Valor Econômico
Pastor Silas Malafaia tem sinalizado desembarque da candidatura e defendido, nos bastidores, o nome da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro
Com a imagem arranhada após a crise
desencadeada pelo vazamento de mensagens trocadas com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, o pré-candidato
do PL à Presidência, senador Flávio
Bolsonaro (RJ), tem buscado se ancorar na religião para
tentar reverter danos. O movimento ocorre em meio à
sinalização de lideranças evangélicas de descontentamento com os fatos que
vieram à tona e diante da queda do senador nas pesquisas eleitorais.
Em vídeos publicados nas redes sociais, Flávio aparece citando passagens bíblicas, participando de cultos e usando personagens religiosos para buscar sair da crise. Em um aceno ao eleitorado evangélico, o senador também passou a intensificar discursos sobre “batalha espiritual” e perseguição política, associando sua trajetória à do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Como mostrou o Valor, Flávio enfrenta
resistências em setores ligados às lideranças evangélicas. O pastor Silas
Malafaia, por exemplo, tem sinalizado desembarque da candidatura e defendido,
nos bastidores, o nome da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.
Em um dos vídeos publicados nas redes
sociais, Flávio afirma que sua força para enfrentar a campanha vem de Deus. “Eu
sei que essa não é uma batalha só aqui, na Terra. É uma batalha espiritual,
acima de tudo”, disse.
Outra gravação mostra o pré-candidato
recorrendo à figura bíblica do “manto de Elias” para associar sua candidatura a
uma espécie de missão herdada do pai. “Hoje a mensagem foi sobre isso, né? Foi
sobre eles, eu, receber o manto de Elias. Nunca escolheu aquilo, nunca pediu
nada, mas recebe o manto e é isso que eu acredito que está acontecendo”,
declarou.
“O pai passou esse manto pra mim, a
experiência dele, o que já aconteceu com ele, a gente absorve, aprende e faz
duas vezes melhor se possível. Porque quando estive conversando com o meu pai
nesse processo todo, me questionando, [ele perguntava]: ‘Você sabe o que você
vai enfrentar, você está disposto, você vai pra cima, vão tentar fazer de tudo
para impedir a sua eleição, você está preparado?’ Eu falei: ‘Pai, estou
preparado, esse é propósito de Deus, nada vai tirar isso da gente’”, completou
Flávio.
A estratégia também passa por tentar associar
o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva (PT), que deve disputar a reeleição, à figura do diabo. “O Lula falou que
ia fazer o diabo para ficar no poder. Ele só esqueceu de uma coisa: enquanto
ele está com o diabo, eu estou com Deus”, declarou o senador em uma das
publicações.
Uma ala do PL admite a possibilidade de rever
a candidatura e colocou um “prazo implícito” entre 10 a 15 dias para Flávio se
recuperar da crise. A faixa que acende o alerta, dizem aliados, é se o senador
cair entre nove e dez pontos percentuais nos levantamentos. Pesquisa
Datafolha divulgada na sexta-feira (22) mostra que o filho do
ex-presidente Jair Bolsonaro caiu quatro pontos, passando de 35% a 31% das
intenções de voto.
A queda está dentro
da margem estimada por integrantes da campanha do pré-candidato, mas o
levantamento confirma o impacto negativo da revelação de que Flávio pediu a
Vorcaro dinheiro para financiar o filme sobre seu pai.
Em nota, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, negou ter
dado um prazo de 15 dias para avaliar a resiliência da pré-candidatura de
Flávio. “De forma oportunista e distorcida tentaram inverter completamente o
sentido da minha fala. Em nenhum momento tratei de testar a resistência de
Flávio Bolsonaro”, disse.
Se houver um “derretimento” de Flávio,
bolsonaristas e aliados de Malafaia avaliam
que um caminho é apostar em Michelle. Entre os argumentos usados, está o apelo
popular maior da ex-primeira-dama em comparação ao enteado, sobretudo entre
mulheres. Desde o fim do governo Bolsonaro, Michelle passou a construir uma
base política própria.
Embora Malafaia tenha ensaiado uma
reaproximação com Flávio nas últimas semanas, o religioso sempre deixou claro
que era contra a pré-candidatura do senador por avaliar que ele tem um “teto de
vidro” elevado e ficaria fragilizado em uma disputa contra Lula.
O líder religioso preferia que o candidato
fosse o governador de São Paulo, Tarcísio
de Freitas (Republicanos), mas o chefe do Palácio dos
Bandeirantes não se desincompatibilizou para disputar a Presidência e ficou
fora do páreo. Assim, o pastor passou a defender Michelle como principal
alternativa.
Na última semana, Malafaia admitiu que a
crise pode afetar a imagem de Flávio Bolsonaro no eleitorado evangélico. “A relação de Flávio com evangélicos esfria, sim, se tiver
comprovação de que recebeu dinheiro para mais coisa que o filme. Por enquanto,
estamos todos com cautela. Se tiver mais coisa, será difícil apoiar; mas, se
não tiver, vamos com Flávio”, declarou o pastor ao jornal O Globo.
Flávio confirmou, após reportagem publicada
pelo portal Intercept Brasil, que pediu dinheiro a Vorcaro para patrocinar um
filme ligado ao bolsonarismo. O acordo envolveria R$ 134 milhões, mas, segundo
o senador, foram repassados R$ 61 milhões.
Na semana passada, também veio à tona que ele se encontrou pessoalmente com Vorcaro após a primeira vez em que o ex-banqueiro foi preso, em novembro de 2025. Vorcaro usava tornozeleira eletrônica na ocasião. Flávio, no entanto, nega qualquer irregularidade ou troca de favores na relação entre os dois.

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