sábado, 13 de junho de 2026

A Copa e a pulsão de vida, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

A copa também nos rende cenas incríveis de amizade entre povos, de alegria infantil genuína, de uma emoção que sobe pelos ossos por conta de uma vitória que, a rigor, a rigor, não vale nada além da alegria

Hoje é dia de estreia do Brasil na copa. Que o brasileiro é um apaixonado por futebol e um espectador entusiasmado do torneio é uma obviedade, por isso não deixa de chamar atenção o quanto nosso ânimo está amofinado com a seleção que disputa este ano. Eu suspeitaria que o abatimento geral é uma mistura de descrença com a qualidade do futebol apresentado com um incômodo com a apropriação de certos símbolos do futebol nacional por uma política muito polarizada.

A camisa amarelo canário se tornou "a camisa do Bolsonaro", assim como a bandeira nacional afixada em carros e sacadas de prédios se converteu, há anos, em posicionamento ideológico. É sintomático ver a saída bem-humorada que alguns torcedores encontraram para se dissociar do bolsonarismo: a frase "é pra copa" pode ser em vista aqui e acolá em decorações que ornamentam as ruas da cidade.

Longe de achar que devemos dissociar o futebol da política, e abrir mão de uma paixão divertida que mobiliza nosso senso de patriotismo há décadas, acho que devemos reconhecer na copa uma oportunidade incrível para diversão e para reflexão crítica. O evento é uma catarse carnavalesca e revela muito do que nós somos. Como sociedade, como país, como economia e como mundo.

É bonito ver o modo como as pessoas se envolvem apaixonadamente com a experiência do torneio, e temos essa certeza fresca na memória porque sediamos o evento há pouco tempo. A copa no Brasil, com todas as suas polêmicas dentro e fora de campo, foi uma festa muito interessante, e nos deu oportunidade para compreender, além do nosso potencial para a alegria, muito dos nossos vícios assim como da nossa capacidade de tolerar absurdos.

Vejamos o que a edição deste ano nos oferece. Como negar que o Ocidente tem sido palco de uma política perversamente violenta, xenófoba e violadora dos direitos humanos mais básicos? O torneio nos dá a chance única de ver a diferença inexplicável de tratamento entre seleções a depender de sua origem cultural. Nos dá a oportunidade de observar um árbitro ser deportado unicamente por ser da Somália, permite que nos confrontemos com as nossas contradições mais básicas e nosso pseudouniversalismo.

A copa também nos rende cenas incríveis de amizade entre povos, de alegria infantil genuína, de uma emoção que sobe pelos ossos por conta de uma vitória que, a rigor, a rigor, não vale nada além da alegria. E isso é bonito, é uma pulsão de vida que justifica o esporte e sua competição como patrimônio da nossa cultura.

No torneio, acho que, mais do que torcer pelo Brasil, eu torço pela festa, pelo colorido, pelo imprevisto do carnaval. A copa me lembra que estou viva e que a vida é mais do que trabalho sério e disputa eleitoral por poder.

*Professora de Direito da UFCE

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