domingo, 10 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Pluralismo é crítico para as universidades

Por O Globo

Professores reagem à intolerância e ao radicalismo com manifesto em defesa da liberdade acadêmica

Universidades deveriam ser espaços abertos ao pensamento livre, ao debate de ideias, à convivência entre diferentes visões políticas, ideológicas, religiosas ou de comportamento. Infelizmente, não é o que se tem visto no Brasil. Em vez de abrirem as portas a divergências e discussões produtivas, as instituições de ensino superior — em especial as públicas — têm se fechado como redutos de radicalismo, intolerância, censura e pensamento único. Por isso foi um sopro de sensatez o manifesto divulgado por um grupo de docentes e pesquisadores de diferentes partes do país em defesa do pluralismo e da liberdade acadêmica.

Manifestações e críticas são frequentes no ambiente universitário. Devem ser não apenas toleradas, mas encorajadas, desde que transcorram em clima pacífico e respeitoso. Não é o caso dos sucessivos episódios de cancelamento de eventos, abaixo-assinado contra professores e pesquisadores, boicote a aulas, campanhas sórdidas em redes sociais, intimidação a palestrantes e até agressão física. Está em xeque a própria essência da universidade: acolher todas as correntes de pensamento.

Um dos muitos episódios que ilustram a distorção foi o cerco à vereadora de São Paulo e ex-deputada estadual Janaina Paschoal. Em 2023, estudantes da USP fizeram um abaixo-assinado para tentar impedi-la de retornar como professora da Faculdade de Direito. Não por qualquer ressalva a currículo ou credenciais acadêmicas. Alegaram que a atuação política de Janaina — signatária do pedido de impeachment de Dilma Rousseff e apoiadora de Jair Bolsonaro em 2018 — era incompatível com os valores democráticos da instituição. Foi tratada como persona non grata — atitude inaceitável.

Alguns casos não ficaram só na intimidação. O advogado Jeffrey Chiquini e o vereador Guilherme Kilter foram impedidos de dar uma palestra sobre o Supremo na UFPR. Foram hostilizados e empurrados. Na Unesp, o professor Gabriel Cepaluni foi agredido por alunos no campus de Franca. Sob gritos de “racista” e “assediador”, levou socos e chutes, suas roupas foram rasgadas. Em 2016, na UFPI, o professor de filosofia Ramon Lima foi cercado por alunos do Centro de Ciências Humanas. Acusado de racismo e machismo, chegou a ficar trancado numa sala. Foi libertado sob proteção da polícia com colete à prova de balas. Os três casos são uma pequena parte da extensa pesquisa “Restrições à liberdade acadêmica”, realizada por UFF, USP e UFPR.

Não surpreende que a imagem da academia tenha derretido aos olhos da sociedade. Em 2025, 59% diziam confiar pouco ou não confiar em universidades públicas, segundo pesquisa da More in Common. Mais da metade (54%) acredita que promovem mais ideologia que ensino de qualidade. Para que recuperem a confiança e cumpram sua missão de formação e produção de conhecimento, dizem os autores do manifesto, é necessário que se comprometam com três aspectos fundamentais: neutralidade institucional, liberdade acadêmica e pluralismo.

Estudantes que intimidam, cancelam, boicotam e agridem quem discorda conspiram contra a democracia e a missão acadêmica. A responsabilidade cabe também às instituições. É preciso rechaçar o ativismo militante, garantir a liberdade e se esforçar para abrigar vozes divergentes. Só assim as universidades poderão ser palco do debate robusto de onde surgem as melhores ideias — e o melhor conhecimento.

Remoção de barricadas do PCC é só primeiro passo para conter seu poder

Por O Globo

Desde que facção criminosa levou o terror a São Paulo há 20 anos, ela se globalizou — e a situação se agravou

Há 20 anos, a maior cidade do país se viu refém da facção criminosa PCC, que impôs o terror à população com ataques coordenados, cujo auge se deu no dia 15 de maio. Os atos de violênciatema do podcast “PCC, o salve geral”, lançado pelo GLOBO e pela Rádio CBN, foram deflagrados depois do anúncio da transferência de 765 presos a uma penitenciária com regras mais rígidas. Os atentados, antecipação da escalada de poder do crime organizado, deixaram ruas vazias, provocaram o fechamento de escolas, repartições e empresas, afetando severamente a rotina dos moradores.

