sexta-feira, 29 de maio de 2026

Qual era a cor de Helena de Troia? por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Escalação de atriz negra para representar a personagem deflagra guerra cultural

Arte não precisa seguir nenhum script e deve ser limitada apenas pela imaginação

guerra cultural da hora diz respeito a Helena de Troia, a mulher cuja beleza estonteante teria deflagrado o conflito que resultou na destruição de Ílion e inaugurou a literatura ocidental. Christopher Nolan decidiu filmar "A Odisseia" e escalou para o papel de Helena a atriz Lupita Nyong’o, que é negra. A militância anti-woke não gostou e se pôs a cancelar o filme antes de seu lançamento.

Uma negra pode personificar Helena? A crer em Homero, não. Autores da Antiguidade raramente forneciam descrições físicas de seus personagens. No caso específico, porém, um dos epítetos utilizados pelo aedo para referir-se a Helena acaba realizando essa função. O termo grego é "leukólenos" que significa "de braços brancos".

O argumento supostamente naturalista dos anti-identitários se enfraquece quando se considera que Helena é uma figura mítica, que jamais existiu. Aliás, o próprio Homero pode não ter existido.
Minha posição é a de que qualquer um pode interpretar qualquer papel. Uma definição de ator é "alguém que finge ser uma pessoa que não é". A decorrência lógica é que negros podem fazer o papel de brancos; mulheres, o de homens; e todas as combinações imagináveis. Negar isso é negar a essência da ideia de interpretação.

Discordando de John McWhorter, com quem quase sempre concordo, penso que, se algum diretor quiser fazer um filme sobre a vida de Mandela ou de Obama escalando um ator branco, pode perfeitamente fazê-lo. É claro que os envolvidos nessa putativa produção devem estar preparados para o tranco. O movimento negro tomaria isso como um "casus belli" e desencadearia um conflito tão sangrento quanto a guerra de Troia.

arte é e deve continuar sendo um território limitado apenas pela imaginação do artista. Nela, não é necessário seguir regras ou preceitos morais. Uma de suas funções é justamente tirar as pessoas de sua zona de conforto e fazê-las refletir. E essa reflexão não precisa chegar a conclusões edificantes nem ser produtiva. Helena pode e deve ser policromática.

 

 

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