Correio Braziliense
O brasileiro é um pessimista profissional. E,
na Itália, um a zero é goleada. Ou seja, o sofrimento e o pessimismo estarão
garantidos nos próximos 30 dias.
O Velho do Restelo é personagem de Os Lusíadas, de Luís de Camões, obra maior da literatura portuguesa, publicada em 1572. Ele aparece quando a armada de Vasco da Gama parte para a Índia. Enquanto todos celebram a viagem, um velho, parado na praia do Restelo, em Lisboa, critica a expedição e alerta para os perigos, os sofrimentos e as mortes que ela poderá causar. O autor condena a busca da glória. O brasileiro herdou a maneira portuguesa de observar fatos. É um pessimista profissional. Coloca em dúvida o país em todas suas dimensões.
O início da Copa do Mundo concede
oportunidade para o mau humor, e a dúvida quanto à competência dos jogadores
volta à baila. Quase todos os dias o Velho do Restelo, interpretado como a voz
da experiência, a oposição à novidade e ao progresso, aparece por inteiro na
vida nacional. Há um pessimismo desenvolvido na horizontal dentro da sociedade.
Nelson Rodrigues enxergou no fenômeno o famoso complexo de vira-lata, que faz o
brasileiro se diminuir diante dos vizinhos e das dificuldades. Cada vitória no
futebol, no vôlei, no tênis ou em qualquer outro esporte é encarada como
superação das tremendas dificuldades enfrentadas pelo sofrido povo nacional. É
uma sofrência sem fim.
Assisti, de corpo presente, no Estádio de
France, em 1998, em Paris, ao jogo Brasil versus Escócia, primeiro da Seleção
nacional naquela Copa. Difícil. Vencemos por 2 a 1. Emoção pesada. Torcida
vibrante dos escoceses, vestidos de saia kilt, que gritavam suas palavras de
ordem. Eles também não gostam de perder. Mas a tensão de ver um jogo ao vivo,
no estádio, é incrível. Vale o esforço para assistir a uma partida. Pena que os
preços das entradas estejam caríssimos nos Estados Unidos. Inacessíveis para a
maioria dos mortais. O americano médio não gosta de futebol. As plateias são
constituídas de migrantes, latinos, europeus ou asiáticos, que vivem naquele
país. Na Copa do Mundo de clubes, os estádios ficaram vazios. Os organizadores
foram obrigados a distribuir ingressos gratuitos para evitar que a televisão
mostrasse grandes áreas sem público nos estádios.
O governo dos Estados Unidos armou uma
arapuca para prender latinos e asiáticos durante o torneio. Serão, ou seriam,
qualificados como migrantes indesejáveis. Eles já recusaram torcedores e
jogadores. Até um juiz. Vexame. Essa ameaça já esvaziou os hotéis. Em Nova
Iorque as reservas estão muito abaixo das previsões. No México e no Canadá, os
hotéis estão repletos.
Mas assistir aos jogos pela televisão também
conduz a um certo pessimismo. Os locutores são exagerados na sua narração. A
gritaria é geral, sem qualquer explicação razoável. E os comentaristas são
lamentáveis, salvo raras exceções que conhecem bem o esporte. Na maioria dos
casos, eles não estudam o contexto em que estão trabalhando. Na Copa do Mundo
da Rússia, alguns jogos foram realizados em Stalingrado, local da mais violenta
batalha na Segunda Guerra Mundial. Ali se decidiu o destino do conflito e a
posterior derrota dos nazistas. Um jornalista brasileiro falou dos jogos nas
margens do Rio Volga e não foi capaz de fazer qualquer referência ao local
histórico em que ele estava pisando.
Não há compromisso com a verdade. Na final de
1998, em que o Brasil perdeu de 3 a 0 para a França, ocorreu o problema com
Ronaldo Fenômeno. Na véspera da final, o jogador sofreu algo parecido com surto
psicótico. Foi levado para exames em hospital e nada foi encontrado. Mas o
Brasil começou o jogo com Edmundo no papel de centroavante. Ronaldo entrou no
correr da partida. Até hoje ninguém explicou o ocorrido. O jornalismo esportivo
brasileiro é opiniático. Cada um diz o que pensa, não há preocupação em buscar
verdades. O fabuloso Garrincha, um dos melhores do mundo em todos os tempos,
era alcoólatra. Gostava muito da branquinha. Morreu de tanto beber. Durante sua
vida, jamais algum jornal tratou do assunto. Somente na sua biografia, de Ruy
Castro, a doença apareceu por inteiro.
As histórias de futebol são escabrosas. Às
vezes, realmente, é melhor não descer às suas verdades para não esbarrar em
decepções fundamentais. Por essa razão, o brasileiro limita-se a torcer, sofrer
e tentar adiantar resultados. O time brasileiro deste ano não é dos melhores.
Melhor, desta vez, é o técnico, várias vezes campeão nos principais torneios
europeus. Conhece bem o esporte. E não é teimoso. Percebe a hora de mudar. É a
tênue esperança nacional que a Seleção Brasileira jogue um futebol parecido com
o do Real Madrid, ao tempo em que era treinado por Ancelotti. Ele é
italiano.
E, na Itália, o futebol é visto com uma
simples disputa. Não se pretende dar espetáculo, nem jogar bonito. Um a zero é
goleada. Assim os italianos conseguiram seus títulos mundiais. Pode ser esse o
único caminho de eventual sucesso da Seleção nacional. Ou seja, o sofrimento e
o pessimismo estarão garantidos nos próximos 30 dias. O Velho do Restelo
continua muito atual.

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