sexta-feira, 8 de maio de 2026

Vida e morte das universidades, por Simon Schwartzman*

O Estado de S. Paulo

É a multiplicidade de funções e interesses que faz com que as universidades se mantenham e floresçam

Em artigo recente, os economistas David Cutler e Edward Glaeser tratam de explicar como as universidades têm sido capazes de existir por mais de mil anos e o papel importante que elas desempenharam e ainda desempenham em várias partes do mundo (How Have Universities Survived for Nearly a Millennium, NBER Working Paper 35079, 2026).

O segredo, dizem eles, está na combinação entre uma cooperativa de professores, com autonomia substancial sobre ensino e pesquisa e entidades externas de financiamento e controle – igreja, governos, filantropos, empresários, doadores. Eles têm interesses diferentes, mas que convergem. Os professores querem um lugar onde tenham liberdade para exercitar sua curiosidade, desenvolver e expor suas ideias sem se preocupar com de onde vem o dinheiro, e os controladores querem um lugar para onde possam mandar seus jovens e os melhores profissionais sejam formados. Cada um precisa ceder um pouco. Os professores precisam gastar tempo dando aulas e não exagerar em suas liberdades, a ponto de os controladores cortarem seus recursos; e os controladores precisam se cuidar para não forçar os professores a fazer o que não querem, matando a galinha de ovos de ouro.

Com o tempo, as universidades foram crescendo e se transformando pelos dois lados, instalando laboratórios e infraestrutura de pesquisa, organizando museus e atividades culturais, entrando em competições esportivas e desenvolvendo pesquisas de interesse civil e militar. É essa multiplicidade de funções e interesses que faz com que as universidades se mantenham e floresçam.

Como às vezes acontece, os economistas redescobrem e organizam de forma elegante ideias que já eram conhecidas entre cientistas sociais que estudaram essas questões. Um deles, Burton R. Clark, desenvolveu um modelo também simples e elegante da coordenação das universidades que ficou conhecido como o “Triângulo de Clark” (Clark, B. R., The Higher Education System: Academic Organization in Cross-National Perspective, University of California Press, 1983).

Nesse modelo, as universidades contemporâneas vivem dentro de um triângulo (três vértices): o governo, a corporação acadêmica e o mercado – formado pelos estudantes e empresas que contratam seus serviços. Cada um puxa e pressiona para seu lado e as universidades se aproximam de um ou outro vértice conforme a força de cada um. O interessante desse modelo é que ele permite entender como as universidades podem ser diferentes conforme o país e se transformar ao longo do tempo, movendo-se conforme varia a força de cada polo. E, tal como Cutler e Glaeser, mostra que as melhores e mais duradouras universidades são as que conseguem não ser dominadas por nenhum dos polos, aproveitando as vantagens e recursos de cada um. Universidades autônomas não são as que controladas por suas corporações internas, mas as que têm capacidade de se movimentar dentro do triângulo buscando onde possam maximizar os diferentes interesses sem perder a força vital de seus professores.

Nessas movimentações, muitas instituições criadas para fins práticos acabam se tornando mais acadêmicas, num processo conhecido como academic drift ou deriva acadêmica. Um autor inglês, Jonathan Harwood, explica esse processo pela hierarquia de status que existe no campo acadêmico, que dá mais prestígio e recursos para os cientistas que fazem pesquisa básica do que para os que se dedicam ao ensino ou a trabalhos aplicados (Understanding Academic Drift: On the Institutional Dynamics of Higher Technical and Professional Education, Minerva, 48, 2010). Esses desvios de função podem ter resultados positivos, por exemplo, em centros de pesquisa em agricultura que se envolveram em pesquisas acadêmicas sobre genética e acabaram por revolucionar o

campo das ciências agrárias; ou negativos, como parece ter ocorrido com os antigos centros federais de educação tecnológica brasileiros, que, ao serem elevados à condição de institutos universitários em 2008, se transformaram, de boas escolas técnicas, em instituições que hoje se dedicam sobretudo a formar bacharéis e professores do ensino médio como tantas outras.

Muitas instituições, no entanto, nem sobrevivem nem se transformam, simplesmente decaem. Quem, olhando para a América Latina, descreveu esse mecanismo meio século atrás foi o economista Albert Hirschman (Exit, Voice, and Loyalty: Responses to Decline in

Firms, Organizations, and States, Harvard University Press, 1970). Quando instituições perdem eficiência e estão sujeitas às regras do mercado, as pessoas se afastam delas e elas desaparecem. Quando elas são públicas e desempenham funções indispensáveis, as pessoas protestam, os governos vêm em seu socorro e elas renascem.

O pior é quando elas são públicas, mas perdem o monopólio para outros concorrentes. Elas não morrem, mas definham. Os exemplos de Hirschman eram as antigas ferrovias, sufocadas pelas rodovias. Os exemplos atuais podem ser tanto os Correios quanto muitas universidades públicas da região, cujas greves e protestos se arrastam e cada vez menos se ouvem. 

*Sociólogo, é membro da Academia Brasileira de Ciências

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