Duas décadas depois, a situação só se agravou. O PCC, que disputa as principais rotas do tráfico com o Comando Vermelho (CV), tornou-se uma multinacional do crime. No mês passado, reportagem do jornal Wall Street Journal mostrou que a facção nascida nas prisões paulistas se tornou uma organização com presença em diferentes continentes. No Brasil, o PCC mantém controle rígido sobre seus feudos. Transformou a favela de Paraisópolis, na Zona Sul paulistana, em seu centro de comando, implantando ali métodos adotados pelo CV no Rio. As estratégias incluem delimitar território com barricadas, cobrar taxas de comerciantes, monitorar organizações sociais e incentivar protestos de moradores.

Em tal contexto, foi oportuna a ação da Polícia Militar de São Paulo que removeu barricadas em vias de acesso a Paraisópolis. “Não haverá lugar em São Paulo onde a polícia não entre ou onde o Estado seja impedido de atuar”, disse o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Os bloqueios com estacas metálicas, carcaças de veículos ou blocos de concreto têm o objetivo de impedir ou dificultar a entrada da polícia. Infelizmente, a prática das barricadas tem se disseminado, numa afronta ao direito de ir e vir. No Rio, o governo diz ter mapeado 13,6 mil pontos de bloqueio na capital e em cidades vizinhas e implantou o programa Barricada Zero, que visa a remover as estruturas.

É inaceitável que bandidos queiram delimitar territórios usurpados do Estado à base de fuzis. Além de subjugar moradores, privam os cidadãos de ser atendidos por ambulâncias, bombeiros, correios ou caminhões de mudança. No vácuo do Estado, se acham donos das comunidades onde se instalam. Nesses territórios, onde mantêm arsenal considerável, criam fortalezas onde vivem entrincheirados. As barricadas são apenas a face visível de um poder nefasto que, como demonstram os atentados de 2006, pode extravasar seus domínios a qualquer momento.

Remover barreiras é só um primeiro passo. O objetivo primordial deve ser retomar os territórios, de modo a oferecer serviços de educação, saúde, assistência social, cidadania, urbanismo ou habitação. Para isso, a polícia precisa combater esses grupos armados com operações permanentes e planos de ocupação bem estruturados. Enquanto comunidades e bairros inteiros estiverem dominados por facções e milícias, os bandidos se acharão no direito de trancar a porta do espaço público ou de impor o terror à população.

Oportunidade rara

Por Folha de S. Paulo

Projeto que cria política de minerais críticos avança no Congresso sem estapafúrdia ideia de estatal do PT

Brasil, detentor de reservas expressivas, tem chance de ser ator relevante

Mesmo com dispositivos a serem aperfeiçoados, é um avanço a aprovação, pela Câmara dos Deputados, do texto-base do projeto que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.

Em um contexto geopolítico marcado pela busca por segurança do suprimento de materiais essenciais à transição energética, à defesa e às tecnologias digitais, o Brasil, detentor de reservas expressivas, tem a chance de se posicionar como ator relevante.

Os minerais críticos e estratégicos —o grupo de cerca de 17 terras raras, além de lítio, nióbio, grafite, cobalto e outros— são indispensáveis para a fabricação de ímãs permanentes usados em motores elétricos, baterias, semicondutores, sistemas de defesa e eletrônicos de alta performance.

Além da extração, a China domina cerca de 90% do refino global, adotando uma política de preços baixos que inviabilizou até aqui a presença de agentes privados de outros países. A concentração cria riscos geopolíticos, tornando urgente a diversificação do fornecimento.

O texto busca estimular a agregação de valor local em projetos de longa maturação e elevado risco. Cria-se o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos, ligado à Presidência, com maioria de indicações do Executivo.

O órgão definirá a lista de minerais prioritários cobertos. Há a previsão da necessidade de homologação de operações societárias, parcerias internacionais e vendas de ativos. O escrutínio das estruturas empresariais pode ser importante para garantir o interesse nacional, mas há preocupações no setor privado quanto à possibilidade de interferência excessiva do governo.

Cabe ao Senado avaliar com maior cuidado tal prerrogativa. É preciso evitar insegurança jurídica ou caprichos governamentais, e eventuais intervenções devem ter escopo restrito —talvez, por exemplo, em casos envolvendo controle estrangeiro.

