O Globo
Desorientado está o barco da eleição, à espera
de quem, afinal, será jogado ao mar ou resgatado do cipoal de escândalos
Antipetismo e antibolsonarismo tornaram-se as
forças políticas mais relevantes do Brasil. Ser contra é fácil. A rejeição
ultrapassa 80% do eleitorado, a fatia restante é gelatinosa, sem posição ou
relevância, e dissolve-se em agregados sobre os quais não tem influência.
Antagonismo cria muros, constrói becos; edifica um labirinto. Futuro e
esperança se perdem, reféns do Minotauro, senhor do pedaço.
Swing voters desaprovam o incumbente e oscilam de uma eleição para outra. Em 2022, deram vitória não a Lula, mas ao antibolsonarismo. Hoje, estão na barricada do antipetismo. Especialistas acreditam que esse grupo definirá a eleição. Vencer com ampla maioria da sociedade, governar com maioria no Parlamento e obter aprovação robusta ao final do mandato foi impossível no governo anterior, é neste, será no próximo.
Acometido pelo esquerdismo, Lula não pensou
em atrair ou buscar diálogo com esses eleitores. Afugentou-os, não reduziu a
rejeição inicial. Pelo contrário, presumiu prestígio e autossuficiência sem
admitir que não desfruta a popularidade e amplitude de antigamente. O
presidencialismo mudou e seu raio de ação diminuiu. O governo restou estreito;
como Ormuz, o de Lula se fechou.
O Centrão logo compreendeu como tirar
proveito. Montado em recursos orçamentários de liberação impositiva, dispensa
os favores dos presidentes da República. O vírus oportunista se refestela no
debilitado organismo do Poder Executivo. Quer mais, quer o controle. Com maior
sucesso, tomou posse do governo passado.
Voltado para si e para os seus, refratário a
alianças mais amplas, Lula tirou do bolso do paletó e submeteu o nome de Jorge
Messias ao complexo jogo de interesses entre o Congresso Nacional e o
Supremo Tribunal Federal. Errou. Colheu sua maior derrota. Se o campeonato não
estiver perdido, resultado e placar justificam a substituição de todo o time.
A despeito da reconstrução de políticas
públicas, a marca do retorno de Lula ao poder é “não ser Bolsonaro”. É pouco.
Não apresentou projeto nem impôs agenda. Se não admitiu ser conduzido pelo
fisiologismo parlamentar, tampouco encontrou modo de substituí-lo,
neutralizá-lo ou tê-lo sob domínio. Imobilizado pelo Centrão, vê-se diante do
tal Minotauro.
Também o bolsonarismo se amarrou a essa
prisão. Iludido pela fúria que produz, entrega-se docemente às tramas do
Centrão. O Minotauro não perdoa: usa e abusa do bolsonarismo, instrumento da
astúcia secular da oligarquia parlamentar. A extrema direita vibra com vitórias
de Pirro, mas, a despeito de eventual sucesso eleitoral, seu futuro de
submissão está selado.
Além de inexperiência, histórias mal
contadas, evocar o pai, dependência do Centrão, mimetizar Donald Trump e
vocalizar iliberalismo, que esperar de Flávio Bolsonaro? Não surpreenderá se a
direita não bolsonarista perceber a necessidade de alternativa: experiência,
outra relação com o Centrão e menor risco democrático. Ao mesmo tempo, uma
opção ao petismo.
Apatia e impaciência com a política nacional
são os sinais emitidos por Lula. Conjugadas à crise de governabilidade. Não há
garantia de que esteja disposto a se manter candidato, após agosto. A hipótese
não é provável, mas já é plausível. Atingiria o statu quo do PT. Ainda
assim, um gesto ousado contra a rejeição e o bolsonarismo.
Na água parada, desorientado está o barco da
eleição, à espera de quem, afinal, será jogado ao mar ou resgatado do cipoal de
escândalos que a atravessam. Sem coragem e inteligência, no labirinto, está o
país à mercê do Minotauro que o devora. É imperativo um fato novo diante da
conclusão exasperante de que o Brasil precisa encontrar saídas.
*Carlos Melo, cientista político, é professor senior fellow e coordenador do Observatório da Política do Insper.

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