sábado, 27 de junho de 2026

A Copa superlativa, por Marco Aurélio Nogueira*

O Estado de S. Paulo

A Copa expressa bem a mundialização do esporte mais popular do planeta. Está radicalmente mercantilizada. É uma máquina de fazer dinheiro

A Fifa conseguiu organizar uma Copa do Mundo com números extravagantes: 48 seleções, 1.248 atletas de diferentes credos, etnias e culturas, estádios gigantescos espalhados pelos Estados Unidos, México e Canadá. Consta que a Fifa projeta faturar US$ 8,9 bilhões, tornando a Copa de 2026 a mais lucrativa da história do torneio. Em direitos de transmissão serão US$ 3,9 bilhões. Com ingressos e hospitalidade, outros US$ 3,12 bilhões. Patrocínios e marketing, mais US$ 1,8 bilhão. Com as pausas para hidratação virão US$ 500 milhões em receitas de publicidade.

A Copa 2026 expressa bem a mundialização do esporte mais popular do planeta. Está radicalmente mercantilizada. É uma máquina de fazer dinheiro. Os atletas protagonizam o espetáculo: viabilizam a rentabilidade das marcas e, ao mesmo tempo, exibem suas identidades, seus estilos pessoais, suas chuteiras valiosas. Uns mais, outros menos, todos são stars. A mundialização aprofundou a miscigenação, filha da “diáspora” mais recente. Fugindo das guerras e das más condições de vida em vários países (muitas ex-colônias) da África, da Ásia, do Oriente Médio e do leste europeu, diversas famílias criaram seus filhos no Ocidente e alimentaram tanto as seleções dos países originários quanto das europeias. Tudo se misturou. Seleções “brancas” ficaram multicoloridas.

Essa integração esportiva nivelou o jogo jogado. Não eliminou diferenças: continuam existindo equipes fortíssimas, fortes, medianas e fracas. Mas o equilíbrio aumentou. O milionário futebol europeu se tornou a Meca do esporte. Quem tem talento vai aprender lá. Com isso, atletas de diferentes países passaram a receber treinamentos semelhantes e a assimilar concepções táticas parecidas. Todas as seleções estão bem preparadas, com atletas que sabem o que fazer com a bola. As mais fracas se fecham, as mais fortes assumem riscos. Mas, no futebol, um erro decide. Não se ganha jogos por antecipação ou só pelo peso da camisa. Como observou o professor Paulo Fábio Dantas Neto, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), “o futebol é um esporte em que jogadores e times podem substituir sua menor qualidade por mais retranca, garra, entrega, superação, coragem, heroísmo ou qualquer outro nome que se possa dar a zebras e surpresas em geral”.

Coisas importantes continuam a fazer a diferença. A tradição, a identidade e a continuidade do trabalho ao longo de anos. Das grandes escolas futebolísticas, apenas a italiana ficou de fora, mais uma vez. O tempo de preparação, de convívio dos atletas e de assimilação tática, o que produz harmonia e coesão coletiva. Os jogadores decisivos, em torno dos quais gira o jogo. Há vários craques distribuídos pelas seleções mais fortes. A Argentina tem um gênio, Messi. O Brasil tem Vini Jr., mas a seleção busca recuperar a identidade perdida e seu técnico não consegue definir uma equipe. Parece estar melhorando jogo após jogo.

E o que falar das transmissões televisivas, tanto da Globo quanto da novata e poderosa CazéTV? São uma prova de resistência para os espectadores. Carregadas de informações supérfluas e ufanismo. Investem pesado em autopromoção. A CazéTV o faz de forma escrachada, celebrando sua audiência e seus patrocinadores. A Globo é mais contida, mas segue roteiro semelhante. Os profissionais conhecem futebol, mas também atuam como animadores de torcida e garotos-propaganda. As emoções do futebol são amplificadas por discursos passionais. Menospreza-se a qualidade das seleções mais fortes para se exaltar a coragem e a resiliência das mais fracas. Fabricam-se heróis instantâneos (os 15 minutos de fama do goleiro Vozinha, de Cabo Verde) e tropeços ocasionais são transformados em feitos históricos. Há aí um componente de compensação: já que não há uma seleção brasileira competitiva, desconstruamos a imagem das melhores, torcendo contra elas.

Fernando Gabeira lembrou, numa coluna do Estadão (Hora de jogar com a cabeça na Copa, 19/6, A6), que a Copa, concebida como apologia do esporte e do fair-play, teve de conviver com a política migratória e a xenofobia de Trump. Os “ares da guerra contra o Irã foram transplantados para o campo esportivo”. O governo estadunidense passou vexame ao exigir que os iranianos jogassem nos Estados Unidos, mas dormissem no México. O árbitro somali Omar Artan foi barrado ao entrar nos Estados Unidos. Jogadores senegaleses foram submetidos a inspeções rigorosas sob suspeitas paranoicas. A Fifa aceitou.

Agora falta o desfecho. Virá o hexa? Por que não? Afinal, trata-se de futebol. Mas o futebol brasileiro não é mais um bicho-papão, perdeu qualidade e brilhantismo, paga um preço alto por sua desorganização, pelas gestões incompetentes, pelo endividamento dos clubes, pela ruindade da arbitragem. A eliminação precoce da seleção talvez contribua para que se veja a situação a que chegamos e impulsione mudanças importantes: reforma do calendário, aperfeiçoamento da formação de base e maior incorporação de tecnologia. A conquista da Copa, ao contrário, poderá varrer a sujeira e a mediocridade para baixo do tapete.

Só nos resta aguardar. 

*Professor titular de Teoria Política da UNESP

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