O diploma também abre espaço para incentivos tributários de até R$ 5 bilhões (entre 2030 e 2034), condicionados ao beneficiamento e à industrialização no Brasil, além da criação de um fundo de natureza privada com aporte inicial da União de até R$ 2 bilhões para mitigação de riscos de crédito e preços, com contrapartidas das empresas.

Aqui se incorre no velho risco de subsídios temporários se tornarem permanentes, ainda que haja lógica na tentativa de priorizar o processamento local.

Com o domínio chinês, dificilmente os projetos terão viabilidade comercial sem mecanismos como garantia de compra por empresas ou alinhamentos com governos. No caso brasileiro, de todo modo, tal etapa só seria atingida após 2030.

Felizmente, por fim, não prosperou a estapafúrdia ideia de criação de uma estatal, a Terrabras, defendida por setores do PT em projetos paralelos. O país precisa de pragmatismo e investimentos, não de ideologia.

Combater roubo de celulares vai além do ladrão da esquina

Por Folha de S. Paulo

Epidemia criminosa que assola São Paulo clama por mais policiamento ostensivo e asfixia das gangues

É preciso priorizar receptadores e o mercado paralelo; proprietário deve observar a procedência de onde faz a aquisição de seus aparelhos

A ação é rotineira e dura só alguns segundos: a pancada assustadora na janela; o vidro estilhaçado; o indivíduo que rapidamente invade o veículo, toma o celular e desaparece pelas ruas. Resta à vítima, quando escapa ilesa, um misto de choque, impotência e perplexidade.

A prática da chamada "gangue do quebra-vidros" —ou gangues, porque está disseminada por várias regiões de São Paulo— tornou-se um pavor na cidade.

Mas não é a única: outras ações violentas incluem ladrões em motos ou bicicletas que apanham o telefone das mãos de pedestres; e há também as mais sutis, que furtam o aparelho no ônibus ou no metrô, sem a vítima notar.

Seja de qual forma for, a modalidade criminosa ganhou contornos epidêmicos e atinge indistintamente todas as classes sociais.

Em Pinheiros, bairro da zona oeste que lidera as ocorrências, 23 celulares foram levados todos os dias, em média, só no primeiro trimestre. Em 2025, segundo dados do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos), foram registrados 154 mil roubos e furtos —uma média de 422 por dia.

A gestão tem realizado operações policiais contra as gangues para coibir o delito, quase sempre executado por homens jovens, mas também por adolescentes.

Esse combate, contudo, deve ir muito além. Os assaltantes são apenas a linha de frente de uma cadeia organizada, que recebe aparelhos para abastecer o mercado paralelo de peças e de falsos "usados", vendidos em regiões como a da Santa Ifigênia, o maior polo eletrônico do país.

Boa parte é enviada a países africanos, em parceria com quadrilhas internacionais, onde são desbloqueados e revendidos.

O telefone celular é um bem que chega a valer alguns milhares de reais, mas, atualmente, o prejuízo pode ser maior. Estão lá contatos pessoais, fotos e vídeos de família, dados de trajetos do GPS, assuntos privados e acesso a senhas e aplicativos bancários.

Alguns desses bandidos, como se não bastasse o revés material, ainda expõem nas redes sociais imagens íntimas armazenadas nos aparelhos —caso de uma jovem brincando com o seu filho bebê, como noticiou a Folha.

A mitigação exige policiamento ostensivo, com inteligência, mapeamento e monitoramento por câmeras das áreas mais sensíveis. Mas isso será insuficiente se o foco principal não for o desmantelamento dos receptadores profissionais e do comércio ilegal.

Para o proprietário, além de redobrar o cuidado, cumpre, como dever de cidadão, observar a procedência de onde faz a aquisição e manutenção de seus aparelhos.

O Brasil escolheu o atraso

Por O Estado de S. Paulo

Décadas de baixo crescimento econômico, como mostra o FMI, refletem decisões erradas, falta de reformas estruturantes e preponderância de interesses políticos de curtíssimo prazo

O Brasil, há décadas, cresce em movimentos espasmódicos e sempre aquém de seu potencial. Logo, seria de esperar que, em ano eleitoral, todos os candidatos à Presidência da República que se pretendem sérios apresentassem à sociedade, dia sim e outro também, não apenas uma genuína preocupação com esse problema, como respostas para uma questão fundamental: como tirar o País do atoleiro?

