sexta-feira, 8 de maio de 2026

Um movimento para reformar a universidade, por Pablo Ortellado

O Globo

A formação dos estudantes se enriquece quando exposta a perspectivas plurais

Um grupo de professores lançou nesta semana um manifesto em defesa do pluralismo, da neutralidade institucional e da liberdade acadêmica nas universidades brasileiras. O manifesto busca enfrentar o cerceamento à liberdade acadêmica que se tornou rotineiro nas instituições.

Em maio de 2021, o reitor da UFPB desligou a TV UFPB do programa Univerciência, uma rede de universidades e emissoras públicas nordestinas. A decisão ocorreu após professores, no lançamento do programa, terem criticado a falta de investimento nas universidades e homenageado Paulo Freire. O reitor justificou o desligamento alegando “falta de afinidade” com as pautas e os trabalhos desenvolvidos.

Em fevereiro de 2023, estudantes da Faculdade de Direito da USP organizaram um abaixo-assinado para tentar impedir o retorno de Janaina Paschoal ao cargo de professora, após um período exercendo o mandato de deputada estadual. Os alunos disseram que ela não era mais “bem-vinda” à faculdade e a classificaram como persona non grata, alegando que sua atuação política era incompatível com os valores democráticos da instituição.

Em maio de 2025, a direção do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde do Mackenzie interveio na programação da Semana de Psicologia organizada pelos estudantes. A instituição proibiu termos que considerou sensíveis nos títulos das mesas, desconvidou debatedores e impôs a mediação de professores. Pelo menos uma apresentação com temática LGBT+ foi proibida.

Em outubro de 2025, um seminário na USP sobre mulheres em situação de vulnerabilidade foi interrompido após movimentos sociais e diretórios estudantis protestarem contra a presença de entidades que congregam comunidades terapêuticas, acusadas de maus-tratos. A interrupção aconteceu depois de manifestantes intimidarem participantes e destruírem mesas e materiais na porta do auditório.

Os casos são muito mais numerosos: pesquisadores da Sociologia da UFF identificaram mais de uma centena nos últimos anos (os exemplos citados aqui vêm de uma prévia desse estudo). A universidade tem deixado de acreditar que temas difíceis e controversos devem ser enfrentados com investigação rigorosa, evidências empíricas e análise ponderada. Vamos, pouco a pouco, nos acostumando a conviver com censura e intimidação movidos pelo sentimento de fazer justiça.

A comunidade acadêmica está perdendo a liberdade de debater, ensinar e pesquisar. Segundo pesquisa do Instituto Sivis, quase metade (48%) dos estudantes de ensino superior brasileiro afirma já ter se autocensurado em sala de aula. Para o público, a universidade — sobretudo a universidade pública — vai se tornando não mais um lugar de formação profissional e pesquisa de excelência, mas de militância. Segundo pesquisa da More in Common, 59% dos brasileiros confiam pouco ou não confiam na universidade pública, e 54% acreditam que a universidade pública promove mais ideologia do que ensino de qualidade.

Nossas universidades têm feito pouco para proteger a liberdade acadêmica. Muitas vezes, as instituições alegam questões de segurança para cancelar eventos que deveriam ser protegidos do assédio de quem quer impedir o debate. Não é suficiente a direção não se somar aos censores, ela precisa ativamente defender a liberdade de debater e ensinar. Também precisa preservar a neutralidade institucional. Se autoriza palestras de políticos de esquerda, precisa autorizar palestras de políticos de direita — e vice-versa. Da mesma forma, deve evitar posicionamentos sobre temas controversos que sinalizem a existência de uma ortodoxia oficial.

É preciso mudar nossa cultura institucional e orientá-la ao pluralismo de perspectivas. Nas ciências sociais e nas humanidades, precisamos nos esforçar para incorporar ao currículo perspectivas liberais e conservadoras que fazem parte do cânone das disciplinas. Em certas áreas da administração, da economia e do Direito, perspectivas progressistas estão ausentes ou sub-representadas.

A pluralidade contribui para um ambiente epistemologicamente saudável. A formação dos estudantes se enriquece quando exposta a perspectivas plurais, porque o confronto entre abordagens distantes permite identificar pressupostos, vieses e erros que tendem a passar despercebidos dentro de um mesmo horizonte intelectual.

Nos últimos anos, temos visto muitas críticas vindas de fora da universidade. Agora, começa a surgir um movimento de reforma vindo de dentro. Nas primeiras 24 horas após o lançamento do manifesto, assinaram o texto 350 docentes de 94 instituições, de 24 estados brasileiros. Parece que podemos começar a vislumbrar uma universidade onde as divergências não são mais enfrentadas com intimidação e hostilidade, mas pelo confronto estimulante de ideias.

 

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