Folha de S. Paulo
Escalação de atriz negra para representar a
personagem deflagra guerra cultural
Arte não precisa seguir nenhum script e deve ser limitada apenas pela imaginação
A guerra
cultural da hora diz respeito a Helena
de Troia, a mulher cuja beleza estonteante teria deflagrado o conflito que
resultou na destruição de Ílion e inaugurou a literatura ocidental. Christopher
Nolan decidiu filmar "A Odisseia" e escalou para o papel de
Helena a atriz Lupita
Nyong’o, que é negra. A militância
anti-woke não gostou e se pôs a cancelar o filme antes de seu
lançamento.
Uma negra pode personificar Helena? A crer em Homero, não. Autores da Antiguidade raramente forneciam descrições físicas de seus personagens. No caso específico, porém, um dos epítetos utilizados pelo aedo para referir-se a Helena acaba realizando essa função. O termo grego é "leukólenos" que significa "de braços brancos".
O argumento supostamente naturalista dos
anti-identitários se enfraquece quando se considera que Helena é uma figura
mítica, que jamais existiu. Aliás, o próprio Homero pode não ter existido.
Minha posição é a de que qualquer um pode interpretar qualquer papel. Uma
definição de ator é "alguém que finge ser uma pessoa que não é". A
decorrência lógica é que negros podem fazer o papel de brancos; mulheres, o de
homens; e todas as combinações imagináveis. Negar isso é negar a essência da
ideia de interpretação.
Discordando de John
McWhorter, com quem quase sempre concordo, penso que, se algum diretor
quiser fazer um filme sobre a vida de Mandela ou de Obama escalando um ator
branco, pode perfeitamente fazê-lo. É claro que os envolvidos nessa putativa
produção devem estar preparados para o tranco. O movimento negro tomaria isso
como um "casus belli" e desencadearia um conflito tão sangrento
quanto a guerra de Troia.
A arte é e deve
continuar sendo um território limitado apenas pela imaginação do artista. Nela,
não é necessário seguir regras ou preceitos morais. Uma de suas funções é
justamente tirar as pessoas de sua zona de conforto e fazê-las refletir. E essa
reflexão não precisa chegar a conclusões edificantes nem ser produtiva. Helena
pode e deve ser policromática.
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