O Globo
Operação abafa procurou desacreditar os
testemunhos por se originarem de militantes interessados em difamar Israel
O New York Times não é um grande jornal qualquer. Ainda hoje, aos 175 anos bem vividos, continua sendo leitura obrigatória pelo alcance global do que publica. Nicholas Kristof tampouco é um colunista qualquer. Sua carreira de mais de quatro décadas no jornalão já lhe valeu dois prêmios Pulitzer e reconhecida credibilidade mundo afora. Daí a reação do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, ao longo artigo de Kristof publicado no domingo passado sob o título “O silêncio acompanha o estupro de palestinos”. Diante do que chamou de “uma das mentiras mais hediondas e distorcidas já publicadas contra Israel na imprensa moderna”, Netanyahu anunciou que processará o jornal por difamação.
Caso a ação judicial venha de fato a ser
apresentada (poucos consideram provável), teremos um embate histórico pela
verdade. As consequências de uma investigação judicial podem mudar a imagem que
Israel tem de si, e a imagem que o mundo do pós-Segunda Guerra tinha de Israel.
Isso porque, para rebater as alegações contidas no artigo, o país teria de
abrir suas prisões, seus porões, suas práticas prisionais a inspetores
independentes.
Na outra ponta do embate, estaria em jogo a
credibilidade do New York Times, a biografia de Kristof e, de certa forma, o já
tão vilipendiado exercício do jornalismo.
O colunista conta ter entrevistado 14
ex-detentos palestinos (homens e mulheres) que relataram ter sido submetidos a
violências sexuais generalizadas por soldados, guardas prisionais,
interrogadores ou colonos israelenses. Kristof diz não haver “evidência de que
autoridades israelenses ordenassem estupros”, mas soma sua voz à de um
relatório do Conselho de Direitos Humanos da ONU sobre Gaza, segundo o qual
autoridades israelenses montaram um “aparelho de segurança em que a violência
sexual se tornou um dos procedimentos operacionais padrão”.
Anteriormente, entidades como Comitê para a
Proteção dos Jornalistas, Save the Children, B’Tselem, Breaking the Silence
(que há 21 anos agrupa denunciantes das próprias Forças de Defesa de Israel ) e
Euro-Med Human Rights Monitor têm documentado alegações de humilhações sexuais
e torturas de amplo espectro. Rebatidos pela eficiente máquina de propaganda do
Estado judeu por disseminar antissemitismo e ódio a Israel, esses relatórios
costumavam ser minimizados. Da mesma forma que os dados sobre a dizimação da
população palestina de Gaza produzidos pelo Ministério da Saúde sob controle do
Hamas foram longamente tachados de fantasiosos por Israel.
Desta vez, a operação abafa colocada em
marcha procurou desacreditar o valor dos testemunhos por se originarem de
militantes palestinos interessados em difamar Israel. O primeiro erro dessa
linha de acusação é factual: no artigo de Kristof, parte das testemunhas levava
uma vida de palestino comum, não militante. O segundo erro é de natureza moral:
sendo filiados ao Hamas ou militantes a favor da Palestina, merecem então
qualquer tratamento ignóbil?
Tome-se o exemplo do jornalista freelancer
Sami al-Sai, de Gaza, que relatou ter sido imobilizado, despido, vendado,
algemado e filmado enquanto era “montado” por um cão adestrado. O fato de
al-Sai ter festejado como triunfo palestino o massacre de israelenses por
terroristas do Hamas no infame 7 de Outubro de 2023 justifica ele ser
sexualmente humilhado por um cão, quando sob custódia do Estado?
No dia seguinte à publicação do artigo de
Kristof, Israel divulgou o aguardado relatório sobre a violência sexual
cometida pelos terroristas durante o 7 de Outubro. A Comissão Civil sobre os
Crimes do Hamas contra Mulheres e Crianças trabalhou nele por dois anos e
concluiu que atos de estupro e humilhação sexual de todo tipo ocorreram naquele
dia, com prolongamento no período de cativeiro dos reféns. São centenas de
depoimentos, vídeos e fotos que descrevem brutalidades infinitas, mas omitem
identificações e limitam a transparência, em parte para resguardar as vítimas.
Há uma diferença crucial entre os dois
levantamentos: o relatório da Comissão trata de crimes sexuais cometidos por
uma organização terrorista (Hamas) que praticou crimes horrendos contra civis;
a apuração de Kristof, somada à das entidades citadas, trata de denúncias de
tortura sistemática praticada por agentes do Estado ou acobertados pelo Estado
de Israel. Dois meses atrás, quando a atenção mundial se situava na guerra
contra o Irã, o Tribunal Militar israelense rejeitou as acusações contra os
cinco últimos soldados que respondiam por uma selvagem agressão sexual que se
tornou notória em 2024. Dez soldados e um cão haviam participado da violência
contra um detento, que sofreu laceração no reto, e foi captada parcialmente por
uma câmera interna.
À época, 67% dos israelenses se declararam
contrários ao julgamento dos acusados. Yoel Donchin, anestesista do hospital
adjacente à prisão de Sde Teiman, onde teria ocorrido o crime, teve a
humanidade de relatar o que viu. Coragem é a resistência ao medo, não ausência
de medo.

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