Não é isso o que se vê, obviamente – e os números do Fundo Monetário Internacional (FMI) expõem a dimensão da omissão. Entre 1980 e 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita global cresceu 675%, enquanto no Brasil, no mesmo período, a alta foi de 428%. Essa disparidade, longe de ser trivial, é o retrato mais bem acabado de uma deliberada opção pelo atraso.

Calculados em Paridade de Poder de Compra (PPP, na sigla em inglês), os dados do FMI tornam a comparação mais justa e o contraste mais vergonhoso. Desde 2015, o rendimento médio global supera o brasileiro, um marco que, não por coincidência, está atrelado à profunda recessão do biênio 2015-2016, quando a economia brasileira encolheu mais de 3% ao ano sob os desatinos do governo Dilma Rousseff. Se não criou o problema, aquela crise o escancarou com tintas que mantêm seus matizes até hoje.

De forma complementar, um estudo do economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, com base na Penn World Table, um banco de dados econômicos da Universidade de Groningen (Holanda), indica que o PIB per capita do País poderia ser hoje 42% maior se o Brasil tivesse acompanhado o ritmo de crescimento de economias como as da Coreia do Sul, Botsuana e Romênia, que saíram de patamares semelhantes aos do Brasil na década de 1980. “Dos anos 1980 até o Plano Real, foram quase 15 anos de crise profunda. De partida, já perdemos todos esses anos”, afirmou Vale. Desde então, o País só faz “correr atrás do prejuízo”, como disse o economista, sem jamais ter encontrado o caminho do crescimento sustentável.

As causas desse desempenho medíocre são sobejamente conhecidas. A produtividade é baixíssima em comparação com economias mais desenvolvidas, a educação falha reiteradamente em formar capital humano competitivo, o ambiente de negócios é hostil por sua enlouquecedora complexidade normativa, e o sistema tributário, um “manicômio” que a reforma tributária mal começou a resolver. O Estado é inchado, perdulário e ineficiente. O Orçamento da União é engessado. Os investimentos, quando existem, são insuficientes. A infraestrutura é deficiente e incapaz de dotar o Brasil das condições para crescer em toda a sua plenitude. O desenvolvimento industrial e a inovação tecnológica são questões laterais, tímidas. Some-se a todos esses problemas a eterna instabilidade macroeconômica, frequentemente agravada por decisões políticas orientadas por interesses imediatistas, não raro eleitoreiros.

Nada disso, contudo, está no centro do debate eleitoral. Em seu lugar, viceja o populismo que caminha na direção diametralmente oposta à necessária. Veja-se como exemplo de nossa afeição pela miséria intelectual a discussão sobre o fim da escala de trabalho 6x1. Por si só, o mérito da proposta já é questionável. Mas, ainda assim, tanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como o Congresso – governo e oposição – parecem unidos pelo interesse eleitoral de alçar um tema dessa natureza à Constituição, agravando a já excessiva rigidez normativa do País. Numa economia que precisa ganhar eficiência, medidas como o fim da escala 6x1 só tendem a agravar o problema da baixa produtividade. Mas quem, em Brasília, parece estar preocupado com isso em ano eleitoral?

E assim patina o País. A recorrência desse padrão de debate indigente é reveladora da dificuldade crônica da chamada classe política brasileira em lidar com horizontes de longo prazo de forma minimamente racional. Eleição após eleição, prevalece o cálculo imediato, enquanto as grandes reformas capazes de sustentar o crescimento do Brasil ficam sempre para depois, sabe-se lá quando.

O resultado aí está. Um país que avançou menos do que poderia e menos até do que nações como Botsuana, Coreia do Sul e Romênia. A advertência de Nelson Rodrigues, segundo a qual “o subdesenvolvimento não se improvisa”, segue viva. O Brasil precisa decidir se continuará ignorando-a.

