domingo, 10 de maio de 2026

Só a pizza salva Flávio, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Se investigação que pegou Ciro Nogueira se estender, vida do filho de Bolsonaro deve ficar difícil

Bolsonaristas querem salvar a si mesmos e a aliados de direita, mas que mão pesada caia sobre Moraes

Segundo a Polícia FederalCiro Nogueira (PP-PI), que Flávio Bolsonaro já considerou vice dos sonhos por sua fidelidade a Jair Bolsonaro quando foi seu ministro da Casa Civil, é ladrão. Ciro recebeu dinheiro do Banco Master para apresentar um projeto de emenda à Constituição que teria dado sobrevida à ciranda do Master, com custos incalculáveis para a economia brasileira.

Se você costuma ler essa coluna, já sabe de que projeto se trata. É a emenda 11 à PEC 65/2023, que é assunto aqui quase toda semana. Segundo a PF, ela foi escrita no Banco Master e entregue a Ciro em um envelope para ser apresentada ao Congresso.

A "Emenda Master" elevava a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito para quem perdesse dinheiro com banco quebrado, de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Ou seja, o que Ciro Nogueira fez, a mando de Daniel Vorcaro, foi tentar aumentar o seguro que eu e você pagaríamos a quem continuasse investindo no Master quando já estava claro que o banco era bichado.

O deputado Filipe Barros, do PL do Paraná, apresentou exatamente a mesma proposta, mas como projeto de lei (4395/2024). Barros pediu intervenção militar no Congresso Nacional em 30 de novembro de 2022 e hoje concorre a senador na chapa de Sergio Moro e Flávio Bolsonaro.

Se a investigação que pegou Ciro Nogueira se estender aos outros políticos que roubaram com o Master, tentaram salvar o Master com dinheiro público e/ou receberam dinheiro do Master, a vida de Flávio Bolsonaro deve ficar difícil nos próximos meses. A maioria é gente de direita.

Por exemplo, depois da operação da PF, foi cancelado o evento em que Tarcísio de Freitas receberia apoio público do PP à sua candidatura ao governo. O presidente do PP é Ciro Nogueira. Se as investigações forem até o fim, Tarcísio também vai ter que cancelar eventos com o PL, com o União Brasil e com seu próprio partido, o Republicanos, porque está todo mundo no rolo.

O próprio Tarcísio, é bom lembrar, teve como principal doador de campanha em 2022 Fabiano Zettel, cunhado e operador político de Daniel Vorcaro. Flávio Bolsonaro também terá cinco meses de vida social muito parada se deixar de se encontrar com direitistas envolvidos com o Master até a eleição.

Terá que parar de visitar o pai, inclusive: Jair Bolsonaro recebeu a maior doação eleitoral do ecossistema Master encontrada até agora. Ou seja: a direita só tem chances de vitória neste ano se o escândalo do Master acabar na mãe de todas as pizzas, na pizza comparada à qual todas as pizzas anteriores foram só pães de forma com um polenguinho em cima.

Considerando o quanto a direita é poderosa, é bem possível que a pizza venha. A dúvida é sobre o seu sabor. A direita tradicional torce por uma pizza X-tudão que livre todo mundo.

O bolsonarismo quer uma pizza só um pouco menos parruda: querem salvar a si mesmos, a seus aliados de direita, mas querem que a mão pesada da lei caia sobre Alexandre de Moraes.

A esquerda também gostaria de salvar alguns dos seus. Mas ao menos, pelo que se viu até agora, é muito menos gente. Se deixarmos de lado lealdades pessoais e nos ativermos apenas ao ponto de vista eleitoral, o ideal para a esquerda seria uma greve de pizzaiolos que durasse pelo menos até outubro.

 

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