Folha de S. Paulo
Renovação parlamentar registrada na eleição
passada não deve se repetir neste ano
Dos 54 senadores em fim de mandato, 18
anunciaram que não vão concorrer à reeleição
Quando as urnas foram abertas em outubro de
2018, uma sucessão de surpresas nos estados fez com que 46 das 54 vagas em
disputa fossem conquistadas
por novatos, sendo 10 deles nomes sem uma trajetória anterior em cargos
eletivos.
Oito anos após a onda antipolítica que
ascendeu com a Operação
Lava Jato e com a candidatura de Jair
Bolsonaro à Presidência, os senadores eleitos naquele pleito chegam ao
fim do mandato em cenário desafiador.
Levantamento da Folha aponta que 18
dos 54 senadores cujo mandato se encerra em 2027 anunciaram que não vão
concorrer à reeleição. Outros 3 seguem com a situação indefinida e 33 vão
tentar renovar o mandato, parte deles enfrentando dificuldades em seus estados.
O Senado será
renovado em dois terços, com a eleição de dois senadores em cada unidade da
federação. Neste ano, a disputa terá peso estratégico em meio a um cenário de
tensões entre o Executivo, Congresso e Judiciário.
O senador Flávio Bolsonaro (PL) atua para ampliar a bancada conservadora mirando o enfrentamento ao STF (Supremo Tribunal Federal), enquanto o presidente Lula (PT) tenta conter o avanço da ala mais radical do bolsonarismo com candidaturas próprias e alianças nos estados.
Além de ser uma prioridade dos dois
principais candidatos ao Planalto, a eleição para o Senado mobiliza as máquinas
partidárias, que chegam fortalecidas em comparação a 2018.
O avanço das emendas parlamentares e o
protagonismo do Senado, que rejeitou uma indicação a ministro do STF pela
primeira vez em 132 anos, são fatores que alimentam a disputa.
"O movimento de opinião que marcou 2018
foi forte e impulsionou candidatos sem carreira política consolidada. Agora,
estrutura partidária, financiamento e alinhamento com candidaturas fortes
voltam a ser decisivos", avalia o cientista político Vitor Sandes,
professor da UFPI (Universidade Federal do Piauí).
Ele afirma que o perfil institucional do
Senado dificulta a permanência de parlamentares sem base política sólida.
Assim, candidatos com redes regionais e experiência administrativa tendem a ser
favorecidos.
As pesquisas de intenção de voto apontam
nesta direção, com favoritismo de ex-governadores, ex-senadores que tentam
voltar à Casa legislativa e políticos associados a Lula e Bolsonaro.
Nomes eleitos pela primeira vez em 2018
enfrentam dificuldades para compor alianças para a reeleição. O senador
Alessandro Vieira (MDB-SE), relator da CPI do Crime Organizado, chegou a ser
anunciado na chapa do governador de Sergipe, Fábio Mitidieri (PSD), mas foi
preterido para dar lugar ao senador petista Rogério Carvalho.
Surpresas no Espírito Santo em 2018, Fabiano
Contarato (PT) e Marcos do Val (Avante)
terão como desafio bater de frente com nomes experientes como os
ex-governadores Renato Casagrande (PSB) e Paulo
Hartung (PSD).
Soraya Thronicke (PSB), que ganhou projeção
nacional na eleição presidencial de 2022, perdeu espaço político em Mato Grosso
do Sul após romper com Bolsonaro e tenta se reerguer como aliada de Lula em um
estado majoritariamente bolsonarista.
Ela afirma que, a despeito do ambiente
político polarizado, o eleitor passou a exigir maior capacidade de diálogo e
equilíbrio: "É com esse trabalho, com essa experiência construída ao longo
do mandato e com a disposição de continuar apresentando resultados que pretendo
buscar a reeleição".
Senadores como Jorge Kajuru (PSB-GO),
Oriovisto Guimarães (PSDB-PR) e Mara Gabrilli (PSD-SP), todos eleitos para o
cargo pela primeira vez há oito anos, não vão concorrer à reeleição.
Ao anunciar seu afastamento da disputa por
mandatos eletivos, Kajuru reclamou da "falta de reconhecimento" do
eleitorado goiano. Mara Gabrilli disse que deixaria Brasília para ser candidata
a deputada estadual.
Por outro lado, parte dos senadores em fim de
mandato tentam voos mais altos, caso de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato
à Presidência da República. Outros quatro disputam governos estaduais, mas
apenas Marcos Rogério (PL), que concorre em Rondônia, entra na campanha na
condição de favorito.
Izalci (PL) e Jayme Campos (União Brasil)
enfrentam disputas internas nos partidos para concorrer, respectivamente, aos
governos do Distrito Federal e Mato Grosso. Já o senador Eduardo Girão enfrenta
isolamento após parte da direita apoiar Ciro Gomes (PSDB)
no Ceará.
Mesmo políticos experientes enfrentam
indefinições. Presidente do Senado entre 2021 e 2025, Rodrigo
Pacheco (PSB-MG) sinaliza deixar a política, embora siga pressionado
pelo Palácio do Planalto a disputar o governo de Minas Gerais.
No Ceará, o senador Cid Gomes (PSB) indicou o
deputado federal Júnior Mano (PSB) para concorrer ao Senado na chapa do
governador Elmano de Freitas (PT), mas aliados ainda tentam convencê-lo a
buscar a reeleição.
Decanos como Paulo Paim (PT-RS) e Jader
Barbalho (MDB-PA) anunciaram aposentadoria das urnas. Paim abre espaço para
candidatura do deputado federal Paulo Pimenta (PT). No caso de Jader, a
desistência beneficia o filho, o ex-governador Helder Barbalho (MDB).
A fragmentação partidária no Senado,
que chegou
ao seu ápice em 2018, reduziu ao longo do mandato e deve manter a mesma
tendência na eleição. Ao todo, 20 partidos elegeram representantes em 2018,
número que caiu para 13 entre os senadores que chegam ao fim do mandato.

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