O Globo
Diálogos publicados pelo Intercept Brasil
podem ser só início dos problemas do Zero Um
Não teve dancinha, mas teve citação bíblica,
pregação patriótica e exaltação à figura do pai. Na noite de sexta-feira,
Flávio Bolsonaro fez o primeiro discurso após a revelação de seus negócios com
Daniel Vorcaro. Cercado de aliados, tentou passar a mensagem de que o sonho
presidencial não acabou.
“Vocês não fazem ideia da minha alegria de estar aqui hoje”, iniciou o Zero Um. “Acordei com um versículo da Bíblia: quem é fraco numa dificuldade é realmente fraco. Nessas veias aqui, tem sangue de Bolsonaro. E eu estou mais motivado do que nunca”, emendou, apontando para o braço direito e segurando uma bandeira do Brasil.
Flávio estava em Campinas, cidade do interior
paulista que deu 56% dos votos ao capitão em 2022. Participava do lançamento da
candidatura ao Senado de Guilherme Derrite, prócer da bancada da bala que
conseguiu ser expulso da Rota por excesso de violência.
“Quando a verdade está do nosso lado, quando
a gente sabe que fez a coisa certa, isso nos motiva”, discursou Flávio. Foi a
senha para entrar no assunto da semana: seu pedido de R$ 135 milhões a Vorcaro,
a pretexto de financiar um longa-metragem sobre o Jair Bolsonaro. “Fazer filme
tá na moda, gente”, disse o senador, sem corar. “O Bolsonaro merece ou não
merece um filme? Merece. E a gente vai fazer”, finalizou.
Os diálogos publicados pelo Intercept Brasil
podem ter sido apenas o início dos problemas do pré-candidato do PL. Antes de
chegar a Campinas, Flávio admitiu à CNN Brasil que novos registros de sua
relação com o banqueiro devem vir à tona. “Pode vazar um videozinho, algum
encontro que eu possa ter tido com ele... foi tudo para tratar sobre o filme”,
defendeu-se.
Até aqui, as explicações só convencem quem
quer ser convencido. A produtora americana do longa afirmou não ter recebido um
“único centavo” de Vorcaro. O deputado Mário Frias usou a mesma expressão, mas
voltou atrás ao ser cobrado pelo grupo de Flávio. “Não há contradição material
entre os posicionamentos”, desconversou o ex-galã de “Malhação” e “Floribella”.
A Polícia Federal apura se o filme dos
Bolsonaros foi usado para lavar dinheiro. Só a bolada pedida ao banqueiro
pagaria três vezes “Ainda estou aqui”, vencedor do Oscar em 2025. Quem
enfrentou o trailer de “Dark horse” sabe que a única semelhança entre as
produções é a presença de atores diante de uma câmera.
Nem o roteirista mais criativo poderia
imaginar uma semana tão amarga para o filho de Jair. Na terça-feira, a Polícia
Federal fez operação contra o “vice dos sonhos” Ciro Nogueira, suspeito de
receber mesada de R$ 500 mil de Vorcaro. A ação foi autorizada pelo ministro
André Mendonça, indicado pelo capitão ao Supremo. Na quarta, o país conheceu a
fraternidade de Flávio com o banqueiro preso. Na sexta, a PF bateu à porta de
Cláudio Castro, o ex-governador bolsonarista do Rio.
No ato de Campinas, o Zero Um se mostrou confiante de que nada disso abalará o projeto do clã. “Essa bandeira jamais será vermelha”, discursou.

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