Brincando com fogo

Por O Estado de S. Paulo

Na expectativa de melhorar o humor dos brasileiros e angariar votos pela reeleição, Lula pretende incentivar consumidores que pagam suas contas em dia a também se endividar

O governo Lula não se emenda. Mal anunciou uma nova edição do Desenrola, programa de renegociação de dívidas para consumidores inadimplentes, ou seja, com contas em atraso entre três meses e dois anos, o Executivo já se prepara para lançar uma nova etapa da iniciativa. O foco serão os clientes que honram seus compromissos em dia, mas que estão com o orçamento apertado, além de trabalhadores informais. A proposta, segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, deve sair até o início de junho, quatro meses antes da disputa presidencial.

Se alguém ainda desconfiava do caráter eleitoreiro do Desenrola, o Executivo não deixou qualquer espaço para dúvidas. Nada mais sintomático do desespero de um governo do que um programa que se dispõe a renegociar a dívida de quem consegue pagá-la em dia. Na avaliação de Durigan, será um “estímulo” para que eles continuem adimplentes.

Não se discute a eventual dificuldade que as pessoas tenham para honrar seus débitos, mas o fato é que há um incentivo tácito para que não o façam. Quem paga as contas em dia tem toda a razão de se sentir ludibriado. Afinal, o socorro público sempre vem, especialmente quando as pesquisas indicam que o incumbente está em maus lençóis.

O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, rasgou a fantasia em entrevista ao Estadão/Broadcast. Segundo ele, a depender da política pública, “não necessariamente precisa ter um corte de renda”. E acrescentou: “Queremos ter a sensação de que fizemos algo para todo mundo, com razoabilidade e técnica”.

Não se trata de exclusividade do lulopetismo. Em 2022, quando disputou a reeleição e também estava mal posicionado nas pesquisas, o então presidente, Jair Bolsonaro, por meio de medida provisória, autorizou beneficiários do Bolsa Família, à época chamado de Auxílio Brasil, e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) a tomarem empréstimos consignados, elevou a margem de comprometimento da renda de aposentados e pensionistas com essas operações e perdoou as dívidas de universitários com o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies).

Estudantes, mais uma vez, são um dos principais públicos da segunda etapa do Desenrola, assim como micro e pequenos empreendedores e agricultores familiares. A lógica das renegociações é a mesma, o que muda são apenas a forma e, às vezes, o público. Como bem disse a ex-presidente Dilma Rousseff, o governo faz “o diabo” quando está próximo da eleição.

O problema é que a conta sempre chega, e os recordes em índices de endividamento e inadimplência registrados neste ano já deveriam ter ensinado algo aos governantes. Socorros não passam de soluções paliativas para um problema maior e complexo: o excesso de gastos do governo, que impede a redução estrutural dos juros, única maneira de tornar as taxas de empréstimos mais acessíveis para a população consumir e o setor privado investir.

Não é de hoje que o Banco Central (BC) alerta, reunião após reunião, que a falta de reformas estruturais, políticas de crédito direcionado e o comportamento da dívida pública elevam a taxa de juros neutra da economia, reduzem a potência da política monetária e aumentam o custo da desinflação. Não é preciso ser um economista para saber que todas essas iniciativas que o governo tem anunciado aumentarão o endividamento público e contribuirão para manter a inflação pressionada e acima do centro da meta.

Em outras palavras, ao tentar baixar os juros na marra, o Executivo boicota ativamente o trabalho do Banco Central, que é, basicamente, perseguir a meta de inflação que o próprio governo definiu por meio do Conselho Monetário Nacional (CMN), no qual, inclusive, tem maioria de votos.

A equipe econômica, por sua vez, está em negação e prefere culpar o termômetro – e não a doença – pela febre alta. A despeito da inegável escalada da dívida pública ao longo do governo petista, tanto Durigan quanto Ceron atribuem a responsabilidade à Selic e descartam a necessidade de um choque fiscal em 2027. No fundo, o governo dá o exemplo, e a leniência que demonstra ter com os encalacrados é a mesma que tem consigo mesmo.

Terras raras, desafio comum

Por O Estado de S. Paulo

Marco aprovado pelo Congresso não elimina obstáculos para transformar potencial em riqueza

A aprovação do marco regulatório para exploração de minerais críticos e terras raras pela Câmara revela um senso de oportunidade política compreensível diante da corrida global por recursos considerados estratégicos para a transição energética, a indústria de tecnologia e a disputa comercial entre Estados Unidos e China. O tema ganhou prioridade internacional e entrou definitivamente no vocabulário geopolítico do século 21.

