segunda-feira, 15 de junho de 2026

A direita faz cálculos sem Bolsonaro, por Miguel de Almeida

O Globo

E se o filho de Jair se mostrar um cavalo paraguaio (aquele que sai na frente e não aguenta o trote)? E se ele ganhar? Fará um governo de revanche, na mesma linha do Trump 2.0?

E se Flávio Bolsonaro acabar derrotado? E se o filho do Jair se mostrar um cavalo paraguaio (aquele que sai na frente e não aguenta o trote)? Existem outras perguntas: e se ele ganhar? Fará um governo de revanche, na mesma linha do Trump 2.0? Terá autoridade para evitar que seu irmão, Eduardo, venda o Brasil aos americanos? Afinal, o negócio está claro: Trump ajuda Flávio na eleição e então cobra o preço. Depois do Pix (olha o Zelle aí...) e das terras-raras, devidamente elencadas, poderia ser a Amazônia. Ou a Petrobras.

O apoio à candidatura de Flávio já sai caro a seus mantenedores. Medidas como os tarifaços 1 e 2 e a classificação das agremiações criminosas PCC e CV como terroristas causam prejuízos financeiros às empresas. A começar pela turma do agro, que deve se perguntar: até quando a ojeriza a Lula compensa a sangria provocada pelos Bolsonaros? Entra na mesa a fatura posta pelo patriarca de Rio das Ostras ao escolher o filho e não o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Ele joga com os seus, não para seu grupo político.

Daí que o ungido traz defeitos de origem. Não tem ajudado. Sua imagem não tem a nitidez do pai, radical assumido, misógino e ignorante em matemática. Esperto ao menos: com vários casamentos no currículo, conseguiu arrebanhar os pastores evangélicos que, em troca, ganharam várias isenções fiscais. Ficou claro que preferem ter seu paraíso em vida e não depois da morte. Bolsonaro, ao contrário do filho, se mostrou autêntico: fez da escalada de horrores sua plataforma política — vide as saudações sinceras à bandidagem.

O filho, não. Age com a espontaneidade do caixa eletrônico. Diante da revelação de sua ligação com Vorcaro, de imediato tratou de negá-la. Para abraçá-la pouco depois. Melhor fez Valdemar Costa Neto ao admitir que o jovem Bolsonaro foi buscar a parte final do dinheiro ao visitar Vorcaro já em prisão domiciliar. É nessa admissão que a direita deixa seu jogo mais claro. O custo de face dos Bolsonaros mostra-se oneroso. São muitos imóveis comprados em pagamentos em espécie, variadas rachadinhas, muitas condecorações a milicianos e infinitos rastros para manter um sangue do meu sangue no exterior.

Valdemar, com a direita, faz cálculos. Até o momento, não está enroscado com as mesadas do Master. Ciro Nogueira, presidente do PP, está mais perto da Papuda que da doce Courchevel; Antonio Rueda, comandante do União Brasil, também tem o que temer. Valdemar sorri.

O cálculo: a derrota de Flávio soa melhor que uma hipotética vitória. Com a vitória, viriam corpos e fantasmas no armário bolsonarista — e a fatura americana. E o PT, Valdemar, que já foi seu aliado, sabe administrar melhor na oposição. O naufrágio do jovem senador significaria a transformação do capital político da família em somente uma franja na extrema direita. Portanto sem força para fazer biquinho e querer ditar os rumos da direita civilizada.

Quanto a Lula, friamente, será seu último mandato. Dentro de um governo premido pela urgência de um ajuste fiscal, atolado num déficit precificado em altos juros e na necessidade desagradável de realizar um novo aperto na Previdência. Como as tendências do PT se comportarão quando o aumento de aposentadorias e do salário mínimo ocorrer apenas pelo índice inflacionário?

Em 2030, Lula irá para casa, enquanto seus correligionários continuarão atrás de votos. Será um deus nos acuda, em que a direita espera ver o Lula 4 emparedado para executar reformas que evita encarar desde seu primeiro mandato, em 2003. É uma tese.

A disparada nos juros futuros exibe a desconfiança matemática sobre a próxima administração petista. Valdemar e a turma da Faria Lima observam o dado cru: pela primeira vez na História, o país ultrapassa a marca de R$ 1 trilhão em juros nominais num período de 12 meses. Em miúdos, no primeiro quadrimestre de 2026, são R$ 351,5 bilhões, ou perto de R$ 3 bilhões por dia. Dados do BC.

Sou paulistano e conheço políticos como Valdemar, que preferia Michelle, e não o filho de Jair. Ele sabe que a eleição de 2030 será a primeira sem Lula no tabuleiro. Depois de um governo difícil, a direita aposta num horizonte com um PT desmilinguido e o bolsonarismo atolado em processos criminais. Caso haja dúvidas, observe o entusiasmo de Tarcísio ao apoiar o Flávio. Não chamo aquilo de amor.

 

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