O Globo
Diante do alto endividamento, o governo
precisava agir. Que muitas famílias quitem suas dívidas e mais brasileiros
possam dormir melhor
O Novo Desenrola pode ter efeito eleitoral. Ou não. Não se pode prever o caminho da decisão dos eleitores. O importante é que essa é uma obrigação do governo. Os críticos dizem que deveria ser livre negociação entre credores e endividados. A desproporção de forças entre bancos e clientes é tal que, sim, o governo precisa entrar na conversa e facilitar a solução. Alguns levantam o temor de que isso estimule a cultura do calote. É bom lembrar que grandes empresas sempre tiveram a chance de renegociação de dívidas. As que não pagaram impostos foram beneficiadas por diversos governos com sucessivos Refis.
Não se está fazendo nada para o trabalhador
de renda até cinco salários mínimos que não tenha sido feito para o capital ou
para outros extratos de renda. O programa tem o recorte certo. A maior parte
dos que estão encrencados com as dívidas no rotativo de cartão de crédito, e
seus juros estratosféricos de 428%, integra esse grupo de até cinco salários
mínimos. No grupo com renda familiar de até três salários mínimos, a proporção
de endividados é de 82,9%.
A nova versão aposta na simplificação. No
primeiro Desenrola era necessário acessar uma plataforma. Agora, os bancos
passam a oferecer as condições diretamente em seus aplicativos, com desconto
médio de 65% da dívida. Tudo foi negociado com as instituições bancárias. Os
grandes bancos estão prontos para conceder esse desconto e renegociar o
restante. O ministro Dario
Durigan deu um exemplo concreto do efeito:
— Uma dívida de R$ 10 mil passa a ser uma
dívida de R$ 4,5 mil que pode ser paga em quatro anos.
As regras eram bem conhecidas e foram
confirmadas no lançamento de ontem. Quem tem atraso de 90 dias a dois anos terá
desconto que, no rotativo do cartão, irá de 30% a 90%. O valor remanescente
será parcelado em quatro anos, ou 48 meses, com juros de até 1,99% ao mês. Como
o governo vai dar garantia, através do Fundo de Garantia de Operações, para a
dívida que permanecerá, ele pode impor este teto aos juros.
O governo apresentou três outras partes da
medida, a que atinge quem está com atrasos no Fies, a das pequenas e
microempresas e a do Desenrola Rural, para pequenos agricultores familiares, em
geral assentados pela reforma agrária.
Perguntado se a faixa de renda poderia ser
ampliada, Durigan afirmou que o limite de até R$ 8 mil abrange cerca de 90% da
população. Segundo ele, incluir pessoas de renda mais alta consumiria os
recursos do Fundo Garantidor.
— Ao limitar, eu otimizo o recurso, garanto
uma taxa de juros menor, busco eficiência do programa e atendo mais de 90% da
população brasileira. Me parece muito razoável esse recorte — disse Durigan.
A decisão de liberar 20% do FGTS para
pagar total ou parcialmente a dívida vai consumir mais de R$ 8 bilhões de
recursos do fundo. Isso também é uma medida acertada. Afinal, o dinheiro é do
trabalhador, está guardado para quando ele precisar. É um momento de
necessidade de fato. Ampliar o acesso é natural e desejável.
Houve um aumento grande do endividamento das
famílias em dois momentos. Primeiro na expansão do crédito imobiliário e
introdução do consignado em 2006/2007. Segundo, houve uma nova onda de tomada
de crédito no pós-pandemia. Misturados nesse crédito estão boas dívidas e
dívidas perigosas. Tomar um crédito para comprar uma casa própria é uma coisa,
cair na armadilha do cheque especial ou no rotativo do cartão de crédito é
outra. A dívida do cartão, do crédito ao consumidor ou do cheque especial é
deletéria, porque ela consome a renda das famílias no pagamento de juros impagáveis,
de 150% a mais de 400%.
É evidente que diante disso, o governo
precisava fazer alguma coisa. O primeiro Desenrola foi uma tentativa válida,
que permitiu uma redução dos débitos em atraso, mas era complexo. Agora é uma
linha direta entre o endividado e seu banco. Há expectativa de que possa ter
melhor desempenho e que milhões de brasileiros consigam quitar as dívidas e
limpar os nomes. Os bancos poderão liberar recursos que estão em provisão, por
regras prudenciais, e limparão seus balanços. É um bom programa. O governo fez
bem de lançá-lo. Que muitas famílias quitem suas dívidas e mais brasileiros
possam dormir melhor. Na eleição, as pessoas tomarão suas decisões livremente.

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