pela paz sejam realmente os objetivos primeiros e maiores dos líderes, em uma conduta baseada pelo respeito e pela busca do bem mundial. A paz se tornou um tema central do pontificado do primeiro papa norte-americano, que prega uma cultura de escuta ativa e mútua. Que o exemplo de Leão XIV, de não se submeter aos caprichos de quem insiste na guerra, continue a permear seu pontificado.

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