Por Luísa Marzullo, Letícia Pille e Lauriberto Pompeu / O Globo
Desconfiados das versões apresentadas pelo
senador e com medo de novos fatos, ala do partido já defende a busca por opções
ao Planalto
Pressionado pelo próprio partido a explicar sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, o pré-candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, admitiu ontem mais um fato que havia sido omitido dos próprios aliados. Além de pedir dinheiro ao banqueiro para uma cinebiografia de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, o senador confirmou que fez uma visita ao dono do Banco Master depois de ele ser preso, no fim do ano passado. À época, Vorcaro usava tornozeleira eletrônica e estava impedido de deixar São Paulo. A nova revelação abalou as bancadas do partido no Congresso e consolidou o entendimento, para parte dos colegas, de que um acontecimento novo pode sepultar a candidatura do senador.
Publicamente, integrantes do PL trataram o
caso apenas como um novo revés, mas as justificativas apresentadas foram
consideradas pouco plausíveis. Integrantes da cúpula avaliam que, de 10 a 15
dias, será o tempo para reavaliar se Flávio terá condições de prosseguir como
candidato e se as denúncias serão relevantes eleitoralmente.
‘Um ponto final’
Flávio sustenta que só foi ao encontro do
dono do Master para colocar um “ponto final” em questões relacionadas ao
patrocínio do longa. Como revelou o Intercept Brasil, Vorcaro autorizou o
repasse de R$ 61 milhões ao filme “Dark horse”, transferência investigada pela
Polícia Federal (PF). A mesma reportagem revelou áudios em que Flávio cobra
parcelas atrasadas do banqueiro.
— Fui, sim, até o encontro dele (Vorcaro).
Ele estava restrito e não podia sair do estado de São Paulo, então fui até ele
— disse Flávio, na manhã de ontem, minutos depois de o encontro ser revelado
pelo portal Metrópoles. — Eu fui, sim, ao encontro dele para botar um ponto
final nessa história. Dizer que, se ele tivesse me avisado que a situação era
grave como essa, eu já teria ido atrás de outro investidor há muito mais tempo
e o filme não correria risco.
O senador afirmou que o único assunto tratado
com Vorcaro, tanto por telefone quanto pessoalmente, foi o financiamento do
filme. Segundo relatos feitos ao GLOBO, a avaliação interna é que a candidatura
de Flávio passaria a ser considerada “inviabilizada” se aparecerem fatos que
contradigam a versão de que sua relação com o dono do Banco Master esteve
restrita exclusivamente ao longa.
A revelação da visita se junta a uma série de
turbulências que a campanha de Flávio vem enfrentando antes mesmo de vir à tona
sua proximidade com Vorcaro. A escolha de um ex-policial civil para chefiar a
comunicação havia irritado uma ala do PL. A postura do senador durante operação
que mirou Ciro Nogueira (PP-PI), há duas semanas, ajudou a afastar parte do
Centrão, que deve optar pela neutralidade na corrida presidencial. Após a
revelação da troca de áudios entre o senador e o banqueiro, versões
desencontradas do pré-candidato, de Eduardo
Bolsonaro e de produtores do projeto, como o deputado Mario
Frias (PL-SP) e a empresa Go Up, levantaram dúvidas sobre a veracidade
das informações.
Depois de passar os últimos dias em reuniões
reservadas com Jair Bolsonaro, Valdemar Costa Neto e Rogério
Marinho, Flávio reuniu ontem cerca de 70 deputados e senadores do partido
em Brasília. Aliados ainda demonstram incômodo com a condução política do caso
e com a forma como o senador reagiu publicamente às revelações.
Ao tentar reverter a situação para o seu
eleitorado, o pré-candidato chegou a divulgar o trailer do filme nas redes
sociais. Interlocutores próximos a Valdemar afirmam que cresceu na cúpula do
partido a avaliação de que o PL precisa começar a olhar opções caso novos
desdobramentos atinjam o filho do ex-presidente.
Qualquer mudança, porém, teria que passar
pelo crivo do ex-presidente, que está em prisão domiciliar, onde mantém diálogo
frequente com Flávio.
No caso de a candidatura não se viabilizar,
hoje três figuras aparecem como principais possibilidades: Michelle Bolsonaro,
a senadora Tereza
Cristina (PP-MS) e o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da
pré-campanha de Flávio. Pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo e aliado
da família, Silas Malafaia resume o ambiente da pré-campanha.
— A relação de Flávio com evangélicos esfria,
sim, se tiver comprovação de que recebeu dinheiro para mais coisa que o filme.
Por enquanto, estamos todos com cautela. Se tiver mais coisa, será difícil
apoiar; mas, se não tiver, vamos com Flávio.
Outros preferem fazer defesa enfática do
candidato do PL à Presidência.
— Não existe nenhuma chance de Flávio ser
substituído — diz Marinho.
Os últimos acontecimentos geraram desconforto
inclusive entre aliados da família Bolsonaro. O influenciador Paulo Figueiredo,
próximo de Eduardo, afirmou publicamente que a oposição enfrenta um problema de
“comunicação e política”. Já Eduardo admitiu em uma transmissão ao vivo que o
grupo demorou a reagir justamente para evitar contradições.
A ordem agora dentro do PL é reorganizar o
discurso e evitar que Flávio fique acuado. O entorno do senador defende ampliar
agendas públicas, reforçar viagens pelo país e intensificar encontros com
empresários. Ele viaja para São Paulo hoje, onde deve ter encontros com a Faria
Lima.
Desculpas e cobranças
Durante a reunião com parlamentares do PL,
Flávio pediu desculpas por não ter explicado antes detalhes da relação com
Vorcaro, afirmou diversas vezes que “não há mais nada” além da negociação
envolvendo o filme e tentou convencer os colegas de que a crise pode ser
superada politicamente. Flávio ouviu cobranças e parte dos presentes queria
entender se Flávio já havia contado tudo o que sabia ou se o partido ainda
corre risco de ser surpreendido.
Flávio também tentou sustentar a tese de que
jamais teria deixado registros tão explícitos em mensagens e áudios se
acreditasse estar diante de algo ilegal. Para integrantes do PL, essa passou a
ser a principal linha de defesa construída pelo entorno bolsonarista: a de que
houve erro político e imprudência, mas não consciência de eventual
irregularidade.
Mais tarde, em evento da Marcha dos Prefeitos, que ocorre em Brasília, o presidenciável decidiu alegar que estava sendo “perseguido”, mas sem explicar em detalhes o encontro que teve com o dono Master.

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