terça-feira, 5 de maio de 2026

País precisa sair do labirinto, por Carlos Melo*

O Globo

Desorientado está o barco da eleição, à espera de quem, afinal, será jogado ao mar ou resgatado do cipoal de escândalos

Antipetismo e antibolsonarismo tornaram-se as forças políticas mais relevantes do Brasil. Ser contra é fácil. A rejeição ultrapassa 80% do eleitorado, a fatia restante é gelatinosa, sem posição ou relevância, e dissolve-se em agregados sobre os quais não tem influência. Antagonismo cria muros, constrói becos; edifica um labirinto. Futuro e esperança se perdem, reféns do Minotauro, senhor do pedaço.

Swing voters desaprovam o incumbente e oscilam de uma eleição para outra. Em 2022, deram vitória não a Lula, mas ao antibolsonarismo. Hoje, estão na barricada do antipetismo. Especialistas acreditam que esse grupo definirá a eleição. Vencer com ampla maioria da sociedade, governar com maioria no Parlamento e obter aprovação robusta ao final do mandato foi impossível no governo anterior, é neste, será no próximo.

Acometido pelo esquerdismo, Lula não pensou em atrair ou buscar diálogo com esses eleitores. Afugentou-os, não reduziu a rejeição inicial. Pelo contrário, presumiu prestígio e autossuficiência sem admitir que não desfruta a popularidade e amplitude de antigamente. O presidencialismo mudou e seu raio de ação diminuiu. O governo restou estreito; como Ormuz, o de Lula se fechou.

O Centrão logo compreendeu como tirar proveito. Montado em recursos orçamentários de liberação impositiva, dispensa os favores dos presidentes da República. O vírus oportunista se refestela no debilitado organismo do Poder Executivo. Quer mais, quer o controle. Com maior sucesso, tomou posse do governo passado.

Voltado para si e para os seus, refratário a alianças mais amplas, Lula tirou do bolso do paletó e submeteu o nome de Jorge Messias ao complexo jogo de interesses entre o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal. Errou. Colheu sua maior derrota. Se o campeonato não estiver perdido, resultado e placar justificam a substituição de todo o time.

A despeito da reconstrução de políticas públicas, a marca do retorno de Lula ao poder é “não ser Bolsonaro”. É pouco. Não apresentou projeto nem impôs agenda. Se não admitiu ser conduzido pelo fisiologismo parlamentar, tampouco encontrou modo de substituí-lo, neutralizá-lo ou tê-lo sob domínio. Imobilizado pelo Centrão, vê-se diante do tal Minotauro.

Também o bolsonarismo se amarrou a essa prisão. Iludido pela fúria que produz, entrega-se docemente às tramas do Centrão. O Minotauro não perdoa: usa e abusa do bolsonarismo, instrumento da astúcia secular da oligarquia parlamentar. A extrema direita vibra com vitórias de Pirro, mas, a despeito de eventual sucesso eleitoral, seu futuro de submissão está selado.

Além de inexperiência, histórias mal contadas, evocar o pai, dependência do Centrão, mimetizar Donald Trump e vocalizar iliberalismo, que esperar de Flávio Bolsonaro? Não surpreenderá se a direita não bolsonarista perceber a necessidade de alternativa: experiência, outra relação com o Centrão e menor risco democrático. Ao mesmo tempo, uma opção ao petismo.

Apatia e impaciência com a política nacional são os sinais emitidos por Lula. Conjugadas à crise de governabilidade. Não há garantia de que esteja disposto a se manter candidato, após agosto. A hipótese não é provável, mas já é plausível. Atingiria o statu quo do PT. Ainda assim, um gesto ousado contra a rejeição e o bolsonarismo.

Na água parada, desorientado está o barco da eleição, à espera de quem, afinal, será jogado ao mar ou resgatado do cipoal de escândalos que a atravessam. Sem coragem e inteligência, no labirinto, está o país à mercê do Minotauro que o devora. É imperativo um fato novo diante da conclusão exasperante de que o Brasil precisa encontrar saídas.

*Carlos Melo, cientista político, é professor senior fellow e coordenador do Observatório da Política do Insper.

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