Folha de S. Paulo
Quem foram as primeiras vítimas da Covid, da
tragédia de Brumadinho e da ditadura militar?
Se o Brasil tende a ignorar os vivos, por que
não cria mais dias de memória por seus mortos?
Doze de março acaba de ser instituído como o Dia Nacional em Memória das Vítimas da Covid-19 no Brasil. A data se refere à morte no dia 12 de março de 2020, em São Paulo, da diarista Rosa Aparecida Urbano, 57 anos, a primeira vítima registrada da pandemia no país. Não há um de nós sem a perda de um ente querido, próximo ou remoto, entre os 700 mil que se foram sob o negacionismo de Jair Bolsonaro. Talvez, ao lembrar Rosa, o país se recorde do que era ser governado por um irresponsável.
Se quiserem instituir datas em memória das
vítimas de outras tragédias brasileiras, 25 de janeiro marcaria a morte
da médica
Marcelle Porto Cangussu, 35 anos, o primeiro corpo reconhecido pelas
autoridades no rompimento da
barragem de Brumadinho (MG), em 2019. Ela representaria os
outros 271 soterrados pelo despejo de 11
milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração e nos
alertaria para o fato de que os responsáveis ainda não foram nem julgados.
Já o dia 8 de maio lembraria o primeiro morto
sob tortura pela ditadura
militar. Ou talvez o primeiro cujo registro não foi possível
esconder: o sargento Manoel Alves de Oliveira, no Hospital Central do Exército,
em Triagem (RJ), em 1964, 37 dias depois do golpe, por violências sofridas
naquela unidade. Mas Manuel foi somente o primeiro morto sob tortura. A
primeira vítima do golpe foi a dona de casa Labile Abduch, 65 anos, síria
naturalizada brasileira, morta por disparos contra um grupo que protestava na
Cinelândia, vindos do defronte Clube Militar, no próprio dia 1º de abril.
E, em outubro de 1944 (não se sabe o dia),
morreu o primeiro pracinha brasileiro na Itália, o aspirante niteroiense José
Gerônimo de Mesquita, 19 anos. Há uma placa com seu nome no Monumento aos
Pracinhas, no aterro do Flamengo. Foi o que coube aos rapazes da FEB
(Força Expedicionária Brasileira) que deixaram a vida no campo de batalha. Os
que voltaram foram abandonados pelo ditador Getúlio
Vargas.
Se o Brasil tende a ignorar os vivos, que passe
a lembrar seus mortos.

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