Nesse contexto, é natural que o Brasil busque se posicionar. O País reúne reservas relevantes e aparece nas listas de nações com potencial para ampliar a oferta global desses minerais. A movimentação recente do governo Donald Trump em torno do assunto reforçou a percepção de que se trata de um mercado com peso crescente na reorganização econômica mundial.

O texto aprovado pela Câmara cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, prevê um fundo garantidor para estimular projetos do setor, autoriza participação da União em um fundo privado com limite de R$ 2 bilhões e estabelece um programa de crédito tributário de até R$ 5 bilhões para empresas que realizarem etapas de beneficiamento e transformação mineral no País.

O risco está em transformar potencial em euforia. A aprovação de um marco legal pode representar um passo importante para organizar regras e oferecer previsibilidade ao setor. Mas está muito longe de significar, por si só, a criação de uma indústria nacional robusta de minerais críticos. Entre a existência de reservas minerais e a consolidação de uma cadeia econômica competitiva, há um percurso longo, caro e tecnicamente complexo.

A exploração desse tipo de recurso exige investimentos bilionários, tecnologia sofisticada, infraestrutura logística, capacidade de processamento industrial e acesso a mercados internacionais concentrados. Em muitos casos, o verdadeiro valor econômico não está apenas na extração do minério bruto, mas nas etapas posteriores de refino, transformação e desenvolvimento tecnológico.

O País possui longa tradição de exportador de commodities minerais e agrícolas sem conseguir converter integralmente essa riqueza em capacidade industrial de maior valor agregado. A simples ampliação da extração de terras raras não resolverá esse problema histórico.

Também convém evitar outro vício recorrente da política industrial brasileira: a crença de que determinados setores estratégicos podem sobreviver indefinidamente apoiados em subsídios públicos. O histórico nacional está repleto de programas concebidos como estímulos temporários e que acabaram transformados em dependências permanentes do Estado.

O desafio das terras raras exige cuidado semelhante. Faz sentido discutir mecanismos de indução econômica para um setor nascente e competitivo. O problema começa quando o incentivo deixa de funcionar como ponte para a autonomia produtiva e passa a operar como muleta permanente para atividades incapazes de se sustentar sem proteção estatal contínua. O verdadeiro desafio começará após a lei que ainda precisa ser aprovada pelo Senado.

Revisão necessária da morte de JK

Por Correio Braziliense

Por décadas, a morte de Juscelino Kubitschek foi tratada como uma fatalidade. Em nome da democracia, é justo e necessário que se estabeleça a verdade sobre este grande brasileiro

O Brasil está a poucos meses de ter um reencontro importante com a história. No próximo 22 de agosto, completam-se 50 anos da morte de Juscelino Kubitschek de Oliveira, fundador de Brasília e considerado por muitos o maior estadista do país. Homem público que mudou o rumo do desenvolvimento econômico brasileiro e aprofundou a integração nacional, Juscelino era, além e acima de tudo, um democrata. E, como tal, foi implacavelmente perseguido pelo regime de repressão. 

Após deixar a Presidência da República, JK elegeu-se senador por Goiás em 1961. Mas o golpe militar de 1964 cassou-lhe o mandato parlamentar. A perseguição política obrigou Juscelino a se exilar na França, onde permaneceu até 1967. Ele volta ao Brasil, mas é proibido pelo governo Médici de visitar a capital federal. Em 1976, pouco antes de completar 74 anos, JK morre em decorrência de um acidente de carro na Rodovia Dutra. 

Por décadas, a morte de Juscelino Kubitschek foi tratada como uma fatalidade. Essa versão oficial, sempre colocada em dúvida, foi seriamente contestada com a revelação do que um relatório produzido pela Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) concluiu: o ex-presidente foi vítima de um atentado político. Fruto de investigações recentes, o documento de 5 mil páginas será votado pelos integrantes do colegiado. 

Neta de JK e presidente do Memorial em homenagem ao fundador de Brasília, Anna Cristina Kubitschek acredita que a revisão do que aconteceu com o avô "representa um passo importante para a verdade histórica no Brasil". E acrescenta:
"A família considera fundamental que o Brasil enfrente sua história com coragem e transparência. Caso a CEMDP conclua, oficialmente, que JK foi vítima de um atentado político, será um reconhecimento histórico necessário — não apenas para sua memória, mas para todas as vítimas da violência do Estado".

