Valor Econômico
Projeto de lei amplia a blindagem de partidos
e estimula a má qualidade do Legislativo e do que ele aprova
Estamos cansados de reclamar da nossa classe
política e dizer que os políticos não nos representam. “Você acha o Congresso
ruim? É porque ainda não viu o próximo”, teria dito Ulysses Guimarães, com a
experiência de quem exerceu o cargo de deputado federal de 1951 até a morte, em
1992.
Escândalos de corrupção vão mudando de escala ao longo do tempo, retrocessos econômicos, ambientais e sociais são aprovados e as reformas legislativas realmente necessárias quase sempre são adiadas.
A população comum há muito deixou de se
envolver com a política. Na superfície, parte das pessoas ainda se digladia
entre bolsonarismo e lulismo, direita e esquerda. Mas o debate (ou melhor, a
briga) para aí. A eleição para o Legislativo não nos mobiliza - sequer
entendemos as regras do jogo, e continuamos a acreditar que votamos num
candidato, quando na verdade nosso voto é dado para o partido. Como resultado,
deputados e senadores eleitos não são vistos como nossos representantes. E
tocamos a nossa vida sem nos envolver com o que decidem.
Grandes empresários e executivos se queixam
de que não existe planejamento para o desenvolvimento econômico e que os
políticos não têm a coragem necessária para aprovar medidas que acelerem o
crescimento e tornem realidade o eterno “país do futuro”. A expressão, cunhada
em 1941 pelo austríaco Stefan Zweig como promessa, acabou se tornando uma
maldição - e seria das autoridades a culpa por esse destino de prosperidade ser
adiado indefinidamente.
Independentemente da preferência ideológica
ou do grau de apreço pela democracia, nossa elite econômica se divide entre a
apatia conveniente de quem vê seu patrimônio ser multiplicado por taxas de
juros reais de 10% ao ano e aqueles que se valem dos Três Poderes para serem
compensados com benefícios e privilégios pelas perdas causadas por essa mesma
taxa de juros, além dos demais componentes do famoso “custo Brasil”.
Uma minoria mais consciente e esclarecida,
proveniente do lado rentista ou do campo lobista, ainda se envolve (diretamente
ou via doações) com causas voltadas para conter os danos provocados por
decisões políticas equivocadas ou pelo descaso deliberado ao longo dos séculos.
Projetos sociais para combater a pobreza, institutos para preservar o meio
ambiente ou movimentos pela educação de crianças e jovens são fundamentais, mas
tratam de modo paliativo os sintomas, sem atacar a causa principal da doença
brasileira.
Há muito tempo normalizamos a péssima
qualidade dos nossos políticos e dos prejuízos que eles provocam ao Brasil.
Enquanto cidadãos comuns trabalham cada vez mais para compensar a insuficiência
de serviços públicos e a elevada carga tributária, nossa elite resignadamente
se sujeita a seus desmandos, aceitando pagar cada vez mais caro pela
ineficiência de nossa economia ou para conseguir alguma benesse que a
contrabalanceie.
Sem ser confrontada nas urnas ou pela pressão
de quem manda no dinheiro do país, nossa classe política se blinda num sistema
de autorreprodução em que o poder passa de geração em geração.
Na semana passada, a Câmara dos Deputados
aprovou uma “minirreforma eleitoral” que na verdade amplia a possibilidade de
impunidade para os partidos políticos, limita multas por desaprovação de contas
eleitorais e as parcela em 15 anos e ainda facilita o uso de spams com
propaganda eleitoral, entre outras vantagens para as agremiações.
Houve críticas na imprensa e alguma
indignação nas redes sociais. Em termos práticos, porém, o Projeto de Lei nº
4.822/2025 foi aprovado em votação simbólica, com escasso debate público e
logo, possivelmente, será referendado pelo Senado.
Enquanto isso, nossa elite, até mesmo a mais
esclarecida e cívica, permaneceu inerte - como se comportou diante da expansão
dos bilionários fundos partidário e eleitoral, da ampliação das também
bilionárias emendas parlamentares impositivas e de tantas outras anistias. Sem
falar no multibilionário caso Master.
Com acesso a bilhões de reais para financiar
suas reeleições e diante de regras eleitorais que favorecem quem já tem cargo e
poder, não há esperança de melhorias de nosso Congresso nas próximas eleições.
O sistema é tão perverso que até as poucas
medidas aprovadas para melhorar a representatividade no Legislativo são
subvertidas. Em 2022 foi criado um bônus para que as legendas incentivassem
candidaturas de mulheres e negros para a Câmara dos Deputados. Estudo
econométrico de Thiago do Nascimento Fonseca, Débora Thomé e João Victor
Guedes-Neto publicado na revista Electoral Studies (Money talks? Party
financial incentives to promote underrepresented groups) mostrou resultado
nulo. A explicação: partidos não investem em melhorar a viabilidade de
candidatas e negros no Parlamento para não elevar o risco de quem já tem o
cargo (a maioria homens e brancos).
Enquanto a elite brasileira não se mobilizar
para mudar os incentivos para a seleção adversa no nosso Legislativo, vamos
continuar reclamando e nos conformando com as péssimas decisões que políticos
horríveis tomam.

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