Folha de S. Paulo
Inexistência de definição universalmente
aceita permite múltiplas classificações
Lei americana abusa de tipos abertos e a
brasileira exige motivação ultraespecífica
PCC e CV são organizações
terroristas, como acaba de decretar Donald Trump? Não
existe definição universalmente aceita de terrorismo,
o que dá ampla margem de manobra a quem faz a classificação.
Os americanos se valem de conceituações relativamente abertas. Qualquer ação que envolva violência e tenha o objetivo de intimidar a população civil ou forçar o governo a alterar políticas pode ser categorizada como terrorista (US Code, Title 18). Se você tiver uma treta com as autoridades locais, elas não precisarão se esforçar muito para acusá-lo de terrorismo.
A legislação brasileira é mais exigente. Pela
lei 13.260/16, para um ato ser considerado terrorista, ele precisa envolver
violência ou ameaça e também ter sido cometido "por razões de xenofobia,
discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião". Como PCC e
CV atuam tendo em vista o ganho material, não há como falar em terrorismo.
O leitor arguto pode ter notado a omissão de
motivações político-ideológicas entre os critérios da lei pátria. Não se trata
de esquecimento fortuito. Nos trâmites para a aprovação da norma, a esquerda
tomou precauções para evitar que ações do MST viessem a
ser enquadradas como terrorismo, daí a ausência de referência a razões
políticas, que são as que inspiram a maior parte dos grupos genuinamente
terroristas.
O tiro saiu pela culatra. Sem o termo
"políticos" na listinha, os atos do
8/1 não puderam ser considerados terroristas, o que teria rendido mais
alguns anos de prisão a Jair Bolsonaro e acólitos.
A decisão de Trump pode trazer repercussões
negativas para o Brasil, especialmente para o setor financeiro e a colaboração
policial, mas me parece improvável que ela seja o prelúdio para uma intervenção
militar no país. Trump não é exatamente um legalista. Se ele quisesse despachar
suas canhoeiras para cá, não precisaria de nenhum pretexto jurídico. Mas não
acho que o Brasil esteja entre suas prioridades hemisféricas. Estão à nossa
frente Cuba, México, Colômbia e até a Groenlândia.
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