Recentemente, o Brasil e o mundo se comoveram com o premiado filme Ainda estou aqui. A obra faz uma revisão histórica da morte de Rubens Paiva, sequestrado, torturado e assassinado pela ditadura militar em 1971. Retrata ainda a luta incansável de Eunice Paiva, personagem central no esforço das famílias que buscam o reconhecimento oficial e a reparação por abusos cometidos por agentes do Estado durante o regime militar. A morte de JK também se insere nesse contexto.

Para se fortalecer como democracia, o Brasil precisa trazer à luz o que permanece nas sombras da história. O caso de JK é emblemático, pois simboliza o anseio de milhares de brasileiros que sofrem até hoje as consequências pela perda de seus entes queridos. A construção da verdade também significa um marco civilizatório, pois sociedades evoluem quando conhecem a própria história. 

Ao morrer, em 1976, Juscelino Kubitschek recebeu uma homenagem histórica na cidade que construiu. Carregado por milhares de candangos, o féretro com o corpo do ex-presidente percorreu as avenidas de Brasília, na primeira manifestação política relevante da capital federal. Em nome da democracia, é justo e necessário que se estabeleça a verdade sobre este grande brasileiro.

Um ano do pontificado do papa Leão XIV

Por O Povo (CE)

O papa Leão XIV chega, neste mês de maio, ao primeiro ano de seu pontificado. Era 8 de maio de 2025 quando a eleição do então cardeal surpreendeu o mundo, porque as especulações à época praticamente descartavam a escolha de um norte-americano. Da sacada central da Basílica de São Pedro, Robert Francis Prevost, nascido em Chicago (EUA), com uma larga vivência eclesial latino-americana, no Peru, se tornava papa. A grande parte dos apostadores para o nome do novo papa excluía os cardeais provenientes da América Latina. Foi, no entanto, eleito um que tem até cidadania peruana.

Desde então, uma série de atividades tem marcado a missão de Leão XIV. No ano de 2025, em meio ao Jubileu da Esperança, o papa participou das audiências jubilares e de diversos momentos com os peregrinos. Um dos pontos altos de seu pontificado foi a primeira canonização, que ocorreu em 7 de setembro, quando foram elevados às honras dos altares São Carlo Acutis e São Pier Giorgio Frassati.

Em novembro, realizou sua primeira viagem apostólica, visitando a Turquia e o Líbano em uma jornada marcada pelo diálogo ecumênico e inter-religioso. Neste ano, realizou uma série de visitas pastorais a paróquias em Roma e viajou para Mônaco, em sua segunda viagem apostólica. Outro momento relevante foi a Via-Sacra no Coliseu, em que carregou a cruz em toda a meditação das estações, o que considerou um "sinal importante por aquilo que o papa representa". Recentemente, fez uma incursão de 11 dias pela África, passando por Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial. Em suas falas, chamou atenção para a justiça econômica.

O papa Leão XIV também tem sido uma voz forte contra a normalização dos conflitos e o perigo das armas nucleares. Ele defende, de forma ativa, o diálogo entre as nações, promovendo a diplomacia e lembrando o compromisso cotidiano com a justiça e a dignidade humana.

Essa postura parece incomodar alguns líderes mundiais, como o presidente norte-americano Donald Trump. Depois de se tornar um crítico firme da guerra EUA-Israel contra o Irã e das políticas rígidas anti-imigração do governo Trump, uma crise entre os dois foi desencadeada, o que tem causado uma série - sem precedentes, ressalte-se - de ataques públicos ao papa nas últimas semanas. O cenário provocou reação negativa de líderes cristãos de todo espectro político. Os ataques depreciativos que Trump promoveu contra o líder da Igreja Católica nos últimos dias é, de fato, preocupante.

Espera-se que o diálogo e a busca pela paz sejam realmente os objetivos primeiros e maiores dos líderes, em uma conduta baseada pelo respeito e pela busca do bem mundial. A paz se tornou um tema central do pontificado do primeiro papa norte-americano, que prega uma cultura de escuta ativa e mútua. Que o exemplo de Leão XIV, de não se submeter aos caprichos de quem insiste na guerra, continue a permear seu pontificado. 

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