Folha de S. Paulo
Primeiro plano de redução de dívida ajudou 15
milhões, mas não mudou situação geral
Avaliação do presidente não melhorou com as
renegociações e baixa de inadimplência
O governo anuncia na segunda-feira (4) o
Desenrola 2 ("Novo Desenrola Brasil"), programa de incentivo à
renegociação e à redução de dívidas com apoio do Tesouro.
Seja lá o que se pense desse tipo de
providência, a curto prazo o aperto financeiro de alguns vai diminuir, claro.
Assim Lula 3 pretende
ganhar décimos de porcentagem de aprovação e votos, de modo a evitar a
derrota de Lula 4.
Essa introdução óbvia serve para relembrar que efeito teve o Desenrola 1 em medidas de inadimplência e percepção de dificuldades com dívidas: pouco. Além do mais, não tem dado muito resultado a solução do governo Lula para quase tudo, que é tentar afogar problemas com dinheiro na veia.
O Desenrola 1 beneficiou muita gente, 14,8
milhões de pessoas, e renegociou R$ 53,2 bilhões em débitos, especialmente de
pobres. Durou
de julho de 2023 a maio de 2024.
Uma medida indireta ou parcial de dificuldade
financeira das pessoas físicas é a inadimplência dos empréstimos que tomaram
nos bancos, dados do BC. Baixou de 4,18% em junho de 2023 para 3,62% em junho
de 2024 e perto daí ficou até o final daquele ano.
O gasto das famílias com pagamento de juros e
amortização de dívidas com bancos caiu de 28,2% em junho de 2023 para 26,8% em
junho de 2024 —e então voltou a aumentar. O total de empréstimos bancários em
relação à renda das famílias caiu de 48,4% para 47,7% nesse período —e então
voltou a aumentar. Essa "renda das famílias" inclui salários, juros,
aluguéis etc.
As taxas de juros também caíram nesse
período. A Selic passou de 13,75% ao ano para 10,5% ao ano. A taxa média para
pessoas físicas nos bancos caiu de 36,6% para 32,5%. O ICC (Indicador de Custo
de Crédito) para pessoas físicas caiu até o final de 2023 e ficou mais ou menos
estável ao longo de 2024, perto do nível mais baixo dos últimos quatro anos.
Em um relatório de abril, o Departamento de
Economia do Bradesco escrevia que o ICC "acompanha as variações da Selic
com alguma defasagem, em média de seis meses". Uma queda de um ponto
percentual da Selic diminui o ICC em meio ponto percentual e em 1% o valor
despendido com a dívida.
A Confederação Nacional do Comércio faz uma
pesquisa mensal de percepção de "endividamento" em geral. Isto é, se
as pessoas se declaram endividadas, em atraso ou preveem inadimplência.
No mês anterior ao início do Desenrola 1, em
junho de 2023, 78,5% dos entrevistados diziam estar "endividados";
29,2%, com "contas em atraso; 12%, "não tem condições de pagar".
Em junho de 2024, "endividados"
eram 78,8%, em atraso, 28,8%, e "não tem condições de pagar", 28,8%.
As percepções mudaram muito pouco, pois.
Em março de 2026, endividados eram 80,4%; em
atraso, 29,6%; sem condições de pagar, 12,3%. A inadimplência com bancos subiu.
As taxas de juros subiram muito.
Lula acha que esse aperto financeiro
prejudicou sua popularidade. Pode ser. Mas, ao longo do Desenrola 1 e um pouco
depois dele, o prestígio de Lula baixava um pouco; o maior tombo ocorreu antes
do aperto financeiro mais recente.
O Desenrola 1 ajudou muita gente, mas pouco
mudou o panorama geral da situação de crédito das pessoas. E é difícil atribuir
a variação da nota de Lula a pioras em juros e crédito (ou pode ser isso e
muito mais). O Desenrola 2 pode aumentar a votação de Lula em uns décimos. Mas
o grosso do desânimo recente e da aversão enraizada ao presidente vem de algum
outro lugar.
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