segunda-feira, 25 de maio de 2026

O último camisa 10, por Preto Zezé

O Globo

Ele talvez funcione como espelho de um Brasil profundamente contraditório: talentoso e inseguro

A discussão sobre Neymar nunca foi só futebol. Talvez por isso provoque reações tão intensas e contraditórias. Há quem o veja como o último grande gênio do futebol brasileiro e há quem o transforme no retrato de tudo aquilo que incomoda no país: excesso de exposição, celebridade permanente, marketing, individualismo e hiperpersonalização. Talvez a força simbólica dele esteja justamente aí. Nunca coube numa definição simples, porque o próprio Brasil também nunca coube.

O futebol brasileiro sempre funcionou como mais que esporte. Para as classes populares, principalmente, foi durante décadas uma espécie de reserva emocional de autoestima coletiva. Num país marcado por desigualdade, racismo estrutural e sensação histórica de atraso diante do centro do mundo, o futebol criava um raro território de superioridade simbólica. A seleção era um dos poucos momentos em que o povo se sentia olhando o mundo de frente.

Por isso nossos craques nunca foram apenas atletas. Pelé, Garrincha, Romário, Ronaldo, Ronaldinho e agora Neymar ocuparam um espaço muito maior que o campo. Organizavam o imaginário popular. O menino da favela via neles não só fama ou dinheiro, mas a possibilidade de transformar criatividade em potência mundial. O drible brasileiro sempre carregou algo além da técnica. Era quase uma linguagem cultural. Uma forma de improvisar diante da dureza da vida. Um gesto de liberdade de um povo acostumado a sobreviver em estruturas rígidas e violentas.

Uma geração inteira aprendeu a gostar de futebol vendo Neymar jogar. Não viu Pelé ao vivo, não viveu Garrincha e era criança quando Ronaldo e Ronaldinho ainda encantavam o mundo. Neymar foi o primeiro grande craque totalmente atravessado pela era digital brasileira. O cabelo mudava e virava tendência no dia seguinte. A chuteira colorida, a firula, a dança depois do gol, o drible curto repetido em câmera lenta nos celulares das escolas — tudo isso ajudou a formar o imaginário de milhões de meninos que tentavam reproduzir aquele gesto impossível nos campinhos de terra espalhados pelo país. Neymar ocupou a memória afetiva, a linguagem popular e a imaginação coletiva.

Isso importa porque o drible brasileiro nunca foi apenas recurso técnico. O drible sempre carregou uma dimensão cultural, quase como uma resposta simbólica de um povo historicamente colocado em posição de submissão. Havia naquele corpo improvisando diante da dureza do mundo uma afirmação de liberdade, irreverência e criatividade popular. Talvez por isso o Brasil produza uma relação tão emocional com seus craques. Eles não representam apenas vitórias esportivas. Representam a possibilidade de existir com beleza e potência mesmo num país acostumado a negar dignidade a grande parte do seu povo.

O Brasil quer do craque algo quase impossível: espontaneidade sem excesso, irreverência sem descontrole, ousadia sem conflito, genialidade sem humanidade. Neymar foi transformado em patrimônio nacional antes mesmo de concluir sua formação emocional.

E, ainda assim, resistiu como personagem central do futebol brasileiro. Não porque seja perfeito, mas exatamente porque nunca foi. Neymar talvez funcione como espelho de um Brasil profundamente contraditório: talentoso e inseguro, criativo e desorganizado, sedutor e vulnerável ao mesmo tempo.

 

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